Em 2026, O Imparcial atinge a marca centenária, um feito que poucas empresas conseguem alcançar. Mais do que papel e tinta, o jornal é um organismo vivo que pulsa em diferentes endereços de São Luís. De sobrados coloniais a prédios modernos, as paredes do “Impar” guardam o suor de gerações. Nesta matéria especial, revisitamos os endereços que abrigam essa trajetória secular.
O diretor de redação Raimundo Borges, e os jornalistas Zezé Arruda e Ribamar Praseres, resgatam memórias únicas de quem viveu o cotidiano das redações.
O Palacete do Jornalismo
Por mais de meio século, o coração de O Imparcial bateu no Centro Histórico. O imponente sobrado de cinco andares na Rua Afonso Pena não era apenas uma sede; era um monumento.
Raimundo Borges, que ingressou na casa em 1970, recorda a emoção da primeira chegada. “Eu subia aquelas escadarias com uma emoção muito forte… aquele sobrado é um monumento fantástico. Entrei em busca de uma oportunidade como repórter fotográfico”.
Borges viveu a transição do rudimentar sistema de linotipo para o moderno offset em 1973, uma revolução que trouxe nitidez às fotos e agilidade ao texto.
Já a Maria José Arruda, conhecida como Zezé Arruda, chegou cinco anos depois, em 1978. Ela descreve o ambiente com um lirismo que a transporta no tempo. “Era um lugar deslumbrante. A entrada toda de pedra portuguesa, uma escadaria imensa de tábua corrida, salas imensas e um lustre no meio da escada. A redação ficava no último andar. Tínhamos o privilégio das sacadas, tudo o que passava na rua — procissão, banda de carnaval — a gente corria para olhar”.
O cheiro de chumbo derretido das linotipos
Nesta sede, o “fazer jornal” era raiz. O cheiro de chumbo derretido das linotipos misturava-se ao som dos teletipos. Foi ali que a bolsa de Zezé rompeu em plena redação. Segundo ela, aquele momento fez do seu filho Gustavo um “jornalista de nascimento”.
Transição para o São Francisco
No final da década de 1990, o risco de incêndio em prédios vizinhos no Centro e a necessidade de expansão levaram o jornal para uma nova sede no São Francisco. Era um prédio de três andares, mais funcional e “acanhado”, como define Ribamar Praseres, que ingressou justamente nesse período, em 1999.
“O prédio era de transição. Me chamou a atenção os repórteres trabalhando lado a lado e a diagramação em uma espécie de ‘aquário’ de vidro no centro”, conta Praseres. Zezé Arruda lembra que a adaptação foi difícil.
“O prédio era menor, as escadas estreitas… chamávamos a nossa sala de ‘o porão’. O espaço parecia pequeno, mas o ambiente era excelente porque a equipe se completava”, relembra a jornalista. Nessa fase, a redação se desgarrou da oficina, que funcionava em outro endereço, criando uma expectativa ansiosa pelo que viria a seguir.
A consolidação da modernidade
A mudança para a sede própria no bairro do Renascença representou o ápice da infraestrutura. Apelidado carinhosamente pela equipe de “Mármore do Renascença”, o prédio foi projetado para integrar todos os processos. Ribamar Praseres destaca o orgulho da mudança. “Vislumbrávamos melhores condições: espaço físico amplo, equipamentos modernos. No Renascença, tudo ficou próximo: redação, diagramação e as novas máquinas rotativas, que víamos do pátio em funcionamento”.
É nesta sede que a “cultura do cafezinho” se oficializou. Zezé Arruda recorda com saudade das mesas de trabalho, cada uma com sua cafeteira, e da vibração da equipe com o sucesso do jornal. “A gente vibrava como se tivesse ganho na Mega-Sena. O Imparcial nunca largou minha mão nos momentos difíceis. Era uma terapia, um trabalho alegre”.
Um legado que atravessa paredes
Para Raimundo Borges, que viu o prédio da Afonso Pena ser restaurado para se tornar o Museu Nacional do Azulejo, o mais importante não era apenas o endereço físico, mas a resiliência da marca. “O que é mais importante é a resistência, a resiliência de uma atividade que se recusa a parar no tempo. Tenho convicção que este jornal não ficará somente nos 100 anos”, conclui.
Seja no ar fresco das sacadas do Centro Histórico ou no conforto climatizado do Renascença, a essência de O Imparcial permanece a mesma: o equilíbrio da informação e o espírito de quem, há um século, escreve a história do Maranhão todos os dias.