Estados Unidos e Irã encerram negociação sem acordo


(Folhapress) As negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã chegaram ao fim sem um acordo, jogando na incerteza o futuro do frágil cessar-fogo entre os dois países adversários na guerra no Oriente Médio.

O vice-presidente americano, J. D. Vance, disse em entrevista coletiva neste sábado (11), já manhã de domingo (12) no Paquistão, ter feito uma oferta final ao Irã nas conversas —e afirmou que voltará ao seu país.

“Conversamos por 21 horas”, disse o vice de Donald Trump em breve declaração à imprensa em um hotel de Islamabad, capital paquistanesa, país que serve de mediador no conflito. “Voltaremos aos EUA sem um acordo. Deixamos muito claro quais são nossos limites, no que poderíamos ceder e no que não poderíamos, e eles escolheram não aceitar nossos termos.”

A fala contradiz declarações anteriores da delegação iraniana, que dizia esperar mais discussões no domingo. Após a entrevista de Vance, entretanto, a TV estatal do país persa confirmou o fim das negociações, colocando a culpa do fracasso em “exigências excessivas” dos EUA.

Vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance (Foto: Instagram)

“A boa notícia é que tivemos discussões significativas com os iranianos. A má notícia é que não chegamos a um acordo, e acho que é uma notícia muito pior para o Irã do que para os EUA”, disse o vice-presidente americano. Não está claro se haverá nova rodada de discussões em outro momento ou se os países retomarão os bombardeios na guerra, que já matou milhares de pessoas em toda a região.

“Precisamos ver um compromisso [do Irã] de que não buscarão uma arma nuclear e de que não buscarão ferramentas que tornem possível o desenvolvimento de uma arma nuclear”, afirmou Vance —o Irã sempre negou desejar a bomba, embora tenha enriquecido urânio a níveis muito superiores do necessário para usos civis.

“Fomos muito flexíveis, mas, infelizmente, não tivemos progresso”, disse o vice de Trump. “Vamos embora daqui com uma proposta muito simples, um método de entendimento que é a nossa melhor e última oferta. Veremos se os iranianos aceitam”, concluiu Vance, que falou à imprensa ao lado do enviado de Trump para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e do genro do presidente, Jared Kushner.

No sábado, naquele que foi o encontro de mais alto nível entre Washington e Teerã desde a Revolução Islâmica de 1979, as delegações realizaram três rodadas de conversas —a terceira só terminou na madrugada de domingo (12), noite de sábado no Brasil.

Mohammad Baqer Ghalibaf, presidente do parlamento do Irã (Foto: X)

A delegação iraniana era composta por mais de 70 membros e encabeçada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi. Os iranianos chegaram no Paquistão ainda na sexta-feira (10) com vestes pretas em sinal de luto pela morte do aiatolá Ali Khamenei. Eles levaram sapatos e bolsas de estudantes mortas durante o bombardeio dos EUA a uma escola para meninas próxima a um complexo militar.

As conversas aconteceram no hotel cinco estrelas Serena, com jardins e arquitetura mourisca, que é um dos edifícios mais fortificados de Islamabad e tem o próprio esquema de segurança. O endereço fica nas proximidades do hotel Marriott, palco de um dos piores ataques terrorista do Paquistão, em 2008, quando um caminhão que carregava 600 kg de explosivos abriu um buraco de sete metros de profundidade e deixou, entre os mortos, o embaixador da República Tcheca.

Islamabad reforçou o esquema de segurança com milhares de agentes na cidade, incluindo tropas paramilitares e do Exército, que montaram postos de controle e bloqueios por toda a capital. Lojas e escritórios foram fechados.

Assassinado por Trump e de Netanyahu, Khamenei liderou Irã por mais de 35 anos (Foto: redes oficiais)
Assassinado por Trump e de Netanyahu, Khamenei liderou Irã por mais de 35 anos (Foto: redes oficiais)

Também no sábado, a emissora estatal iraniana afirmou que a delegação de Teerã apresentou demandas relacionadas ao estreito de Hormuz, à liberação de ativos iranianos bloqueados, ao pagamento de reparações para cobrir danos causados pela guerra e um cessar-fogo que alcance toda a região.

A última vez em que EUA e Irã negociaram olho no olho foi na costura do acordo nuclear de 2015, que trocou o fim de sanções à teocracia por um intrincado esquema de verificações segundo o qual seria restringida a capacidade de enriquecimento de urânio do país por 15 anos, visando coibir a busca pela bomba atômica.

Trump cancelou o acordo nuclear em 2018, durante seu primeiro mandato. Naquele ano, Khamenei proibiu novas conversas diretas entre autoridades dos EUA e do Irã.

Na sexta, o americano publicou nas redes sociais que a única razão pela qual os iranianos ainda estavam vivos era para negociar um acordo. “Os iranianos parecem não perceber que não têm cartas na manga, a não ser a extorquir o mundo por meio de vias navegáveis internacionais. A única razão pela qual eles ainda estão vivos hoje é para negociar!”



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