“… Os fatos exigem respeito. O povo exige respeito. Mailza Assis precisa não apenas entender isto. Ela precisa viver isto”
O leitor, acostumado a tomar um bom café comendo castanha no fundo do quintal, é sabedor de que houve um tempo no mundo em que os bichos falavam. Era mais ou menos na mesma época em que as casas também tinham quintais, com pés de goiaba, caju, manga e azeitona. Como em todo quintal, sempre havia um bom contador de história. Uma delas, bem curta, foi lembrada da seguinte forma:
Um dia, estava um corvo pousado no galho de uma árvore, com um pedaço de queijo no bico, quando apareceu uma raposa.
A raposa, matreira, vendo o pedaço de queijo e sentindo o seu cheirinho, começou logo a pensar numa maneira de o comer, e disse para o corvo:
– Mas que corvo tão lindo! Que penas bonitas e brilhantes! Com certeza que o seu canto também é maravilhoso. Não queres mostrar-me como cantas?
O corvo ficou tão vaidoso com as palavras simpáticas da raposa, que lhe quis mostrar como cantava bem.
Assim que abriu o bico, o queijo caiu e foi mesmo parar aos pés da raposa que o engoliu de uma só vez.
Poucas histórias são tão apropriadas paras as cercanias do Palácio Rio Branco quanto esta fábula de Jean de La Fontaine. Ela é uma síntese exata do frenesi em que se transformou a corte com a troca de comando do Governo do Acre. Serve de alerta importante a Mailza Assis.
O poder revela movimentações estranhas no coração dos frequentadores do paço. Todos sabiam há tempos que Mailza Assis substituiria Gladson Camelí. Mas o dia da troca efetiva parece ter um outro espírito, outra energia. Para os cortesãos, é como se fosse um casamento novo. Necessidade de novos juramentos. Há uma perturbação infinita no peito dos fracos que deixa o corpo inquieto, palpitando no ritmo das publicações do Diário Oficial. Até essa turma se aquietar e voltar a trabalhar da forma necessária, pode levar um certo tempo.
Aos fatos: os desafios de Mailza Assis não serão poucos. A partir de agora, ela terá que encarar, de forma inédita, duas trincheiras de trabalho que ela nunca viveu, sobretudo na condição de líder que, a partir de hoje, é.
Mailza Assis tem oito meses de administração pública para conduzir. São oito meses em que ela, assim como o corvo da história, estará com o queijo no bico. A condução do destino do Orçamento, os prazos, as licitações, as obras inacabadas, os projetos incompletos, a falta de uma identidade da administração, a relação com a Assembleia Legislativa, a manutenção do entusiasmo da equipe. Tudo isso estará sob a responsabilidade de Mailza Assis. E tudo isso é apenas uma das trincheiras.
Costurando todas as situações inéditas que a nova líder conduzirá, estará o ritmo alucinado de uma campanha política. E esta campanha, em especial, se desenha complexa, cheia de artimanhas e armadilhas com muitos interesses e diferentes cifras. É uma campanha que tem um sabor especial à Mailza Assis. É uma disputa inédita para ela. É um queijo que o corvo nunca comeu.
É a primeira vez que o nome e o rosto dela estarão diante do povo para que se escolha diante de outros quatro nomes. Mailza nunca foi uma opção para a dúvida popular. As circunstâncias políticas, aliadas à mania de generosidade do povo acriano, sempre lhe ofereceram os mais destacados cargos públicos de maneira gratuita. Digamos que Mailza sempre teve as benesses da colheita sem nunca ter enfrentado as agruras de plantar e cultivar. Pois agora, isso vai mudar. Eis a segunda trincheira.
Neste aspecto, esse segundo campo da luta que Mailza enfrentará é ainda mais cruel porque há um aspecto psicológico em jogo. É como se ela tivesse que provar, primeiro a si, e depois à corte, que ela tem brilho próprio; que ela tem condições de suportar pressões; que ela pode transpor desafios. É uma batalha, sobretudo interna. Mas não a internalidade própria dos governos. Fala-se aqui daquilo que vai dentro do peito de uma mulher que, por enquanto, ainda não conseguiu sentir (e muito menos expressar) o Acre em todas as suas dimensões.
O espelho de Mailza não lhe pode ser adulador, feito os cálculos de tantas raposas, tão comuns em todos os governos. Raposa quando elogia é porque tem artimanha orquestrada. Este ac24horas saberá observar o exato tom em relação ao desempenho da nova líder nos dois campos de batalha. Em nome do regular exercício da administração pública, os oito meses de trabalho como governante precisam ser acompanhados com vigilância. Na rotina do jornalismo, não há espaço para adulações. Os fatos (e o registro deles) exigem respeito. O povo exige respeito. Mailza Assis precisa não apenas entender isto. Ela precisa viver isto.