Publicado em: 22 de março de 2026

O diretor-presidente da empresa Deoclécio Corradi conta que nunca imaginou entrar para o ramo de ônibus e descreve como foi o disputado e decisivo lance que manteve a cidade gaúcha na rota da mobilidade
ADAMO BAZANI
Colaborou Vinícius de Oliveira
OUÇA:
Que uma das fabricantes de carrocerias de ônibus mais tradicionais do Brasil, a Comil, completou 40 anos em 2025, quem acompanha o setor sabe. Que a Comil foi sucessora da tradicional Incasel (Indústria de Carrocerias Serrana Ltda.), criada em 1949, em Erechim, no Rio Grande do Sul, também é de amplo conhecimento do setor. Assim como ‘Comil’ é uma abreviatura dos sobrenomes, Corradi e Mascarello Indústria Ltda., as famílias fundadoras da marca, que arremataram a Inscasel em leilão, em 1985, não é novidade.
Mas na história, poucos sabem como se deu a decisão das tradicionais famílias, que atuavam no ramo de silos industriais e agroindustrial, de entrar no ramo de fabricação de ônibus.
Um sonho de anos? Um plano de vida? Nada disso. Uma ideia que nasceu de uma notícia de jornal. Do periódico “Zero Hora”, que trazia uma nota, discreta, sobre o leilão da Incasel.
Quem contou ao criador e editor-chefe do Diário do Transporte, e para a editora-chefe da Revista Technibus, Márcia Pinna, foi um dos fundadores da marca Comil, Deoclécio Corradi. A notícia foi mostrada por um amigo de Deoclécio num voo para o Mato Grosso, onde iam ver instalações de silos, o negócio das famílias.
Desde sempre, a imprensa foi importante para os negócios dos transportes. Hoje, a Comil existe e Erechim continua na rota da mobilidade, graças a audácia, espírito de inovação, de expansão e mente aberta do empreendedor Deoclécio e sócios; graças ao trabalho de centenas de operários; graças aos empresários de ônibus que sempre acreditaram na Incasel e, posteriormente, na Comil; mas graças também, e não menos importante, trabalho de um jornalista ou uma jornalista que, ficou no anonimato, mas, ao cumprir bem seu papel de informar, mesmo sem esta pretensão e sem saber, mudou a história de uma cidade e de um setor inteiro. Ser jornalista profissional não é um mero trabalho, é uma missão.
O empresário ainda revelou que a cidade gaúcha, que é o terceiro maior polo industrial do Rio Grande do Sul, quase perdeu definitivamente o status de ser uma das poucas produtoras de carrocerias de ônibus do Brasil.
Erechim se destacou na história da produção de ônibus. Além da própria Incasel, arrematada pelas famílias Corradi e Mascarello, outras fabricantes marcaram a trajetória da cidade gaúcha, como a Irmãos Valentini e a Irmãos Piasson, que, em 1985, quando a falida Incasel ia a leilão, já não existiam mais.
Os grupos empresariais que já atuavam na produção de ônibus Brasil afora e que estavam no leilão não tinham interesse de manter a planta na cidade de Erechim. Queriam aproveitar ferramental e marca.
Deoclécio contou como foi o leilão, em 1985. Tenso, bagunçado, disputado, mas havia torcia pelos Corradi e Mascarello que expuseram o plano de manter a produção em Erechim. Uma ideia tomada na hora, fugindo do script, de oferecer não um valor global a mais, em si, mas uma parcela a mais que, na prática, aumentaria a arrecadação para a massa falida.
Em 2000, a família Mascarello deixou a Comil e, três anos depois, montou uma concorrente, na Carrocerias Mascarello, em Cascavel (PR).
Deoclécio lembrou também de um dos momentos mais difíceis da Comil. A recuperação judicial que se arrastou de 2016 a 2025. Depois de conjunturas econômicas desfavoráveis para o segmento de ônibus e da aposta não bem sucedida em uma planta de urbanos em Lorena, no interior de São Paulo, a Comil quase entrou em falência.
Mas a marca conseguiu se salvar, graças a disciplina, organização, gestão e ao trabalho incansável de um protagonista na história: o filho de Deoclécio, Carlo Corradi.
Acompanhe o relato que mostra como o acaso muitas vezes pode ser, na verdade, um plano, mas não dos homens e, sim, de um Poder maior.
ADAMO BAZANI: A revista Technibus e o Diário do Transporte estão no Podcast do Transporte em um momento especial, 40 anos de Comil. A gente está com o diretor-presidente Deoclécio Corradi, que vai conversar comigo, Adamo Bazani, e com Márcia Pina, a respeito desse momento da Comil, que registrou um crescimento expressivo no ano passado, 19%, prevê crescimento neste ano de 2026, um pouco mais moderado devido a toda a situação, mas o balanço dessa história, foi quase que no acaso que vocês salvaram uma indústria aqui em Erechim.
DEOCLÉCIO CORRADI: Realmente dá pra dizer que foi no acaso, a história de você pegar um voo pra ir pro Mato Grosso, e um outro passageiro, um amigo nosso, pegar o jornal Zero-Hora que ‘tava’ no avião e levou consigo, e numa conexão em Campo Grande ele falou assim pra mim: Óh, você que mexe com ferro, dá uma olhada aqui nesse jornal, o que tem lá em Erechim? Tem um negócio à venda lá. E eu peguei o jornal, achei interessante, tirei a página, levei comigo pra Cuiabá, porque as obras [dos silos] partiam lá do Mato Grosso. Liguei pro meu sócio, Mascarello, e disse: “Olha, tem um negócio interessante em Erechim, o que que você acha?” Ele falou: “Tá, então, se você acha que tá bom, é tal dia. Aí eu voltei do Mato Grosso antes da hora que eu iria voltar, tinha obras lá pra fiscalizar, pra fazer, eu sou engenheiro civil e tínhamos uma construtora. Aí, pra Cascavel, embarcamos no carrinho dele, ele tinha uma Mercedes azul claro. Foi uma beleza, né? E viemos a Erechim pra ver o que que era esse leilão [da Incasel], e nos informamos com o prefeito, com autoridades, e o que a gente marcou, com a diferença dos outros que estavam presentes, todas as empresas de ônibus fabricantes estavam aqui, outros empresários, é que nós assumiríamos o compromisso de abrir empresa aqui, e não levar pra fora como tinha um barulho [boato], né? E isso foi, pegamos a simpatia dos funcionários que estavam ali no leilão, e aí foi um leilão, tipo, um leilão de bolo de igreja, né? Um dá tanto, outro dá tanto.
ADAMO BAZANI: Disputado?. Bastante disputado?.
DEOCLÉCIO CORRADI: Disputado e no grito. Não tinha uma coisa oficial, um papel pra você colocar, era no grito. E aí, eu sei que tinha passado cinco lances, né? E eram cinco parcelas. Aí nós chegamos e dava sempre um tumulto, né? “Com licença, uma folguinha aqui pra gente combinar e tal”. E numa dessas aí nós chegamos pro leiloeiro, paras autoridades ali do leilão, ali pro leiloeiro principalmente, e disse: “Escuta, a gente pode ter uma sexta parcela ou sétima parcela? Porque a gente viu que cinco parcelas a gente tava no limite, né? Aí eles [disseram]: “Se você me der uma bicicleta a mais do que quem deu as cinco parcelas, vale. Você pode me dar mais uma parcela, mais um carro, mais o que você quiser, né? Quem der mais vai levar”. Aí nós criamos coragem. Aí quando abriu o leilão de novo, nós cobrimos a quinta parcela com dez e damos mais cinquenta com tantos dias, com um mês, mais cinquenta com dois meses. E virou uma bagunça, porque os caras não tinham pego isso do leiloeiro, né? Pode, não pode, pode. Mas ficou uma meia hora de confusão, né? E o leiloeiro “dole uma e dole duas”. Ele já tinha chegado dole uma e dole duas algumas vezes, né? E ninguém dava bola pra ele, né? Todo mundo pode, não pode, e combinando um empresário com o outro, para ver se comprava junto ou não comprava. Aí, num determinado momento, ele “dole uma, dole duas e dole três”. E a proposta era a nossa.
ADAMO BAZANI: E aí começou a história.
DEOCLÉCIO CORRADI: Aí começou a história, né. Foi interessante pra cidade, assim, o compromisso de abrir aqui, reabrimos, e muito profissional, que era chapeador, pintor, mecânico, tava na praça vendendo ou pipoca, ou sorvete, sei lá, umas bodeguinhas, né? E o pessoal voltou todo pra Comil. E aí que a gente começou, porque nós não entendíamos nada de ônibus. Nada. O nosso negócio era fazer silos, fazer galpão para armazenagem. Essas estruturas de armazenagem, era isso que a gente sabia fazer.
MÁRCIA PINNA: E nisso lá se vão 40 anos, né? Eu sei que foram muitos momentos nessa trajetória, mas o que o senhor destacaria, um momento marcante, alguns momentos marcantes dessa trajetória?
DEOCLÉCIO CORRADI: Teve um momento de maior perigo, foi quando a gente precisou entrar em recuperação judicial, né? E depois, quando saímos dela, é um momento marcante, né? E aí tem muito dessa tarefa de sair de uma recuperação judicial, o Carlo, meu filho, assumiu esse papel de gestão durante esse período. De início a gente tirou alguns profissionais que estavam no setor financeiro, em fábrica, alguma coisa assim. E ele assumiu essa questão e foi, junto com todo mundo, trabalhando firme, firme, firme, economia e trabalho bem feito, economia e trabalho bem feito, até que a gente conseguiu sair de uma recuperação judicial, que não é comum isso, né? Mas assim, você tem alguém para você dizer quem é o líder desse trabalho todo? É o Carlo, sem dúvida. Se você perguntar para os meus irmãos acionistas, eles vão dizer a mesma coisa, né? Foi à frente desse processo e hoje estão com uma empresa bem interessante, com produtos interessantes, atendendo o Brasil, vários outros países, né? E com crescimento estável, garantido, produtos bons, né? É dedicação plena em atender bem o cliente, fazer um bom ônibus e bonito.




Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Colaborou Vinícius de Oliveira