Exportações de móveis e colchões abrem 2026 em queda de 41,8% ainda sob efeitos do Tarifaço de Trump

 

Atualizações do Tarifaço americano, ratificação e entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, conflitos no Oriente Médio e outros assuntos movimentam o comércio exterior no 1º trimestre

Da Redação (*)

Brasília – As exportações brasileiras de móveis e colchões entraram em 2026 no vermelho. Em janeiro, os embarques somaram US$ 39,0 milhões, queda de 41,8% em relação a dezembro (US$ 66,9 milhões) e recuo de 13,7% na comparação com janeiro de 2025 (US$ 45,1 milhões).

O primeiro mês do ano costuma, de fato, ser um período de menor ritmo de embarques; ainda assim, a intensidade do recuo e, sobretudo, o contexto em que ele ocorre, sugere que o dado não é apenas sazonal. Ele funciona como termômetro de um ambiente em que a previsibilidade virou ativo raro para exportadores, especialmente após o choque tarifário imposto pelos Estados Unidos no início do segundo semestre de 2025.

O pano de fundo é, portanto, mais amplo do que contêineres a menos no porto. A indústria brasileira de móveis encerrou 2025 com queda de 1,2% no volume produzido, um sinal de que o setor já vinha ajustando processos diante de um ambiente externo mais hostil e de um mercado doméstico pressionado por juros altos e crédito restrito. As informações são da “Conjuntura de Móveis – Edição Fevereiro/2026”, estudo publicado pela Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) a partir de levantamento do IEMI junto a fontes oficiais.

Os sinais de janeiro: 2025 não ficou para trás

Desde o anúncio do tarifaço, que entrou em vigor em agosto do ano passado, empresas relataram um roteiro repetido: cancelamentos, renegociações, contratos encurtados e pedidos “em espera”. A virada para 2026 testaria se o mercado voltaria a respirar com ajustes jurídicos e rearranjos institucionais em Washington. Não voltou. Janeiro chega como prova estatística de que o problema não foi pontual: o importador compra quando consegue fechar custo total e risco; sem clareza, posterga ou muda de fornecedor.

A reconfiguração aparece no mapa de destinos. Em janeiro, os EUA responderam por “apenas” 19,3% do total de móveis e colchões prontos exportados pelo Brasil, bem abaixo de 28,3% em janeiro de 2025 e de 34,7% em janeiro de 2024. Na sequência, ganharam peso relativo parceiros recorrentes como Uruguai (12,2%), Chile (8,0%), Peru (7,7%) e Reino Unido (6,0%). A Argentina, que vinha crescendo em participação, cedeu no início do ano, ainda que mantenha um patamar de compra superior ao observado em anos anteriores.

Dessa forma, o “Top 10” concentrou 73,5% das exportações do mês: sinal de uma pauta mais defensiva, ancorada em mercados conhecidos quando o destino central entra em modo de cautela.

Afinal, qual a situação tarifária para o mobiliário brasileiro nos EUA? Entre as principais novidades relativas às tarifas americanas, a Suprema Corte dos EUA afirmou que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza o presidente a impor tarifas amplas, derrubando, por 6 votos a 3, as tarifas globais ancoradas nessa lei. O mercado, porém, olhou menos para a sentença e mais para a resposta: o governo Trump agiu rápido, utilizando-se de novas ferramentas para sobretaxação. A principal delas foi a Seção 122, apresentada como sobretaxa temporária, com tarifa anunciada em 10% e sinalização de elevação para 15%, em geral com duração de até 150 dias, salvo extensão legislativa.

Para o setor de móveis, contudo, a 122 tende a ter efeito limitado quando comparada à Proclamação de 29 de setembro de 2025, que ampliou o escopo da Seção 232 para abranger madeira, derivados e itens transformados que utilizam madeira como insumo relevante. Com isso, móveis de madeira no Capítulo 94 do HTSUS — com destaque para estofados, armários de cozinha e gabinetes de banheiro — passaram a ser tratados como “derivative products” de timber e lumber, sujeitos a tarifa adicional de 25%, além da tarifa NMF regular.

Em regra geral, produtos enquadrados na 232 não acumulam com a sobretaxa da 122, o que exige leitura técnica por código tarifário. Soma-se a isso a investigação sob a Seção 301, que pode resultar em tarifas seletivas no futuro. Resultado: o custo, para o importador, não é apenas o percentual da tarifa, mas especialmente o grau de confiança de que aquela regra vai se manter tempo suficiente para um pedido ser fechado, produzido, embarcado e vendido.

Isso significa, então, que o ponto de partida é entender que não existe uma única taxa aplicável a todo o mobiliário brasileiro. O que existe é um regime tarifário por camadas, que depende do código HTSUS de 10 dígitos, do material predominante (madeira, metal, plástico, entre outros), do tipo de produto (peça pronta, componente, parte…) e do enquadramento (ou não) em instrumentos específicos de política comercial dos EUA.

Na prática, o exportador brasileiro enfrenta atualmente o seguinte cenário:

  • Tarifa NMF regular: 0% a 6% (variável conforme o HTS);
  • Tarifa adicional (Seção 232): 25% (segurança nacional – madeira e derivados);
  • Possível exposição futura (Seção 301): Investigação em curso;
  • Eventuais medidas adicionais: Seção 122, antidumping ou compensatórias, se
  • aplicáveis.
  • Cai a tarifa IEEPA

Os impactos do ‘tarifaço’ na indústria brasileira de móveis

O setor estima que o impacto acumulado desde o anúncio das tarifas represente perdas entre US$ 70 milhões e US$ 90 milhões. Recuperar parte desse volume é possível, mas não acontece de forma imediata. Envolve tempo de prateleira — quando um fornecedor sai, outro ocupa —, capacidade financeira para absorver custo e preservar cliente, ciclos sazonais e de projetos, além do comportamento da concorrência internacional.

“Mesmo que haja melhora regulatória, não há volta instantânea. O pipeline leva meses para recompor”, explica Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel e gerente do Projeto Brazilian Furniture, iniciativa de internacionalização mantida pela entidade moveleira em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Além disso, em polos altamente expostos ao mercado americano, como os do Sul e do Sudeste, os impactos se manifestam de forma ainda mais sistêmica. Ou seja, não se trata apenas de “queda de exportação”, estamos falando de reprogramação industrial, ajuste de turnos, renegociação de contratos, aumento de estoques, perda de previsibilidade e até suspensão total da produção. Esse cenário encurta o horizonte de decisão e afeta toda a cadeia, do fornecedor ao transportador e, em seguida, a dinâmica econômica local.

Em emprego, a estimativa é que cerca de 10 mil desligamentos já tenham sido influenciados pelos efeitos do tarifaço. Projetos de modernização e expansão também foram revisados ou postergados, com os investimentos em máquinas e equipamentos caindo drasticamente ao longo do segundo semestre de 2025, chegando também no vermelho (-28,8%) em janeiro de 2026.

“Entendemos que há um choque assimétrico: para os Estados Unidos, o Brasil tem participação pequena no total importado, menos de 1%; já para diversas empresas brasileiras, o mercado americano representava parcela central da pauta externa, chegando a até 100% da produção. Essa assimetria explica por que o dano se concentra em determinados perfis empresariais e se irradia rapidamente para polos e microeconomias regionais”, ressalta a diretora-executiva da Abimóvel.

A entidade defende a exclusão do setor das sobretaxas ou redução para patamares inferiores a 15%, como condição mínima de recomposição de competitividade nos EUA.

Exportações de móveis e colchões abrem 2026 em queda e refletem nova geografia do comércio global

Atualizações do Tarifaço americano, ratificação e entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, conflitos no Oriente Médio e outros assuntos movimentam o comércio exterior no 1º trimestre

As exportações brasileiras de móveis e colchões entraram em 2026 no vermelho. Em janeiro, os embarques somaram US$ 39,0 milhões, queda de 41,8% em relação a dezembro (US$ 66,9 milhões) e recuo de 13,7% na comparação com janeiro de 2025 (US$ 45,1 milhões).

O primeiro mês do ano costuma, de fato, ser um período de menor ritmo de embarques; ainda assim, a intensidade do recuo e, sobretudo, o contexto em que ele ocorre, sugere que o dado não é apenas sazonal. Ele funciona como termômetro de um ambiente em que a previsibilidade virou ativo raro para exportadores, especialmente após o choque tarifário imposto pelos Estados Unidos no início do segundo semestre de 2025.

O pano de fundo é, portanto, mais amplo do que contêineres a menos no porto. A indústria brasileira de móveis encerrou 2025 com queda de 1,2% no volume produzido, um sinal de que o setor já vinha ajustando processos diante de um ambiente externo mais hostil e de um mercado doméstico pressionado por juros altos e crédito restrito. As informações são da “Conjuntura de Móveis – Edição Fevereiro/2026”, estudo publicado pela Abimóvel, a partir de levantamento do IEMI junto a fontes oficiais.

Os sinais de janeiro: 2025 não ficou para trás

Desde o anúncio do tarifaço, que entrou em vigor em agosto do ano passado, empresas relataram um roteiro repetido: cancelamentos, renegociações, contratos encurtados e pedidos “em espera”. A virada para 2026 testaria se o mercado voltaria a respirar com ajustes jurídicos e rearranjos institucionais em Washington. Não voltou. Janeiro chega como prova estatística de que o problema não foi pontual: o importador compra quando consegue fechar custo total e risco; sem clareza, posterga ou muda de fornecedor.

A reconfiguração aparece no mapa de destinos. Em janeiro, os EUA responderam por “apenas” 19,3% do total de móveis e colchões prontos exportados pelo Brasil, bem abaixo de 28,3% em janeiro de 2025 e de 34,7% em janeiro de 2024. Na sequência, ganharam peso relativo parceiros recorrentes como Uruguai (12,2%), Chile (8,0%), Peru (7,7%) e Reino Unido (6,0%). A Argentina, que vinha crescendo em participação, cedeu no início do ano, ainda que mantenha um patamar de compra superior ao observado em anos anteriores.

Dessa forma, o “Top 10” concentrou 73,5% das exportações do mês: sinal de uma pauta mais defensiva, ancorada em mercados conhecidos quando o destino central entra em modo de cautela.

Afinal, qual a situação tarifária para o mobiliário brasileiro nos EUA?

Entre as principais novidades relativas às tarifas americanas, a Suprema Corte dos EUA afirmou que a IEEPA não autoriza o presidente a impor tarifas amplas, derrubando, por 6 votos a 3, as tarifas globais ancoradas nessa lei. O mercado, porém, olhou menos para a sentença e mais para a resposta: o governo Trump agiu rápido, utilizando-se de novas ferramentas para sobretaxação. A principal delas foi a Seção 122, apresentada como sobretaxa temporária, com tarifa anunciada em 10% e sinalização de elevação para 15%, em geral com duração de até 150 dias, salvo extensão legislativa.

Para o setor de móveis, contudo, a 122 tende a ter efeito limitado quando comparada à Proclamação de 29 de setembro de 2025, que ampliou o escopo da Seção 232 para abranger madeira, derivados e itens transformados que utilizam madeira como insumo relevante. Com isso, móveis de madeira no Capítulo 94 do HTSUS — com destaque para estofados, armários de cozinha e gabinetes de banheiro — passaram a ser tratados como “derivative products” de timber e lumber, sujeitos a tarifa adicional de 25%, além da tarifa NMF regular.

Em regra geral, produtos enquadrados na 232 não acumulam com a sobretaxa da 122, o que exige leitura técnica por código tarifário. Soma-se a isso a investigação sob a Seção 301, que pode resultar em tarifas seletivas no futuro. Resultado: o custo, para o importador, não é apenas o percentual da tarifa, mas especialmente o grau de confiança de que aquela regra vai se manter tempo suficiente para um pedido ser fechado, produzido, embarcado e vendido.

Isso significa, então, que o ponto de partida é entender que não existe uma única taxa aplicável a todo o mobiliário brasileiro. O que existe é um regime tarifário por camadas, que depende do código HTSUS de 10 dígitos, do material predominante (madeira, metal, plástico, entre outros), do tipo de produto (peça pronta, componente, parte…) e do enquadramento (ou não) em instrumentos específicos de política comercial dos EUA.

Na prática, o exportador brasileiro enfrenta atualmente o seguinte cenário:

  • Tarifa NMF regular: 0% a 6% (variável conforme o HTS);
  • Tarifa adicional (Seção 232): 25% (segurança nacional – madeira e derivados);
  • Possível exposição futura (Seção 301): Investigação em curso;
  • Eventuais medidas adicionais: Seção 122, antidumping ou compensatórias, se
  • aplicáveis.
  • Cai a tarifa IEEPA

Os impactos do ‘tarifaço’ na indústria de móveis brasileira

O setor estima que o impacto acumulado desde o anúncio das tarifas represente perdas entre US$ 70 milhões e US$ 90 milhões. Recuperar parte desse volume é possível, mas não acontece de forma imediata. Envolve tempo de prateleira — quando um fornecedor sai, outro ocupa —, capacidade financeira para absorver custo e preservar cliente, ciclos sazonais e de projetos, além do comportamento da concorrência internacional.

“Mesmo que haja melhora regulatória, não há volta instantânea. O pipeline leva meses para recompor”, explica Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel e gerente do Projeto Brazilian Furniture, iniciativa de internacionalização mantida pela entidade moveleira em parceria com a ApexBrasil.

Além disso, em polos altamente expostos ao mercado americano, como os do Sul e do Sudeste, os impactos se manifestam de forma ainda mais sistêmica. Ou seja, não se trata apenas de “queda de exportação”, estamos falando de reprogramação industrial, ajuste de turnos, renegociação de contratos, aumento de estoques, perda de previsibilidade e até suspensão total da produção. Esse cenário encurta o horizonte de decisão e afeta toda a cadeia, do fornecedor ao transportador e, em seguida, a dinâmica econômica local.

Em emprego, a estimativa é que cerca de 10 mil desligamentos já tenham sido influenciados pelos efeitos do tarifaço. Projetos de modernização e expansão também foram revisados ou postergados, com os investimentos em máquinas e equipamentos caindo drasticamente ao longo do segundo semestre de 2025, chegando também no vermelho (-28,8%) em janeiro de 2026.

“Entendemos que há um choque assimétrico: para os Estados Unidos, o Brasil tem participação pequena no total importado, menos de 1%; já para diversas empresas brasileiras, o mercado americano representava parcela central da pauta externa, chegando a até 100% da produção. Essa assimetria explica por que o dano se concentra em determinados perfis empresariais e se irradia rapidamente para polos e microeconomias regionais”, ressalta a diretora-executiva da Abimóvel. A entidade defende a exclusão do setor das sobretaxas ou redução para patamares inferiores a 15%, como condição mínima de recomposição de competitividade nos EUA.

(*) Com informações da Abimóvel

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