Da dança portuguesa ao bumba-meu-boi: grupos mostram como a cultura popular se mantém viva


Manifestações culturais mostram como tradição, família e inclusão social mantêm viva a identidade do São João maranhense.

Todos os anos, quando junho chega, o Maranhão se transforma em um grande palco a céu aberto. Dos arraiais da capital aos festejos do interior, a cultura popular ganha vida em manifestações que misturam música, dança, teatro, religiosidade e identidade. O brilho dos figurinos, o som das matracas, da percussão e dos tambores, a paixão dos brincantes, fazem do São João maranhense uma das maiores expressões culturais do país.

Mas, por trás de cada apresentação, existem histórias que o público nem sempre vê. São trajetórias de famílias que atravessam gerações mantendo tradições vivas, de projetos que acolhem crianças e jovens e de pessoas que encontram na cultura um caminho de pertencimento e transformação social.

É assim na Dança Portuguesa Estrela de Portugal, nascida na Cidade Operária, em São Luís, onde um grupo criado há mais de três décadas se tornou uma verdadeira família e segue passando a paixão pela dança de pais para filhos. Também é assim no Bumba-Meu-Boi Encanto de Cedral, criado no litoral maranhense a partir do sonho de uma professora e que hoje leva aos arraiais uma orquestra formada pelos próprios alunos de uma escola de música.

Uma estrela que nasceu na Cidade Operária

No Maranhão, a dança portuguesa conquistou um espaço próprio dentro das festas juninas. Inspirada nas tradições folclóricas de Portugal, a manifestação ganhou identidade maranhense ao longo dos anos, incorporando coreografias mais elaboradas, figurinos ricos em detalhes e uma presença cênica que encanta o público.

Foi nesse cenário que nasceu a Estrela de Portugal.

Criado entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 1990, na Cidade Operária, um dos bairros mais populosos de São Luís, o grupo surgiu de uma pequena brincadeira entre moradores apaixonados pela cultura popular. O que começou de forma simples cresceu junto com a comunidade e se consolidou como uma das principais referências da dança portuguesa na capital.

O integrante da diretoria, Arnaldo Ferreira, acompanhou praticamente toda essa trajetória.

“A dança portuguesa começou como uma pequena brincadeira. A gente foi ajustando, ajustando, e dali foi surgindo a Estrela de Portugal. Chamou muita atenção na Cidade Operária, e todo mundo queria fazer parte.”

Com o passar dos anos, o grupo deixou de ser apenas uma manifestação cultural e passou também a exercer um papel social dentro da comunidade.

“A Estrela de Portugal também resgata pessoas. Tirou muita gente das drogas, da bebida. Nós somos uma família. Abraçamos todos. É como coração de mãe.”

Após um período de pausa, sete integrantes decidiram reorganizar o grupo e devolver à Cidade Operária uma tradição que havia se enfraquecido. De acordo com Arnaldo, foram meses de trabalho intenso, noites dedicadas à confecção dos figurinos e muito esforço coletivo para que a Estrela voltasse a brilhar.

“Por que não voltar a Estrela de Portugal? Por que não resgatar essa cultura para a Cidade Operária? Foi muito trabalho, muitas noites sem dormir. Hoje a Estrela está aí para quem não acreditava.”

Hoje, o grupo se apresenta nos principais arraiais de São Luís e leva sua tradição a municípios do interior do estado.

A tradição que atravessa gerações

Ao longo dos anos, pais levaram filhos aos ensaios, crianças cresceram acompanhando os bastidores das apresentações e, naturalmente, passaram a ocupar o lugar daqueles que um dia estavam no centro da roda.

A presidente do grupo, Katcilene Costa Ferreira, viu esse processo acontecer dentro da própria casa. Antiga brincante, hoje acompanha os filhos, Cauê e Kainã, ocupando o espaço que um dia foi dela.

Para Cauê Ítalo, vestir o figurino da Estrela representa a continuidade de uma história construída pela família.

“A gente acompanhou essa história desde pequeno. Esperava muito pelo retorno da Estrela e agora poder sair na dança é uma honra. É acompanhar uma trajetória de tradição.”

O irmão mais novo, Kainã Fábio Ferreira Costa, lembra que o encantamento começou muito antes de entrar oficialmente para o grupo.

“Quando a gente era criança, acompanhava nossa mãe em todos os ensaios. Ela fazia nossas roupas, as botas… Hoje é um sonho realizado.”

Aos 11 anos, Davi resume o verdadeiro significado da herança cultural.

“Minha mãe também era brincante quando eu ainda tava bem na cabecinha dela, quando eu ainda era um caroço de arroz. Hoje eu acho muito gratificante fazer o que minha mãe fazia.”

Vitória, de 16 anos, acredita que essa missão também acontece diante do público.

“A gente transmite alegria para quem está assistindo. Às vezes a pessoa teve um dia difícil e sai sorrindo depois da apresentação.”

Já Maria Júlia, aos seis anos, responde sem pensar quando perguntada sobre como se sente ao dançar diante de tanta gente.

“Feliz.”

Um sonho que virou boi

Se na Cidade Operária a tradição se fortalece entre gerações, em Cedral, no litoral maranhense, ela nasceu de um sonho. Foi ali que a professora Jacilene Rabelo decidiu transformar o desejo de criar um bumba-meu-boi de orquestra em realidade.

O projeto começou a tomar forma em 2022, dando origem ao Bumba-Meu-Boi Encanto de Cedral. Mas, antes mesmo da criação do grupo, Jacilene e o marido, o músico Neuto Coimbra, fundaram a Escola de Música Rosa de Saron.

“Todos os músicos são meus alunos. Criamos a escola porque o sonho era ter um bumba-meu-boi de orquestra. Então precisávamos formar nossos próprios músicos”, explica Neuto.

Hoje, os estudantes aprendem teoria e prática musical e, em pouco tempo, já integram a orquestra do grupo.

Para ele, o impacto vai além da música.

“Foi uma forma de afastar esses jovens de caminhos errados e trazê-los para um ambiente saudável, onde aprendem, convivem e crescem por meio da cultura.”

O Bumba-Meu-Boi Encanto de Cedral também se destaca pela inclusão.

O grupo reúne crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos e pessoas com deficiência.

“O Bumba-Meu-Boi envolve pessoas de todas as faixas etárias. Todos participam e ficam felizes por fazer parte”, afirma Jacilene.

A Dança Portuguesa Estrela de Portugal e o Bumba-Meu-Boi Encanto de Cedral mostram que a cultura popular no Maranhão se mantém viva porque segue em movimento, se renovando nos ensaios, nas famílias, nas comunidades e, principalmente, nas novas gerações que assumem essas manifestações como parte da própria vida.

Nos arraiais, o que chega ao público é o espetáculo, mas, por trás dele, permanece um trabalho contínuo de ensinamento e aprendizado que garante que essa herança não pare no tempo.



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