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O futuro do trabalho será marcado cada vez mais por interações com máquinas, a ponto de a gente nem se dar mais conta. Essa é uma das características dos ambientes profissionais das próximas décadas, segundo o filósofo e cientista de dados Ricardo Cappra.
Em seu recém-lançado livro, Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas, ele propõe um olhar profundo sobre como a inteligência artificial molda não apenas a forma como produzimos, mas a própria compreensão do que é ser humano neste século.
Aqui, ele conta um pouco sobre o que nos espera no escritório, e alerta para o risco da proletarização cognitiva. Não sabe o que é? Vai aprender nas perguntas abaixo.
VEJA: Quando fala em híbridos, a que você se refere?
Cappra: Busquei investigar o que está entre pessoas e inteligências artificiais, porque meu ponto de vista é que da mistura entre eles surge um ser que é definido pela interdependência humano-dado-máquina. Dessa combinação surge a inteligência cognitiva de que falo no livro.
Seu foco principal é em como essas interações afetam o trabalho, certo?
Sim. O livro trata do futuro do trabalho, que será feito com as máquinas. Analisei como as tarefas eram divididas e de que maneira a tecnologia foi ocupando espaço até chegarmos aos agentes humanos e artificiais atuando juntos. A gente convive com máquinas, tecnologia e dados o tempo todo, muitas vezes sem perceber.
Em que situações da vida cotidiana essa interação entre humanos e máquinas já é tão natural que as pessoas mal se dão conta?
Em tudo. Pense num motorista de aplicativo, por exemplo. Toda a rotina de trabalho dele é interseccionada por algoritmos: do passageiro que vai pegar ao trajeto que percorrerá, momentos de pausa e abastecimento. Tudo mediado por alguma ação da IA. Exceto pelo trabalho manual de guiar o carro, o processo de cognição já é totalmente ativado pela inteligência artificial. Até a relação com a empresa, que se dá por meio de um chatbot.
Sem interações humanas boa parte do tempo.
E, se a pessoa que entra no carro está num dia ruim. Se por acaso não dá “oi”, “tchau” ou não cumprimenta, talvez esteja eliminando a única alternativa daquele motorista se relacionar com um ser humano. Toda relação dele é mediada por máquina.

Por um lado há quem veja essa interação com a IA como algo que aprimora nossas capacidades. E, por outro, quem ache que as pessoas estão ficando mais burras. Qual é o seu ponto de vista?
Há atividades em que há uma amplificação clara. Eu tenho dificuldade de representar visualmente coisas que imagino, para isso uso inteligência artificial. Ou seja, reconheço uma limitação e contorno isso com um instrumento. O problema é quando não tenho consciência de que isso está acontecendo. Especialmente se isso ocorre de forma contínua, o que pode gerar uma dependência. Falo disso no livro como “proletarização cognitiva”.
Em que consiste essa ideia?
É quando a gente transfere o pensar para uma esfera automática. O risco é que, quanto mais eu transfiro a cognição, menos exijo pensamento original, criatividade, iniciar do zero. Daqui a pouco a gente entra no modo automático sem perceber.
Daí a importância, tão comentada hoje em dia, do pensamento analítico e crítico.
Exatamente, porque o pensamento analítico mistura o computacional com o crítico para fazer perguntas melhores. Antes, para lidar com dados, eu precisava de planilhas complexas, matemática, cubos analíticos. Isso afastava as pessoas. Hoje a gente dialoga com dados. Quando a gente usa uma ferramenta como o ChatGPT, a gente está basicamente dialogando com dados por meio de uma interface de linguagem.