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A saúde do cérebro deixou de ser apenas uma preocupação médica. Hoje, ela passou a ser tratada como um ativo estratégico para o desenvolvimento das sociedades. Esse é o ponto central do conceito de brain capital, definido como a soma entre saúde cerebral e habilidades cognitivas como adaptação, empatia e capacidade de resolver problemas complexos.
Em um mundo acelerado pela inteligência artificial, essas competências se tornam tão relevantes quanto infraestrutura, energia ou tecnologia.
Os números ajudam a dimensionar o impacto. Segundo relatório apresentado recentemente pela Universidade Rice, nos Estados Unidos, em colaboração com a Universidade do Texas Medical Branch (UTMB), intervenções comprovadas em saúde cerebral poderiam recuperar mais de 260 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade e gerar ganhos econômicos estimados em trilhões de dólares até 2050.
Foi esse entendimento que levou o tema ao centro das discussões do Fórum Econômico Mundial, em janeiro de 2026, em Davos. O lançamento da Global Brain Economy Initiative (GBEI), acompanhado do relatório “The Human Advantage: Stronger Brains in the Age of AI”, consolidou um novo consenso global: o futuro econômico, social e tecnológico depende, cada vez mais, da saúde cerebral das populações.
Mas, na prática, esse debate começou antes de Davos.
Mudanças de paradigma
Embora o tema tenha ganhado projeção global em 2026, foi ao longo de 2025 que o cuidado neurológico passou por uma transformação impulsionada, sobretudo, pelo avanço tecnológico. A inteligência artificial ganhou espaço na análise de imagens cerebrais, apoiando a identificação precoce de alterações associadas a doenças como esclerose múltipla e Alzheimer.
Modelos de deep learning ajudaram a otimizar e acelerar exames de ressonância magnética, reduzindo o tempo de aquisição das imagens e contribuindo para avaliações mais precisas em casos complexos. Ao mesmo tempo, sistemas de linguagem médica começaram a apoiar a elaboração de laudos, ampliando consistência e padronização clínica.
Em paralelo, a genômica aplicada à neurologia avançou de forma significativa.
Exames genéticos e epigenéticos de alta complexidade, como painéis de sequenciamento de nova geração (NGS) (que analisam mais de 1.700 genes associados a síndromes epilépticas refratárias), ampliaram a capacidade diagnóstica em quadros desafiadores, desde epilepsias de difícil controle até tumores cerebrais.
Nesse cenário, testes de metilação tumoral (MethylBrain) passaram a apoiar a caracterização molecular de neoplasias do sistema nervoso central, oferecendo informações que complementam a análise histopatológica e contribuem para decisões terapêuticas mais precisas.
Também no campo terapêutico houve mudanças relevantes. O debate sobre o tratamento do Alzheimer entrou em uma nova fase com o desenvolvimento de medicamentos direcionados à fisiopatologia da doença, como as terapias anti-amiloides, voltado à remoção de placas beta-amiloides em estágios iniciais. Esses avanços reforçaram um ponto central: identificar precocemente faz diferença. Muda-se o tratamento mas para isso é necessária uma revolução no diagnóstico.
Ao mesmo tempo, ganharam força os núcleos especializados voltados ao cuidado do cérebro. Estruturados com atuação multidisciplinar e coordenação integrada entre neurologistas, psiquiatras e equipe multiprofissional esses espaços organizam o atendimento a partir de uma lógica de cuidado ao longo da vida, do neurodesenvolvimento, como nos casos de transtorno do espectro autista (TEA), das condições neurológicas da vida adulta e do envelhecimento.
A mensagem ficou evidente: o modelo fragmentado, baseado em atendimentos isolados, já não acompanha a complexidade dos desafios atuais.
Na neurologia, raramente um único exame responde todas as perguntas. Muitas condições cerebrais se desenvolvem de forma lenta, com sinais sutis que só se tornam evidentes ao longo do tempo.
Por isso, o cuidado neurológico passou a exigir acompanhamento contínuo, integração de informações e revisões periódicas. Exames de imagem, dados genéticos, marcadores moleculares e avaliação clínica deixam de existir de forma separada e passam a compor uma jornada estruturada.
Tendências a partir de 2026
Com a agenda global formalizada, algumas tendências passam a se desenhar com mais clareza. A primeira é o reconhecimento da saúde cerebral como prioridade estratégica, extrapolando os limites da medicina e passando a integrar debates econômicos e sociais.
A segunda é a expansão de núcleos altamente especializados, dedicados à memória, ao neurodesenvolvimento, às doenças neurológicas complexas e ao envelhecimento saudável, com atuação integrada entre diferentes áreas do cuidado.
A terceira é a consolidação da inteligência artificial como uma infraestrutura silenciosa da saúde presente no dia a dia clínico, apoiando decisões, qualificando diagnósticos e ampliando eficiência, sem substituir o julgamento médico.
Além disso, a integração entre neurologia, genômica, epigenética e terapias direcionadas tende a se aprofundar, ampliando a personalização do cuidado e a precisão terapêutica.
O diagnóstico deixa de ser um ponto final. Torna-se o início do cuidado.
Essa lógica se conecta diretamente ao conceito de brain capital. Preservar a saúde cerebral ao longo da vida não é apenas uma questão assistencial, mas sim um investimento coletivo, com impacto direto na autonomia, na participação social e na qualidade de vida.
Mais do que tratar doenças, o desafio que se impõe é estruturar sistemas capazes de proteger, compreender e acompanhar o cérebro ao longo da vida. No fim, essa é uma escolha estratégica sobre o tipo de sociedade que queremos construir nas próximas décadas.
* Diogo Haddad é neurologista, professor da Santa Casa de São Paulo e coordenador médico do Núcleo da Memória do Alta Diagnósticos, da Dasa
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