Sentar em um banco de praça, observar o local e transferir para o papel não apenas em formas, mas sentimentos. Para o desenhista e ilustrador Franco Soares, a arte é um exercício de presença e, acima de tudo, um regaste da identidade roraimense. Em celebração a Dia da Arte, a FolhaBV conta sobre a trajetória por trás do projeto “Desenhando Memórias”.
Desenhando Memórias
A iniciativa nasceu a partir da vivência do artista com o movimento internacional Urban Sketchers, que incentiva o desenho ao vivo em espaços públicos. O grupo, criado em 2007 pelo jornalista espanhol Gabriel Campanario, reúne artistas em diversas cidades do mundo, incluindo Boa Vista, onde Franco participa de encontros mensais.
Com o hábito de registrar cenas do cotidiano em seu sketchbook, seja em praças, mercados ou até durante encontros com amigos, Franco começou a compartilhar seus desenhos nas redes sociais. Mas foi durante uma feira de quadrinhos, ao expor versões impressas das ilustrações, que percebeu o impacto do trabalho no público.
Um dos desenhos mais marcantes foi o da Escola Euclides da Cunha, no Centro de Boa Vista. A imagem despertou lembranças em quem já estudou no local e rapidamente ganhou repercussão.


A partir dessa conexão, surgiu o projeto “Desenhando Memórias”, que busca justamente resgatar a relação afetiva das pessoas com os espaços da cidade.
“O que deu para perceber foi o quanto as pessoas se identificavam. Pessoas que estudaram lá há anos comentavam, lembravam da época do colégio. Ali percebi que a nossa cultura é feita dessas lembranças”, afirmou o artista.
Trajetória e influência
A paixão pelo desenho vem de infância, inspirado pelo avô Jesus Cruz, que desenhava os animais da fazenda.
Eu digo que, na verdade, aprendi a desenhar com meu avô. Na fazenda, ele desenhava os animais. Então, quando eu criança, sentava do lado dele e o via desenhava boi, vaca, porco, tatu. A partir dali, foi onde comecei meus primeiros traços. Não parei mais, comentou.
Embora tenha seguido carreira como atleta de Karatê por muitos anos, Franco nunca abandonou o papel.
A transição para o profissionalismo consolidou-se em 2015. De lá para cá, o artista já produziu trabalhos de impacto, como a reportagem em quadrinhos “Venezuela em Fuga”, premiada pela Lei Aldir Blanc, e ilustrações que contam a história de Boa Vista.
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Arte como memória e identidade
Para Franco, mais do que técnica, o desenho urbano é uma forma de preservar histórias e valorizar a cultura local.
“Cada lugar tem uma lembrança. Quando você desenha, você registra aquilo de uma forma única. E quando alguém vê, ela se reconecta com aquele momento da vida dela”, afirma.


O artista destaca que esse processo vai além da estética. Durante os encontros de desenho, é comum que pessoas se aproximem, compartilhem histórias e até redescubram a importância de determinados pontos da cidade.
Entre o papel e o digital
Com formação na área tecnológica, Franco também atua com ilustração digital, produzindo caricaturas e trabalhos sob encomenda para clientes dentro e fora do Brasil. Ainda assim, ele reforça que o desenho à mão mantém um valor insubstituível.
“A tecnologia ajuda muito, inclusive uso no meu trabalho. Mas aquele momento de sentar, observar e desenhar ao vivo… isso nenhuma inteligência artificial substitui”, diz.


Arte como “Respiro”
Para Franco, o ato de desenhar vai além da técnica; é uma necessidade vital. “A arte é a forma que tenho de me voltar para dentro de mim. Digo que é o meu respirar. Sem arte, não consigo atravessar um dia normal”, revela, lembrando a importância do desenho como refúgio durante o período crítico da pandemia.



