Abandono na Gameleira expõe deterioração de patrimônio histórico em Rio Branco


A região da Gameleira, em Rio Branco, um dos mais emblemáticos espaços históricos do Acre, enfrenta um processo visível de degradação que contrasta com sua importância cultural e turística. Em reportagem produzida pelo videomaker do ac24horas, Kennedy Santos, e publicada neste domingo (18), o que se vê por trás das fachadas preservadas é um cenário de abandono, insegurança e estruturas comprometidas.

Na tradicional Casa Yunes, o estado de conservação expõe o conflito entre preservação histórica e realidade prática. O empresário Camilo Yunes, que ocupa o imóvel há cerca de quatro décadas, relata os entraves enfrentados pelos proprietários. “A gente não paga aluguel, porque é nosso, é próprio nosso, né? Agora, só o IPTU que estão cobrando um absurdo e ninguém pode fazer nada na frente”, afirma.

A diferença entre o que se vê da beira do rio e o que existe dentro dos imóveis é outro ponto destacado na reportagem. “Quem passa na principal, da beira do rio, enxerga de um jeito, mas quem tá por dentro do comércio enxerga assim, ó. Não tem mais nada original”, observa Kennedy.

Foto: Whidy Melo/ac24horas

Entre comerciantes e ocupantes da área, predominam relatos de dificuldades financeiras, insegurança e abandono. Um empresário questiona a cobrança de impostos elevados diante das condições dos imóveis: “A gente paga o IPTU, o que é altíssimo demais, porque o IPTU daqui vem como que fosse patrimônio histórico. E histórico de quê?”.

Uma locatária, que preferiu não se identificar, relata prejuízos após um episódio de furto e admite atrasos no pagamento do aluguel. “Eu não vou mentir não, estou com aluguel atrasado, porque desde o ano passado que me fizeram roubo aqui, porque aqui tem muitos usuários de droga, e fizeram roubo, levaram minhas coisinhas, eu fiquei sem nada. Mas eu pago aluguel, inclusive o homem está só me cobrando”, diz.

O estado físico de alguns imóveis preocupa pela possibilidade de acidentes. “Olha como é que está esse forro… isso aqui é um perigo. Tem infiltração em tudo quanto é lugar”, relata o repórter ao mostrar uma das estruturas deterioradas. Há também registros de desabamentos recentes. “Essa casa aqui que vocês estão vendo eu entrar, caiu tem pouco mais de um ano. A informação que tenho é que uma parte desse prédio aqui caiu em cima dessa casa”, relata Kennedy.

Foto: Whidy Melo/ac24horas

Do ponto de vista institucional, a Fundação Elias Mansour (FEM) esclarece que o tombamento na Gameleira se restringe às fachadas dos imóveis. O chefe de patrimônio histórico, Rafael Fernandes, explica que o tombamento apenas parcial das estruturas acaba impedindo ações complexas. “A gente apenas fiscaliza os bens particulares. As fachadas são tombadas, então nosso papel é fiscalizar as fachadas tombadas. Mas o tombamento se faz das fachadas, não é um prédio todo”, disse.

Apesar do cenário crítico, a Gameleira ainda mantém pontos de valorização cultural, como o Cine Teatro Recreio e espaços administrados pela própria FEM, que seguem ativos e preservados. Para visitantes, o local continua carregando forte valor histórico, mas carece de investimentos e políticas públicas mais efetivas.



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