O trânsito em Cuiabá tem registrado congestionamentos e mudanças de rotas por conta das obras do BRT e de saneamento da Águas Cuiabá. Apesar dos transtornos, as intervenções são necessárias para melhorar a mobilidade urbana no futuro, segundo a secretária de Mobilidade Urbana (Semob), Francyanne Siqueira Chaves Lacerda.

Temos feito toda essa mediação junto às empresas para fazer com que esses impactos negativos sejam diminuídos
Em entrevista ao MidiaNews, ela afirmou que, durante este período, a Semob tem atuado para manter a organização das vias.
“A gente realmente tem feito essa avaliação de onde iniciar, onde pausar, onde dar continuidade, mas são obras que a gente precisa avançar, não tem como ficar impedindo o cronograma de execução. Temos feito toda essa mediação junto ao Governo do Estado e à empresa para fazer com que esses impactos negativos sejam diminuídos”, afirmou.
De acordo com ela, o principal desafio da gestão é garantir mais tranquilidade no deslocamento da população, mesmo diante dos transtornos causados pelas obras.
“Essas intervenções, por mais que sejam medidas que o Executivo está desenvolvendo para melhorar a qualidade de vida, o deslocamento, a mobilidade urbana do cidadão cuiabano, nos trazem, neste momento, um desconforto. Traz insatisfação por parte do cidadão que está no seu veículo. Mas o que eu sempre gosto de trazer é que nós possamos olhar o futuro”, disse.
A secretária citou como exemplo o Complexo do Leblon, que está em fase final de obras, com conclusão prevista para julho.
“Já vai ser um ponto que nós vamos conseguir transitar. Vai ser um horizonte que a gente vai olhar e falar: ‘Nossa, realmente valeu a pena todo esse desconforto, todo esse estresse que a gente teve ao longo desse período para poder finalizar essa obra’”, ressaltou Siqueira.
Veja os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – Qual é o principal desafio da mobilidade urbana em Cuiabá atualmente?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – O principal desafio é fazer com que as pessoas realmente se desloquem com maior tranquilidade, com menos estresse. Precisamos ter um pouco mais de paciência, de bom senso. Isso porque todas essas intervenções, por mais que sejam medidas que o Executivo está desenvolvendo para melhorar a qualidade de vida, o deslocamento, a mobilidade urbana de uma forma geral do condutor e do cidadão cuiabano, nos trazem, neste momento, um desconforto. Traz insatisfação por parte do cidadão que está ali no seu veículo. Mas o que eu sempre gosto de trazer é que nós possamos olhar o futuro.
Nós temos uma previsão pela Sinfra de que essa obra do Leblon finaliza agora no meio do ano, em julho. Já vai ser um ponto que nós vamos conseguir transitar, vai ser um horizonte que a gente vai olhar e falar: ‘Nossa, realmente valeu a pena todo esse desconforto, todo esse estresse que a gente teve ao longo desse período para poder finalizar essa obra’.
MidiaNews – A senhora não conseguiu avançar em alguma ação de mobilidade urbana desde o início da gestão?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Na questão da mobilidade, ainda não conseguimos avançar como gostaríamos justamente porque as obras não foram concluídas. Acredito que, com a finalização da primeira etapa do Leblon, já será possível perceber uma melhora e um avanço. O condutor tende a se sentir mais satisfeito ao transitar pela via, avaliando que os transtornos enfrentados durante as obras se transformarão em benefícios, com a mobilidade que ele espera.
MidiaNews – Mas há algum plano para melhorar essas principais vias de congestionamento ainda durante essas obras?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Temos, sim, um planejamento conjunto com a Secretaria de Obras, a Secretaria de Meio Ambiente e o Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU). No entanto, neste momento, evitamos avançar justamente por conta da necessidade de execução de novas obras.
A partir daí, vamos estruturar o planejamento para ampliação. Temos, sim, vários projetos — alguns, inclusive, já apresentados pelo prefeito. No entanto, só será possível colocá-los em prática quando houver condições adequadas. Neste momento, isso ainda é inviável.
MidiaNews – As obras do BRT têm gerado muitas críticas da população, principalmente pela demora no deslocamento. Como a senhora avalia essas mudanças constantes no trânsito?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Essa é uma dificuldade que enfrentamos justamente para conciliar a execução das obras. Temos realizado reuniões frequentes com a Águas Cuiabá e a Sinfra para alinhar a execução concomitante das intervenções.

Não podemos ficar impedindo o cronograma da execução
A lógica é aproveitar uma mesma interdição para que ambas atuem ao mesmo tempo. Quando isso não é possível, buscamos organizar para que uma inicie e, na sequência, a outra execute e conclua o serviço, evitando novas interrupções no mesmo trecho.
Essa estratégia tem como objetivo minimizar os impactos. Porque, de fato, quando uma via é fechada, reaberta e depois interditada novamente, o desconforto para o condutor é muito maior.
Ainda assim, são obras necessárias e que precisam avançar. Temos feito avaliações constantes sobre onde iniciar, pausar ou dar continuidade, mas não podemos comprometer o cronograma. Nosso papel tem sido mediar junto às empresas para reduzir ao máximo os impactos negativos à população.
MidiaNews – Existe um estudo para mudanças de sentido de vias ou criação de novos corredores rápidos em Cuiabá?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Sim, nós temos esse estudo prévio. Mas nós não avançamos nisso ainda, porque como nós não temos ainda essa previsão de finalização total das obras, não adianta perder energia, tempo com isso agora. A gente nem sabe como vai ficar com essa finalização. Inicialmente, precisamos entender como vai ser o modal que vai ser adotado, ainda não tem essa decisão.
MidiaNews – Usuários do transporte coletivo reclamam de frota insuficiente e superlotação. O que a Semob tem feito, na prática, para melhorar esse cenário?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Nossa Diretoria de Transporte e os agentes atuam diretamente no acompanhamento da operação do sistema. A superlotação em determinados horários, porém, acaba sendo impactada pelas próprias dificuldades no trânsito, já que os ônibus enfrentam atrasos no deslocamento.
Quando recebemos uma reclamação específica, contamos com um canal direto com a população, pelo número (65) 99235-6950. Isso é fundamental, porque não é possível fiscalizar todas as linhas ao mesmo tempo. A partir dessas demandas pontuais, como atrasos ou excesso de passageiros em uma linha e horário específicos, realizamos um levantamento detalhado.
Se identificamos que não se trata de um problema isolado, fazemos o remanejamento da frota, com a inclusão de mais veículos nos horários de maior demanda. Também ajustamos itinerários e horários, redistribuindo ônibus de regiões com menor necessidade para atender outras áreas.
Sabemos que essas mudanças podem gerar transtornos momentâneos, mas são necessárias para garantir o atendimento mais equilibrado à população. Além disso, mantemos uma fiscalização rigorosa da frota, com vistorias periódicas nos ônibus em operação e inspeções técnicas nos veículos novos, para evitar falhas durante o trajeto.
MidiaNews – Só em janeiro e fevereiro deste ano foram registrados nove acidentes com mortes e 223 com feridos, segundo a Sesp. Que medidas a Semob tem adotado ou pretende adotar para reduzir esses números em Cuiabá?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Temos realizado campanhas educativas de forma contínua, porque entendemos que a educação no trânsito é fundamental para a prevenção. Contamos com equipes que atuam em escolas e empresas, orientando a população sobre comportamentos seguros e a importância de evitar acidentes.

A gente fala muito do assédio, mas o que acontece dentro do transporte não é o assédio, é a importunação, que é aquela passadinha, aquela esfregadinha “sem querer”
Também promovemos cursos de capacitação para reforçar o conhecimento sobre sinalização e o respeito à preferência dos pedestres.
Essas ações fazem parte de um conjunto de medidas voltadas à prevenção de acidentes e crimes, tanto no trânsito em geral quanto no transporte coletivo. O foco é evitar que esses episódios aconteçam, já que, depois do acidente, não há como reverter os danos causados.
MidiaNews – A senhora pode dar exemplos desses crimes cometidos dentro do transporte coletivo?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Nós estamos trabalhando firmemente neste mês, principalmente, em relação à importunação sexual, que é um crime muito escondido, pouco se fala. Nós marcamos, inclusive, uma conversa diretamente com os motoristas de transporte coletivo para esclarecer essas situações.
A gente fala muito do assédio, mas o que acontece dentro do transporte não é o assédio, é a importunação, que é aquela passadinha, aquela esfregadinha “sem querer”, aquela forma de aproximação que a pessoa se aproveita do volume, da quantidade de pessoas para importunar sexualmente, em geral, as mulheres.
A gente sempre traz que isso não foi por acaso, não foi sem querer, e que as mulheres façam essa denúncia. Nós temos uma quantidade muito pequena de denúncias, mas a gente sabe que acontece muito.
Vou dizer por mim, eu fui passageira de ônibus durante muitos anos e fui importunada sexualmente várias vezes. Mas a gente fica naquela coisa: ‘Se eu falar, o que vai acontecer? Alguém vai ser penalizado se eu disser alguma coisa?’ fora a vergonha que a gente sente.
Isso tudo precisa ser trazido à luz, porque os homens têm que se sentir coagidos a não praticar esse tipo de crime. Por isso faço questão de falar, pois são situações que acontecem rotineiramente e as mulheres não têm coragem de trazer à tona.
Mas nós temos trabalhado nisso. Temos feito campanhas educativas com a nossa Secretaria de Comunicação, para realmente trazer esse conforto às mulheres e dizer a elas que estamos, sim, nessa rede de enfrentamento para apoiá-las. Não podemos admitir esse discurso de “ah, foi só um momento, acabou”. Não.
Porque essas pessoas que fazem hoje vão fazer amanhã, vão continuar praticando esse crime. Se não trouxermos à luz, não demonstrarmos que isso é crime, isso continuará sendo perpetuado, como vem acontecendo.

Se nós tivermos um trânsito que tenha uma maior consciência, maior respeito, eu já vou estar satisfeita
MidiaNews – Onde a senhora quer que Cuiabá esteja em relação à mobilidade urbana ao final da sua gestão?
Francyanne Siqueira Chaves Lacerda – Penso que, independente do que nós consigamos avançar, que nós tenhamos pelo menos a possibilidade de deslocar com as vias que hoje nós já temos desenvolvidas, com agilidade, com o tempo que nós precisamos para poder chegar no nosso destino. Porque o trânsito, ele, de fato, faz parte da nossa vida.
Nós não conseguimos sobreviver hoje sem o trânsito. A gente precisa se deslocar. Nós precisamos do transporte coletivo.
Se nós tivermos um trânsito que tenha uma maior consciência, um trânsito que desloque com maior flexibilidade, maior respeito, eu já vou estar satisfeita.