Tráfego na estrada de Tepequém está liberado, enquanto pontes de madeira se tornam um símbolo


Moradores e empreendedores fizeram um pequeno protesto sobre a situação de Tepequém (Foto: Luis Sabanero)

O tráfego na estrada de acesso à Serra do Tepequem, a RR-203, foi retomado nesta quinta-feira. Foram três dias de sufoco devido ao rompimento do aterro do desvio na ponte sobre o Igarapé Pricumã, a 23Km da Vila Brasil, sede do Município do Amajari, ao Norte de Roraima. O desvio foi construído para que a ponte de madeira seja reformada, obra esta que seguiu a passos lentos diante da omissão das autoridades que não enxergam prioridade alguma nesse serviço.

Até o trânsito ter sido restabelecido, um prejuízo incalculável já havia se acumulado pela comunidade e empreendedores de turismo, pois o fornecimento de energia elétrica também foi interrompido com a queda de árvores na rede de distribuição, sem que a manutenção pudesse ser feita por causa da interrupção do tráfego. Foi o suficiente para os donos de pousadas verem clientes cancelando suas reservas, enquanto comerciantes de bebidas e alimentos, especialmente os perecíveis, perderem tudo devido à falta de conservação.

Não é a primeira vez que isso ocorre devido às constantes falta de energia, que significa também a interrupção do serviço de internet e fornecimento de água potável. O pior ainda pode acontecer, pois a maior parte das dez pontes de madeira da RR-203, que dá acesso a Tepequém, comunidades indígenas, assentamentos e polos produtores estão em situação crítica, sob a omissão do poder público.

Na visão das autoridades municipais e estaduais, o principal ponto turístico de Roraima é um estorvo, pois o turismo exige como contrapartida do poder público infraestruturas básicas, como asfalto de qualidade, pontes de concreto, fornecimento de energia elétrica e de água encanada de qualidade, além de internet, esgoto e regularização fundiária. Ou seja, tudo aquilo que um município do interior comandado por coronéis da política, do gado e do peixe sempre negaram ao povo.

Deixar Tepequém à míngua não é tão somente incompetência administrativa. É um projeto de poder, pois conceder estrutura necessária para o desenvolvimento do turismo é colocar nas mãos da comunidade uma independência financeira e política, pois o dinheiro gerado pelas atividades turísticas não passa pelas mãos dos políticos, algo que eles abominam e não aceitam dentro de seus currais eleitorais.

A proposta dos coronéis sempre foi tornar Tepequém um lugar de veraneio da elite política e econômica do Estado, forçando as populações mais pobres a esvaziarem o local até restar somente os empregados das casas de férias e passeio dos ricos, os quais sempre almejaram um lugar privativo deles. Mas o plano não deu certo, e o turismo se estabeleceu com a força da comunidade e dos empreendedores independentes, embora o curral eleitoral tenha sobrevivido.

Não restando outra alternativa, os políticos deram um jeito de atender aos interesses próprios e de seus grupos. Antes de garantir todas as infraestruturas mais básicas para os moradores e para o turismo, as autoridades encheram a Serra do Tepequém de obras para construir um complexo turístico que irá atrair mais visitantes, enquanto a capacidade de carga segue insuficiente.

Realização de obras públicas sempre foi a galinha de ovos de ouro dos políticos. A tática é a mesma: atraso de conclusão das obras para que sejam contratados mais aditivos, o que significa mais recursos entrando no bolso de alguém ou alguns. Em Tepequém, o atraso no prazo de entrega das obras já chega a dois anos, enquanto as pontes de madeira estão caindo aos pedaços. Pontes de madeira se tornam um buraco sem fundo para consumir recursos públicos, pois a madeira apodrece rápido e a necessidade de manutenção é constante.

Essa é a realidade da Serra de Tepequém, em que o Turismo e a política partidária têm interesses conflitantes. Enquanto o Turismo coloca o poder nas mãos das comunidades locais e dos empreendedores. a política serve apenas para interesses pessoais, partidárias e de grupos. As estradas esburacadas e com pontes de madeira servem de símbolo de quando a política partidária quer um local vivendo em uma era jurássica para atendera aos interesses de poucos.

*Colunista

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