Um em cada 5 universitários brasileiros tem ideação suicida


(O Globo) Infelizmente, a sensação de encontrar estudantes universitários deprimidos deixou de ser uma exceção para se tornar parte do cotidiano acadêmico. Embora ainda menos frequentes, os casos de suicídio entre universitários têm aumentado nos últimos anos, acendendo um sinal de alerta importante para instituições de ensino e pesquisadores.

A literatura científica tem mostrado de forma consistente que depressão e ideação suicida frequentemente caminham juntas. No entanto, esse não é um vínculo absoluto. A ideação suicida — isto é, pensamentos sobre morrer, sobre pôr fim à própria vida ou ferir-se — pode emergir mesmo na ausência de sintomas depressivos intensos. Esse dado, aparentemente paradoxal, revela um ponto crucial: outros fatores, para além da depressão, também participam desse complexo.

Foi a partir dessa lacuna que nós, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), planejamos investigar, de forma mais ampla, os fatores associados à ideação suicida na comunidade acadêmica brasileira. Os resultados desse esforço acabam de ser publicados no periódico The Lancet Regional Health – Americas e oferecem uma visão mais abrangente e necessária sobre o tema.

Muito além da depressão

O objetivo central do estudo foi examinar fatores psicossociais de vulnerabilidade e proteção relacionados à ideação suicida, indo além da explicação tradicional centrada apenas na depressão. Para isso, analisamos diferentes dimensões da experiência humana, como sentimentos de solidão, otimismo, histórico de maus-tratos emocionais na infância e características demográficas.

Essa abordagem mais integrada permite compreender a ideação suicida não como uma manifestação isolada, mas como resultado de múltiplas influências que se entrelaçam ao longo da vida. Ao isso, acreditamos que nosso estudo contribui não apenas para o avanço científico, mas também para a criação de estratégias mais estratégias de identificação precoce e prevenção.

Retrato da comunidade acadêmica

A pesquisa contou com a participação de 3.828 pessoas, recrutadas por meio de e-mails, WhatsApp e redes sociais. A maioria dos entrevistados era formada por mulheres (67,63%) e indivíduos brancos (66,74%), com predominância de jovens adultos entre 18 e 39 anos. Todas as informações demográficas foram autorrelatadas, seguindo categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A categoria “negros”, por exemplo, incluía tanto pessoas pretas quanto pardas.

Além disso, os participantes informaram se já tiveram diagnóstico de transtornos mentais, como depressão, ansiedade ou transtorno bipolar. Esses dados ajudaram a compor um panorama mais completo da saúde mental da amostra.

O estudo faz parte do projeto PSIcovidA, uma investigação longitudinal sobre saúde mental na comunidade acadêmica brasileira. Ao final da participação, todos os voluntários receberam orientações e contatos para apoio psicológico.

Como medir o invisível: tecnologia e saúde mental

Para analisar os dados, recorremos a ferramentas de aprendizado de máquina, capazes de identificar padrões complexos em grandes volumes de informação. O modelo escolhido foi o Multiple Kernel Learning _(MKL), já utilizado nos estudos anteriores e conhecido pela capacidade de integrar diferentes dados com precisão e por permitir melhor interpretação dos resultados.

Esse tipo de abordagem permite integrar diferentes variáveis, que incluem sintomas psicológicos até características demográficas, em um único modelo preditivo. No estudo, foram incluídas medidas de depressão, solidão, otimismo e experiências adversárias na infância.

A ideação suicida, por sua vez, foi avaliada por meio de uma pergunta direta sobre pensamentos de morte ou autolesão nas últimas duas semanas. Qualquer resposta diferente de “nenhuma vez” já foi considerada um indicativo de risco, seguindo protocolos amplamente utilizados na literatura científica.

Números preocupantes

Os resultados revelaram que 18,86% dos participantes tiveram ideação suicida, ou seja, quase um em cada cinco pessoas da amostra. Trata-se de um dado expressivo, que reforça a urgência de olhar com mais atenção para a saúde mental nas universidades.

Os modelos de análise mostraram que é possível distinguir, com boa precisão, indivíduos com e sem ideação suicida. Como esperado, os sintomas depressivos foram os principais preditores. No entanto, eles não contaram toda a história.

Outros fatores como otimismo, sentimentos de solidão e histórico de maus-tratos emocionais tiveram peso relevante na classificação, respondendo por cerca de metade da explicação do interesse.

O equilíbrio entre risco e proteção

Um dos achados mais interessantes diz respeito ao papel do otimismo. Diferentemente dos fatores de risco, ele apareceu com peso negativo no modelo — ou seja, quanto maior o nível de otimismo, menor a probabilidade de ideação suicida.

Esse resultado sugere que o otimismo funciona como um importante fator de proteção. Pessoas que tendem a enxergar o futuro de forma mais positiva parecem estar mais protegidas contra pensamentos suicidas, mesmo diante de dificuldades.

Essas explicações dialogam com a chamada teoria dos três passos do suicídio, que propõe que a ideação suicida surge da combinação entre dor psicológica e desesperança. Nesse contexto, fatores como solidão e maus-tratos emocionais na infância são atraídos para a dor, enquanto o otimismo atua como um amortecedor contra a desesperança.

Marcas da infância que atravessam o tempo

Outro ponto relevante foi o impacto dos maus-tratos emocionais na infância. Experiências como abuso e negligência emocional responderam por cerca de 22% do peso total no modelo. Um valor expressivo e preocupante.

Esses achados reforçam evidências já conhecidas: vivências adversárias na infância podem deixar marcas de tristeza na saúde mental. Em nosso estudo, sentimentos como “ter sido uma criança indesejada” ou “ter sofrido abuso emocional” foram fortemente associados à ideação suicida.

Mesmo quando os sintomas depressivos são considerados, essas experiências continuam exercendo influência, mostrando que o passado emocional pode moldar profundamente a forma como lidamos com o sofrimento no presente.

Solidão

A solidão também apareceu como um fator relevante, ainda que com peso moderado. A sensação de falta de companhia, mais do que o isolamento físico em si, foi um dos indicadores mais importantes.

Estudos anteriores já apontam que a solidão está associada à ideação suicida em diferentes populações, inclusive entre estudantes brasileiros. Ela pode intensificar o sofrimento emocional e aumentar a sensação de desconexão, tornando o indivíduo mais vulnerável.

Ao mesmo tempo, a solidão desperta o desejo de pertencimento — um paradoxo que evidencia a importância de estratégias que fortalecem vínculos sociais e reduzem o sentimento de ser um fardo para os outros.

Os resultados do estudo apontam para uma conclusão clara: não é suficiente olhar apenas para a depressão ao avaliar o risco de ideação suicida. É preciso adotar uma abordagem mais ampla, que considere múltiplos fatores emocionais, sociais e biográficos.

Isso tem implicações diretas para políticas de saúde mental nas universidades. Protocolos de rastreamento mais completos, disciplinas que promovam otimismo e pertencimento, e ações de apoio psicológico podem fazer diferença.

Ao mesmo tempo, é importante considerar os limites do estudo. Os principais são o delineamento transversal, que impede estabelecer relações causais, e a limitada generalização dos achados, em função da amostra acadêmica e do contexto específico da pandemia.

Além disso, a maioria das pesquisas ainda se concentra em países de alta renda, e os resultados podem variar em diferentes contextos culturais. Portanto, investigar a realidade brasileira representa um passo fundamental.

No fim das contas, o que este estudo revela é algo profundamente humano: o sofrimento psíquico não tem uma causa única. E, portanto, também não terá uma única solução.

Compreender a ideação suicida exige ouvir histórias, reconhecer vulnerabilidades e, sobretudo, identificar caminhos de proteção. Entre eles, talvez um dos mais poderosos seja justamente aquele que o estudo destacou: a capacidade de ainda esperar que coisas boas possam acontecer.

Onde buscar ajuda?

Se você estiver passando por um momento difícil, confira outros lugares além do CVV para buscar ajuda:

Pode Falar – Unicef

Chat da Unicef oferece atendimento para pessoas entre 13 e 24 anos de segunda a sábado das 8h às 22h. Clique aqui ou acesse podefalar.org.br

Unidades de Atenção Psicossocial

Clique aqui e confira as unidades da Rede de Atenção Psicossocial do Ministério da Saúde que oferecem atendimento.

Mapa da Saúde Mental

Mapa do Instituto Vita Alere reúne informações confiáveis sobre locais disponíveis para atendimento. Clique aqui ou acesse mapasaudemental.com.br

*Orlando Fernandes Júnior é Pesquisador de pós-doutorado no Instituto Biomédico, Universidade Federal Fluminense (UFF). Arthur Viana Machado é Enfermeiro e Doutor em Fisiologia, atua como pesquisador de pós-doutorado, Universidade Federal Fluminense (UFF). Letícia Oliveira é Professora Titular da Universidade Federal Fluminense (UFF). Liana Portugal é Professora do Departamento de Ciências Fisiológicas (DCF) do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (IBRAG), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mirtes Garcia Pereira é professora titular da Universidade Federal Fluminense (UFF).



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