O programa Boa Conversa, exibido nesta sexta-feira, 10, na capa do ac24horas e nas redes sociais do jornal, trouxe uma análise detalhada sobre os primeiros sete dias da gestão da governadora do Acre, Mailza Assis (Progressistas). Durante o programa, o editor de política Marcos Venícios e o colunista Astério Moreira comentaram as mudanças promovidas no início do novo governo, destacando a ausência de transição com a gestão de Gladson Cameli, o reposicionamento de figuras-chave e a redistribuição de poder dentro do Executivo.
Astério Moreira iniciou avaliando que as mudanças já eram esperadas diante das articulações políticas construídas ainda durante o governo de Gladson Cameli, mas ponderou que ainda é cedo para medir os efeitos práticos dessas decisões. “Em programas anteriores a gente falava no Boa Conversa sobre essa expectativa de mudanças. Essas mudanças aconteceram, com todo o direito e contexto das alianças com o ex-governador Gladson Cameli, com a Assembleia Legislativa. Agora, se essas mudanças vão se traduzir em desempenho e intenção de votos nas próximas pesquisas, é uma incógnita”, afirmou.
Na sequência, Marcos Venícios classificou as alterações como profundas e influenciadas por acordos políticos, ressaltando que o discurso inicial de continuidade não se sustentou na prática. “As mudanças foram substanciais e algumas foram feitas por conjunturas de aliados. Em relação ao ex-governador Gladson Cameli, em eventos públicos ao lado da Mailza há duas semanas atrás, quando ele ainda era governador, anunciava o governo dela como uma gestão de continuidade. Agora nós vemos um movimento diferente”, disse.
O comentarista também criticou o uso de argumentos que, segundo ele, desviam o foco do debate político. “Ela tenta dar sua marca no governo e tem todo o direito, mas o questionamento não é pelo fato de ela ser mulher. Esse é um escudo muito frágil. Mulher erra e acerta. Quantas vezes outros governadores foram questionados? Estamos falando de uma governadora do Acre e a vida de muita gente depende das decisões dela. Os desgastes são naturais, mas fica muito claro que não houve transição entre os governos Gladson e Mailza”, declarou.
Outro ponto foi a mudança na chefia de gabinete, que envolveu uma reviravolta de última hora. Marcos explicou que Jonathan Santiago havia sido inicialmente anunciado para o cargo, mas acabou deslocado para a função de adjunto após a entrada de Madson Cameli, marido da governadora. “O Jonathan foi pré-anunciado como chefe de gabinete, mas por volta das 23h surgiu o nome do Madson Cameli como titular, e o Jonathan virou adjunto”, relatou.
Astério Moreira comentou a decisão, destacando que há uma leitura política por trás da escolha. “Tem muita gente que critica o Madson ter sido nomeado, mas houve o entendimento de colocá-lo no cargo para proteger a governadora. Foi um ajuste para acomodar o Jonathan como adjunto”, disse.
Ainda sobre o cenário político, Astério alertou para os cuidados jurídicos que a nova gestão deve ter diante da proximidade com o período eleitoral. “Existe uma linha tênue entre a candidata Mailza Assis e a governadora Mailza. A equipe jurídica vai ter que estar muito atenta”, avaliou.
Os comentaristas também abordaram a indicação de José Bestene para a área da saúde, apontando resistência dentro da base governista. Marcos Venícios relatou que um grupo de deputados manifestou insatisfação com o nome. “Um grupo de dez deputados esteve com a governadora e colocou um veto ao Bestene, porque ele não é unanimidade. A insatisfação é latente. Além disso, ele mantém influência em estruturas importantes, como a Saneacre, o que amplia ainda mais seu poder político”, afirmou.
Astério comparou o cenário atual com gestões anteriores, criticando a prática de permitir que aliados disputem eleições enquanto ocupam cargos estratégicos. “Nenhum secretário do Jorge Viana foi candidato a vereador. Quando o governo permite que o secretário concorra contra a própria base, isso fragiliza a estrutura política”, pontuou.
Outro tema debatido foi a possível perda de espaço do secretário Jonathan Donadoni dentro do governo. Marcos revelou que lideranças nacionais chegaram a interceder pela permanência dele. “Quando eu falo em tropa de choque, nomes como Ciro Nogueira e Antônio Rueda fizeram ligações pedindo para não mexer com o Donadoni. A governadora ouviu, mas resta saber se vai acatar”, disse.
Segundo Astério Moreira, há sinais claros de mudança no eixo de poder dentro do governo. “O Donadoni tinha muito poder de nomeação e exoneração. Quem está acostumado com isso sente quando perde espaço. O eixo do poder foi deslocado, e hoje o grande articulador do governo é o Madson Cameli. Ele é o ator principal, e não há nada de errado nisso. Agora, as consequências disso ainda serão vistas”, ressaltou.
Segundo avaliação feita no programa, o ex-governador Gladson Cameli tem acompanhado de perto as mudanças e, apesar de seu perfil inquieto, não estaria em confronto direto com a nova gestão.
“Pra quem conhece o Gladson, ele é muito inquieto, ele não gostou das situações e as informações que eu tive e que quero compartilhar com quem acompanha o Boa Conversa, pra situação não ficar conflituoso, o procurador Mário Sérgio, do MPC, era de fato o nome que o Gladson defendia para ser o novo conselheiro e a Mailza decidiu chancelar como um ponto de equilíbrio”, afirmou Marcos Venicios.
Durante o programa, também foram mencionados bastidores envolvendo a escolha do nome para composição da chapa majoritária, com especulações de que a deputada Jéssica Sales não seria a preferência da governadora Mailza Assis. Segundo o colunista Astério Moreira, há sinais de desconforto dentro da própria articulação política.
“O MDB está sabendo ou estaria de que a governadora Mailza queria que fosse outro nome [Jéssica Sales sobre ser vice], as razões eu não sei, porém o MDB que vai ter que decidir o caminho que ele vai seguir, o nosso nome é esse, mas a gente percebe que não está nada. Quem construiu esse pacto foi o Gladson. O Gladson disse pra Mailza que, pra ganhar, a melhor vice seria a Jéssica. O Marcus Alexandre sempre foi o candidato ideal da Mailza para ser vice, mas ele disse que será candidato a estadual. Só que ainda tem muito tempo para as convenções”, pontuou.