A logística será fundamental para transformar essa oportunidade em desenvolvimento – Diário do Amapá


 

Cléber Barbosa
Da Redação

 

Diário do Amapá – Professor, para quem está chegando agora nesse universo do petróleo e gás e ainda não conhece bem essa logística, explica para a gente qual é a principal diferença entre a logística de bens de consumo e essa logística tão complexa da indústria do petróleo e gás?

José Luiz Portella – Existe uma diferença muito significativa. Eu posso destacar pelo menos quatro pontos principais. Primeiro, quando falamos de petróleo, estamos falando de um produto perigoso: inflamável, poluente e que exige um controle muito maior de segurança. Essa já é uma grande diferença em relação aos bens de consumo comuns. Segundo, o petróleo é uma carga líquida ou gasosa. É uma commodity que não pode ser embalada como um produto comum. Você precisa trabalhar com grandes volumes em tanques, reservatórios e estruturas específicas, o que torna toda a operação de movimentação, armazenamento e distribuição muito mais complexa. Outro ponto importante é que essa atividade exige profissionais especializados e certificados. Um motorista de caminhão-tanque, por exemplo, não pode apenas ter uma carteira profissional comum. Ele precisa de treinamento específico para transporte de carga perigosa, gestão de risco e prevenção de acidentes. Então, além da estrutura física mais robusta, existe também a necessidade de mão de obra altamente qualificada.

 

Diário – Para que o estado se torne um hub de exploração, como o Porto de Santana e outras redes de transporte locais precisam se adaptar para suportar esse fluxo de equipamentos, sondas que essa indústria vai exigir?

Portella – Com relação ao Porto de Santana, provavelmente será necessário revisar o seu planejamento estrutural. Pelo que conheço, o plano diretor do porto é de 2006, e certamente naquela época a indústria do petróleo não estava contemplada. Isso significa que o zoneamento, a operação e toda a estrutura logística precisam ser atualizados para atender essa nova demanda. Além disso, o Amapá tem uma particularidade muito interessante: possui uma ferrovia construída ainda na década de 1950, com uma bitola única no Brasil, seguindo o padrão inglês e norte-americano. O afastamento entre os trilhos é de 1 metro e 435 milímetros, o mesmo utilizado nos Estados Unidos, Argentina e boa parte da Europa. Essa ferrovia hoje está praticamente inoperante, mas ela liga o porto ao interior do estado e pode representar uma vantagem estratégica importante. Também temos duas rodovias fundamentais: a BR-210, planejada dentro do Plano Nacional de Integração ainda no período militar, e a BR-156, que liga o sul do estado até Oiapoque, fazendo conexão com a Guiana Francesa, ou seja, com território francês. Essas duas rodovias podem oferecer uma vantagem logística muito relevante para o Amapá. Agora, é importante lembrar que o estado ainda precisa de maior integração rodoviária e ferroviária com o restante do país.

 

Diário – Já existe infraestrutura que pode ser repensada e aproveitada nesse novo momento do Amapá?

Portella – Eu não vejo isso exatamente como um risco. Eu vejo como uma oportunidade, e falo isso pela minha própria experiência. Eu trabalhei durante 25 anos na Petróleo Ipiranga, uma empresa brasileira que disputava mercado com gigantes como Shell, Texaco e a própria Petrobras. E como nós aprendemos a competir nesse setor? Buscando conhecimento com quem já dominava essa indústria. Eu tive a oportunidade de ir duas vezes a Houston, no Texas, que é uma referência mundial no setor petrolífero. Lá pude acompanhar de perto como os norte-americanos operavam essa indústria e como aquela região foi transformada ao longo de mais de um século de exploração. Essa troca de conhecimento com profissionais experientes é extremamente positiva. Por isso, eu parabenizo iniciativas como o Qualifica Amapá, porque elas ajudam justamente a trazer essa experiência para cá. É importante aprender com quem já tem tradição no setor, mas também é fundamental capacitar a nossa população local. Essa indústria gera riqueza, gera desenvolvimento, mas também exige muita responsabilidade, porque é uma atividade de alto risco. Então, a presença de profissionais de outros hubs será importante no início, mas o principal é garantir que o povo do Amapá também esteja preparado para ocupar esses espaços.

 

Diário –  Ou seja, é preciso construir essas pontes e preparar nossa mão de obra local?

Portella – Exatamente. Esse é o caminho certo. A logística será uma peça fundamental para transformar essa oportunidade em desenvolvimento real para o estado.

 

Diário FM – Obrigado, professor.

Portella – Foi uma satisfação muito grande. Fico feliz em contribuir com esse debate tão importante para o estado.

 



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