Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
A imagem era de cortar o coração e desafiar a força de qualquer pai. Em Itaubal, no interior do Amapá, o pequeno Lorran Cristian, de apenas 2 anos de vida, vivia o ápice de um drama médico: um retinoblastoma (câncer ocular) tão agressivo que fez seu globo ocular “saltar” do rosto. Onde deveria haver o brilho da infância, o tumor tomou espaço, expondo a fragilidade de uma família de agricultores diante de uma doença devastadora. Foi nesse cenário de dor extrema e desespero que a ONG Carlos Daniel entrou em cena para mudar o curso de uma história que muitos acreditavam já estar escrita.
O choque da realidade
Para Leandro Queiroz, pai de Lorran, lidar com a cena do olho do filho saltado foi o momento mais difícil de sua vida.
“Ver meu filho naquela situação… tinha dia que eu chorava sem sair lágrima”, relembra o agricultor.
Sem recursos e vivendo em um assentamento de difícil acesso, a família assistia à evolução da doença sem saber que o socorro viria de uma rede de solidariedade que atravessa estados. O diagnóstico inicial em Macapá não trouxe solução imediata, e o tempo — o maior inimigo do câncer infantil — corria contra Lorran. O tumor avançou até o ponto da ruptura física, deixando o menino em uma condição que os próprios médicos, em um primeiro momento, chegaram a desenganar.
“Quando a doutora viu os exames, disse que ele não teria mais chance, mas não perdemos a fé”, relembra o agricultor.

Sem oncologia pediátrica especializada no Amapá, a criança precisou ser levada para São Paulo para receber tratamento de alta complexidade. Fotos: Arquivo pessoal
A intervenção da ONG Carlos Daniel
Ao tomar conhecimento do caso, a ONG Carlos Daniel, liderada por Agenilson Silva, iniciou uma operação de resgate. A logística foi precisa: buscar a família no interior, oferecer abrigo na capital e, o mais importante, garantir o tratamento de alta complexidade na região sudeste do país, já que o Amapá não possui oncologia pediátrica específica para casos dessa gravidade.
“A ONG garantiu o tratamento gratuito em São Paulo. Muitos não sabem, mas essa assistência é o que separa a vida da morte para essas crianças”, afirma Agenilson.

A ONG Carlos Daniel articulou transporte, hospedagem e assistência para garantir que Lorran Cristian chegasse ao hospital especializado

O pai do menino, agricultor de um assentamento em Itaubal, enfrentou meses de incerteza até conseguir apoio para salvar a vida do filho. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN
De “desenganado” à reconstrução
Já na capital paulista, no Grupo de Apoio ao Adolescente e a Criança com Câncer (GRAACC), Lorran passou por um processo intenso de tratamento. O olho que havia saltado precisou ser removido para salvar a vida do menino. Hoje, Lorran utiliza uma prótese que, mais do que estética, simboliza a vitória sobre a morte.
“Passei oito meses com ele em São Paulo. Hoje, ver ele andando e brincando é um milagre que veio de Deus e do apoio fundamental da ONG e dos médicos do GRAACC”, conta o pai do garoto.
Atualmente, Lorran viaja a cada dois meses para exames e procedimentos. Com o tempo, esse intervalo deve aumentar, mas o vínculo com a assistência social permanece como o fio que sustenta a sobrevivência do menino.

Mesmo após a cirurgia e a retirada do olho afetado, o tratamento de controle da doença deve seguir por cerca de dez anos
A reportagem do SelesNafes.com acompanhou o momento em que a equipe da ONG buscou Lorran e seu pai em Itaubal para mais uma etapa de acompanhamento. O menino que antes sofria com a deformidade do tumor, agora caminha, brinca e sorri, amparado por uma rede que fornece desde as passagens aéreas até o acolhimento emocional.
“Mesmo após a fase crítica, a ONG continua e continuará dando suporte total. O controle do retinoblastoma deve durar cerca de 10 anos e nosso papel na luta pela vida vai seguir. Isso não é envolvimento ou pretenção política, é amor pelo próximo”, explica Agenilson Silva, presidente da ONG Carlos Daniel.
Uma corrente que precisa de você
A história de Lorran é um dos muitos “milagres” operados pela ONG Carlos Daniel em seus 10 anos de existência e já impactou a vida de mais de 100 crianças amapaenses. Sem o apoio da sociedade, casos como o do menino cujo olho saltou do rosto terminariam em tragédia.
A instituição sobrevive de doações para garantir que nenhuma criança amapaense seja deixada para trás por falta de logística ou tratamento.

Lorran precisa viajar a São Paulo a cada dois meses para exames e procedimentos que monitoram o controle do retinoblastoma
Saiba como ajudar:
PIX (CNPJ): 22.767.286/0001-78
Banco do Brasil: Agência: 3851-2 | Conta Corrente: 36.837-7
Lorran hoje enxerga o futuro com um olho só, mas é um futuro que ele só tem porque alguém estendeu a mão quando o mundo dele parecia desmoronar.