Um batelão que corta as águas barrentas do Rio Acre leva consigo muito mais que tripulantes: carrega o cinema, o amor pela Amazônia e a voz de personagens reais. O projeto Cine Beira-Rio é uma iniciativa que promove o acesso ao audiovisual acreano em territórios nos quais a arte raramente chega, fortalecendo os laços entre cultura, preservação ambiental e identidade comunitária.
Aprovado pelo Fundo Estadual de Cultura 2025 e realizado pela Ciranda – Cultura e Meio Ambiente, o projeto percorre comunidades situadas rio abaixo de Rio Branco, como Extrema e Liberdade. A viagem, que dura cerca de duas horas partindo do porto da catraia, no Segundo Distrito da capital, transforma o cotidiano ribeirinho em um espetáculo cultural.
Estrutura e programação
Sempre aos domingos, a equipe monta uma estrutura completa de cinema ao ar livre, com cadeiras, projetor, sistema de som e, claro, pipoca. As sessões iniciam ao entardecer, às 18h, oferecendo cerca de 1h30 de filmes que dialogam diretamente com a realidade local. A curadoria destaca produções do Acre que refletem a memória e o cotidiano da nossa gente:
Para as crianças: As animações “Sementes”, de Isabelle Amsterdam, e “Clarinha e o Boto”, de Enilson Amorim.
Documentários e Narrativas: “Mercado de Histórias” e “Ponte de Memórias”, de Alcinethe Damasceno, que trazem o rio como protagonista.
Regionalismo: Completam a mostra os filmes “O Profeta do Acre”, de Fabiana Júlia, e “Correria”, de Silvio Margarido.
Cultura que planta futuro
Compreendendo que a cultura ribeirinha é indissociável do ecossistema, o Cine Beira-Rio integra ações de preservação ambiental. Em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, o projeto realiza o plantio de cerca de 200 mudas de açaí, andiroba e copaíba ao longo das margens, combatendo o assoreamento e o desmatamento.
A iniciativa é um grito de alerta contra a poluição e os eventos climáticos extremos que afetam quem vive da pesca e da agricultura de subsistência. Durante as sessões, práticas sustentáveis, como o recolhimento rigoroso de resíduos, reforçam a mensagem de cuidado com as futuras gerações.
Última exibição
Antes de seguir curso definitivo rio abaixo, o projeto viveu um momento marcante em sua base de saída. No último domingo, dia 26, uma edição especial ocupou o porto da catraia do bairro Seis de Agosto, montada simbolicamente em frente à casa do catraieiro Antônio Viana, integrante da equipe.
O evento transformou o porto em um espaço de acolhimento e cidadania. Além da magia da tela, o público desfrutou de uma ação de saúde promovida por estudantes de Enfermagem da Universidade Federal do Acre (Ufac), com aferição de pressão arterial e orientações à comunidade. O plantio de mudas de açaí no local selou o compromisso do projeto com a arborização urbana e a saúde do Rio Acre, consolidando a sessão como um espaço de pertencimento e esperança para um futuro mais sustentável.
A jornada itinerante continua. Partindo sempre do porto da catraia, no Segundo Distrito, o Cine Beira-Rio prepara agora suas próximas paradas nos bairros Belo Jardim e Panorama. Essas exibições reforçam o objetivo de consolidar espaços de pertencimento e lazer em diferentes pontos da capital, onde as histórias da Amazônia ganham vida e apontam caminhos para um futuro coletivo e sustentável.
A Força por trás do projeto
A coordenação está nas mãos de Alcinethe Damasceno, diretora e roteirista com mais de 30 anos de experiência em projetos sociais. Inovadora, Alcinethe instalou no batelão a “Rádio da Alegria”, um sistema de alto-falantes que transmite músicas e convites, preparando o clima para as exibições.
A equipe reúne um mosaico de saberes essenciais:
Alcinethe Damasceno: Coordenação geral e cineasta.
Antônio Viana: Catraieiro veterano do porto da Seis de Agosto.
José Carlos Mendes (“Gordo”): Liderança comunitária e articulador logístico.
Djanira Soares (Dona Deja): Agricultora, feirante e personagem real que agora ajuda a levar a arte aos seus pares.
Produção: Ana Lis, Tuã Victor, Soraya Montenegro, Rafael Dias, Milena e Maria Meirelles.
Ao unir o conhecimento tradicional dos trabalhadores do rio à dedicação da equipe técnica, o Cine Beira-Rio prova que as histórias da nossa gente, quando contadas e vistas na beira do rio, ganham a força necessária para transformar realidades.