Projeto leva contos indígenas a escolas e incentiva leitura infantil em Roraima


Crianças de escolas públicas de Roraima têm encontrado nos contos indígenas uma nova porta de entrada para o universo da leitura. A iniciativa faz parte do Projeto Aichan, que distribui livros de forma gratuita, unindo literatura, cultura e criatividade em sala de aula.

Idealizado pelas pesquisadoras e escritoras Vanessa Brandão e Cristiane Brandão, descendentes do povo Wapichana, o projeto irá percorrer dez municípios do estado com oficinas de leitura e pintura. As atividades começaram em Boa Vista, na Escola Municipal Cantinho Feliz, e seguem com programação nos municípios de Normandia, Rorainópolis, Pacaraima, Mucajaí, Caracaraí, Iracema, Cantá, Bonfim e Alto Alegre.

Turma do 4º ano da Escola Municipal Cantinho Feliz, localizada no bairro 13 de Setembro. (Foto: Arquivo Pessoal)

Durante as oficinas, alunos do 4º ano têm contato com histórias tradicionais como o clã Makunaima, Wazacá – a árvore da vida e o nascimento da mandioca. A proposta é despertar o interesse pela leitura ao mesmo tempo em que valoriza e difunde a cultura indígena.

Em entrevista à FolhaBV, Vanessa Brandão contou que a ideia do projeto surgiu a partir de sua pesquisa de doutorado, voltada à preservação da memória de povos originários. O livro Aichan foi ilustrado por artistas indígenas roraimenses, como Kaiwino Wiz, Vinícius Kenede e Elisclésio Macuxi, fortalecendo a valorização cultural local.

“A pesquisa começou em 2024 e o livro chegou esta semana. É um livro feito para crianças, mas também para adultos, com uma linguagem didática. Percebi que muitas dessas histórias, que antes eram transmitidas de geração em geração, já não chegavam às crianças, principalmente às que vivem na cidade. Então pensamos em reunir essas narrativas em um livro e levar até elas”, afirmou.

Pesquisadora e escritora Vanessa Brandão. (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

Além da leitura, as oficinas incluem atividades práticas. As crianças recebem exemplares do livro e kits de pintura, sendo incentivadas a ilustrar as histórias a partir da própria imaginação. “A gente entrega esse livro como presente para as crianças e depois realiza a leitura das histórias de forma explicada. Em seguida, elas desenham o que entenderam, e é impressionante ver a criatividade”, destacou.

Incentivo à leitura na infância

Para a escritora, o incentivo à leitura na infância é essencial para a formação social, especialmente em um contexto marcado pelo uso excessivo de telas. “Os celulares estão afetando o desenvolvimento cognitivo das crianças. Quem lê bem melhora o vocabulário, escreve melhor, desenvolve empatia e compreende melhor o mundo. Nossa intenção é que elas levem esse livro para casa e compartilhem com a família”, enfatizou.

Atividades realizadas durante as oficinas. (Foto: Arquivo Pessoal)

De acordo com Vanessa, muitas crianças demonstram entusiasmo com as atividades. Em algumas realidades, o livro entregue pelo projeto pode ser o primeiro contato com uma obra literária, além dos materiais didáticos utilizados em sala de aula.

“É emocionante ver o encantamento delas. Para muitas, é o primeiro livro que recebem na vida. O livro didático é diferente de uma obra literária. Não adianta dar qualquer livro para a criança, é preciso oferecer literatura. A literatura é uma arte, é a arte da palavra”, contou.

Equipe do Instituto Aichan estimula o hábito da leitura para crianças. (Foto: Arquivo Pessoal)

Leitura começa em casa

Com distribuição gratuita de mais de dois mil exemplares, Aichan foi viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com apoio do Banco da Amazônia e do Ministério da Cultura. A iniciativa não tem fins lucrativos e a expectativa é que o projeto seja renovado e uma segunda edição seja publicada futuramente.

2mil exemplares do livro serão ditribuídos de forma gratuita. (Foto: Arquivo Pessoal)

Vanessa também reforça o papel da família na formação de leitores e faz um apelo aos pais e responsáveis para que incentivem o hábito da leitura dentro de casa, mesmo com a rotina corrida.

“Peço que os pais reservem um tempo do dia para ler com seus filhos. O excesso de telas e de conteúdos rápidos afasta as crianças de um aprendizado mais profundo, que os livros proporcionam. O hábito da leitura começa em casa. Quando a criança tem esse contato desde cedo, ela desenvolve mais imaginação, interpretação e senso crítico. Garantir esse acesso é essencial para o futuro dessa geração”, concluiu.

(Foto: Arquivo Pessoal)



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