*Por Valeria Michel, diretora de Sustentabilidade no Brasil e Cone Sul da Tetra Pak
Minha experiência em temas ESG remonta a mais de 20 anos, todos eles dentro do setor privado e em multinacional, com acesso a uma infinidade de relatórios, pesquisas e tendências tecnológicas de ponta fundamentais para que projetos em sustentabilidade sejam construídos. Resumo: tenho o privilégio de receber, em primeira mão, boa parte de tudo o que há de mais novo e moderno nesta seara.
Mas, com a certeza de que essas mesmas duas décadas me dão, nada traz mais resultado prático do que levar os altos executivos e executivas, aqueles que detém o poder de decisão, para conhecer de perto as realidades sociais e ambientais presentes na cadeia de valor do negócio. E, entenda-se por resultado prático planos, ações e financiamentos de projetos que saem do papel e ganham mais força após uma verdadeira experiência de “empatia corporativa”.
Não são poucas as pesquisas com C-level que mostram o interesse e necessidade de incorporar estratégias ESG, em especial sociais e ambientais, nos negócios que cuidam. Seja por demanda crescente por parte de investidores, seja de consumidores finais, cada vez mais preocupados em gastar com produtos e serviços mais sustentáveis. Assim, tornam-se multiplicadores dessa preocupação, uma espécie de “patrocinadores” de uma maior responsabilidade corporativa e social.
Mas, esses mesmos levantamentos também deixam claro a lacuna que ainda existe entre a vontade e a prática. Vamos a um deles: não há muito tempo, os Princípios para a Educação em Gestão Responsável (PRME, na sigla em inglês) — iniciativa apoiada pelas Nações Unidas e que tem como objetivo elevar o perfil da sustentabilidade na educação empresarial — mostraram que apenas 15% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estavam no caminho certo para serem cumpridas até 2030. E, especificamente no setor privado, apenas 51% dos CEOs acreditavam que as empresas poderiam desempenhar um papel fundamental nestes alvos, mas somente com maior comprometimento e ação. Mas como conseguir este comprometimento?
Claro que conhecimentos acadêmico e tecnológico são fundamentais nestes casos, longe de dizer o contrário. Mas quero defender aqui que a experiência empírica pode ser a chave que completa essa trama. E posso dizer isso por experiência própria.
Há cerca de dois anos, convenci em levar toda a diretoria da Tetra Pak, inclusive seu presidente, para conhecer o trabalho de uma cooperativa de reciclagem em São Paulo. E, mais do que conhecer as instalações do local, como sempre fazíamos. Todos colocaram a mão na massa, ou seja, ficaram por algumas horas na mesa de triagem de materiais recicláveis, separando embalagens cartonadas, latas de alumínio, plásticos, papel, papelão e toda a sorte de produtos descartados pela população e empresas.
Só neste pequeno tempo, sentiram na pele o imenso trabalho que catadores e catadoras precisam enfrentar diariamente para poder trabalhar. Muitas vezes, falta de estrutura – como equipamentos – mas principalmente a baixa conscientização da população em relação ao descarte seletivo. Ou todo mundo tem a ilusão que o material descartado chega separado dos orgânicos, hospitalares ou minimamente limpo para evitar mal cheiro e proporcionar uma melhor condição de trabalho para as cooperativas? Não mesmo!
O resultado foi quase imediato: dentro da empresa, percebemos que o engajamento aumentou ainda mais no tema sustentabilidade, mas principalmente a aprovação de novos projetos e, inclusive, com mais recursos. Esse movimento ajudou a elevar, por exemplo, o total de investimentos em sustentabilidade a R$ 27,2 milhões em 2025 só no Brasil, envolvendo a cadeia de reciclagem das caixinhas longa vida, projetos sustentáveis nas suas fábricas e até projetos incentivados. Somente na cadeia de reciclagem pós-consumo, foram beneficiadas aproximadamente 230 cooperativas de catadoras e catadores de material reciclável no país todo através de alguma ação da empresa.
Confesso que esta “ferramenta” na Tetra Pak apenas alavancou algo que já fazemos há mais de 20 anos, e ter um grupo de executivos com a mente aberta para novos modelos e inovação também facilitou este processo, mas em outras empresas, este pode ser o divisor de águas para o estabelecimento de uma estratégia ESG. Mas definitivamente, a “empatia corporativa” que esta experiência provocou foi o grande diferencial de sucesso!
Por isso, eu realmente acredito que levar executivos de primeiro escalão, C-Level, de dentro ou até fora do país no caso de multinacionais para conhecer realidades sociais e ambientais que demandam ações concretas é o melhor caminho para que empresas avancem em ESG.
