Lideranças Huni Kuin oficializam pré-candidaturas pelo PT e protagonizam nova aliança política no Acre


O cacique Ninawa Inu Huni Kuĩ e o ex-vereador Manoel Kaxinawá oficializaram, nesta terça-feira, 31, suas pré-candidaturas à Câmara Federal e à Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), e protagonizam um gesto simbólico de união entre as lideranças do povo Huni Kuĩ durante a Plenária Regional de Filiação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Para os representantes, a articulação na disputa eleitoral é uma estratégia coletiva e histórica que busca garantir que o Legislativo reflita as demandas das comunidades acreanas.

Lideranças Huni Kuin oficializam pré-candidaturas pelo PT e protagonizam nova aliança política no Acre
Pré-candidaturas representam um novo cenário na política do Acre. Foto: Assessoria

A continuidade de uma luta histórica

Manoel Kaxinawá destacou que sua caminhada política é o prosseguimento de um legado deixado por gerações anteriores e que a ocupação de espaços institucionais é o novo passo dessa jornada. “Nós não estamos vindo de agora, já estamos vindo de uma base de movimento desde a luta dos nossos velhos pais. Estamos vindo com o peso de acompanhar a luta dos nossos guerreiros desde a demarcação das terras, a luta que até hoje resistiu”, afirmou.

Para  o político, a entrada no parlamento exige enfrentar diferenças estruturais na forma de enxergar o mundo e a administração pública. “Há um choque de cosmovisão. Enquanto a política tradicional é baseada em leis, muitas comunidades indígenas priorizam o coletivo, a ancestralidade e a harmonia com a natureza”, analisou Manoel. Ele ressaltou que a construção dessa união serve “para unificar e eleger o nosso próprio representante para ter voz e defender os direitos dos povos acreanos, valorizando as múltiplas identidades presentes em um mesmo espaço”.

“Aldear a Política”: O projeto de Ninawa para a Câmara Federal

Completando a frente Huni Kuin, o cacique Ninawa, pré-candidato a deputado federal, aprofundou o debate sobre o papel dos povos originários na política institucional. Para ele, a união multiétnica é a resposta direta contra a exclusão histórica. 

“A união dos povos indígenas do Acre nasce do nosso próprio interesse em lutar coletivamente para combater um modelo de política que não representa o interesse da maioria da sociedade acreana e muito menos dos povos indígenas”, declarou Ninawa. Ele frisou a força dessa aliança: “Somos diferentes em cultura e língua, mas temos o mesmo compromisso: defender nossos territórios e a vida. Entrar juntos em um projeto político é estratégico. Sozinhos somos vozes, juntos somos força. Estamos levando para o Legislativo uma representação coletiva, legítima e preparada para fazer diferença no estado do Acre”.

O cacique defende que o movimento indígena chegou a um ponto de maturidade onde apenas cobrar de fora não é mais suficiente. “O maior desafio é romper uma história onde sempre estivemos do lado de fora. Agora queremos estar dentro, ajudando a decidir. Não queremos só reivindicar direitos, queremos construir soluções. Levar a realidade dos territórios para dentro do parlamento é fundamental para criar políticas públicas mais justas e eficientes”, explicou.

A base de sua pré-candidatura sustenta-se no conceito de “aldear a política”, que ele define como uma ferramenta de transformação humanitária e institucional. “Aldear a política é trazer o espírito do coletivo, da escuta e do respeito à natureza para dentro do parlamento. Não estamos indo para nos adaptar ao sistema, mas para transformá-lo. Queremos uma política mais humana, mais próxima das pessoas e mais comprometida com o futuro”, definiu o líder.

Uma sabedoria para a floresta e para a cidade

Ninawa fez questão de desmistificar a ideia de que um mandato indígena governaria apenas para as aldeias. Segundo ele, os saberes tradicionais oferecem respostas urgentes para toda a população. “A sabedoria indígena pode contribuir com toda a sociedade. Em um momento de crise climática e social, nossos conhecimentos oferecem caminhos reais. Sustentabilidade, bioeconomia e vida em comunidade não são só ideias, são práticas vividas. Isso pode ajudar não só os povos da floresta, mas também quem vive nas cidades”, argumentou.

Ao encerrar sua fala, o cacique reafirmou o tom de responsabilidade de sua pré-candidatura: “Nosso compromisso é claro: levar para a política o cuidado com a vida, com as pessoas e com a natureza. Não queremos ocupar espaço por ocupar. Queremos transformar a forma de fazer política, com mais diálogo, mais responsabilidade e mais respeito ao povo”.

A articulação dessas lideranças foi celebrada pelo presidente estadual do PT, André Kamai, que ressaltou a importância dessa união para o futuro do estado. “A unidade dos povos indígenas vai possibilitar que tenhamos um representante indígena na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal para que a população do Acre seja plenamente representada”, concluiu Kamai.

 



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