A elevação rápida do nível do Rio Acre, seguida por quedas igualmente aceleradas, não é um fenômeno natural isolado, mas reflexo direto de um processo de degradação ambiental que vem se intensificando nos últimos anos. A avaliação é do professor de climatologia da Universidade Federal do Acre, Anderson Mesquita.
O tema ganhou destaque após uma declaração do coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, Cláudio Falcão, que afirmou, no fim de março, que o rio “não se comporta mais como rio, mas como um igarapé”, ao comentar a subida de mais de 3,5 metros em cerca de 30 horas.
Segundo Mesquita, a comparação não deve ser interpretada de forma literal, mas como uma forma de descrever a mudança no comportamento do manancial.
“Eu não entendo que ele quis dizer que o Rio Acre virou um igarapé, mas que, devido à degradação, ele passou a apresentar um comportamento semelhante, principalmente em relação à vazão”, explicou.
O que mudou no Rio Acre
Do ponto de vista técnico, rios e igarapés possuem diferenças claras. Enquanto o rio apresenta maior extensão, volume e vazão, o igarapé é um curso d’água menor, com menor capacidade de transporte e armazenamento.
No caso do Rio Acre, o que vem ocorrendo é uma redução dessa capacidade. “O que está acontecendo com o Rio Acre é um processo profundo de degradação. Estamos assoreando o rio, diminuindo o espaço que ele tinha para acumular água”, afirmou o professor.

Assoreamento e desmatamento
O principal fator apontado é o assoreamento, acúmulo de sedimentos no leito do rio, provocado pelo desmatamento das margens, quedas de barrancos e o carreamento de terra durante as chuvas.
“Toda essa carga de sedimentos vai para o leito do rio, deixando ele mais raso. E isso também é agravado pela presença de lixo”, disse.
Com menos profundidade, o rio perde a capacidade de armazenar grandes volumes de água.
Sobe rápido, seca rápido
Esse cenário altera completamente a dinâmica do manancial. “Quando chove, o rio enche muito rápido. E, nos períodos secos, ele perde água também de forma muito rápida, porque não consegue mais reter grandes volumes”, destacou.
Segundo o especialista, essa variação extrema já tem sido observada com frequência, com níveis que podem ultrapassar 16 metros em períodos chuvosos e cair para menos de dois metros durante a seca.

Risco para abastecimento e meio ambiente
As consequências vão além das cheias e secas. O comportamento irregular do rio pode comprometer o abastecimento de água.
“O principal risco é o abastecimento de água. A gente pode ter dificuldade de captar água para atender a população”, alertou.
Também há impactos diretos na biodiversidade e no transporte fluvial. “Quando o nível baixa muito, peixes morrem, botos morrem. Todo o ecossistema entra em estresse”, afirmou.
Menos tempo para reagir
Outro efeito é a redução do tempo de resposta em situações de emergência. “O rio sobe mais rápido e isso reduz o tempo de reação do poder público. Defesa Civil, prefeitura e bombeiros terão mais dificuldade para atender a população”, explicou.
Após as cheias, os problemas continuam, com riscos de deslizamentos e aumento de doenças como leptospirose.
O avanço da urbanização também contribui para o problema. Com mais áreas impermeáveis, como asfalto e concreto, a água da chuva escoa mais rapidamente para o rio. “Com mais asfalto, concreto e construções, a água escoa mais rápido para o rio, que já está sobrecarregado”, disse.
Para o especialista, o cenário exige atenção e medidas estruturais, já que o comportamento do Rio Acre tende a se tornar cada vez mais extremo sem ações de recuperação ambiental.