O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado, apresentado nesta terça-feira (14), revela uma conexão profunda entre facções criminosas, milícias e o sistema financeiro formal. Com cerca de 220 páginas, o texto assinado pelo relator Alessandro Vieira (MDB-SE) aponta que grupos criminosos superaram o uso exclusivo de criptoativos e passaram a utilizar bancos, gestoras de ativos e fundos de investimento para ocultar a origem ilícita de bilhões de reais.
O senador destacou o caso do Banco Master como um exemplo emblemático dessa simbiose. Segundo o relatório, instituições financeiras formais estariam sendo operadas para reciclar capitais do tráfico de armas e drogas, permitindo que a criminalidade organizada atinja um nível de sofisticação empresarial. Vieira ressaltou que o crime se infiltrou em setores estratégicos da economia lícita, como combustíveis, ouro e mercado imobiliário, exigindo uma resposta do Estado que vá além do combate ostensivo em territórios dominados, focando no estrangulamento das cadeias econômicas que financiam essas estruturas.
A atuação das redes sociais também foi alvo de duras críticas no documento. O relatório aponta as big techs como elementos estruturantes no aliciamento e exploração de menores, citando que plataformas como Facebook e Instagram têm sido passivas diante do uso de seus sistemas para conectar usuários a redes de abuso sexual infantil. Dados da SaferNet Brasil corroboram a gravidade do cenário, registrando quase 50 mil denúncias dessa natureza apenas no primeiro semestre de 2025.
No âmbito da segurança pública, o texto relaciona a flexibilização do controle de armas ocorrida em anos anteriores ao fortalecimento do crime organizado, citando desvios de armamentos legais para grupos criminosos. Além disso, o relator aponta o déficit de mais de 200 mil vagas no sistema prisional e a carência de efetivo na Polícia Federal como fatores que transformaram as prisões em centros de comando para as facções e reduziram a capacidade de inteligência do Estado.
Em um desdobramento político de grande impacto, o relatório pede o indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. As acusações, baseadas no caso Banco Master, envolvem supostos crimes de responsabilidade e condutas incompatíveis com o decoro das funções. Por fim, o senador Alessandro Vieira defende a necessidade de uma intervenção federal no estado do Rio de Janeiro, alegando que a infiltração do crime no poder público local compromete a autonomia e a idoneidade das ações de segurança na unidade federativa.
*Fonte: Agência Brasil