
Um dos erros mais comuns do nosso tempo é tratar força, violência e criminalidade como se fossem a mesma coisa. Não são. A força, em si, é uma capacidade. A violência é o uso dessa força. Já a criminalidade surge quando ela é empregada de forma injusta, desordenada e ilegítima. Quando essa distinção desaparece, toda firmeza passa a parecer errada – inclusive a firmeza necessária para proteger inocentes, conter o mal e preservar o que é justo.
Dessa confusão nasce outro erro: o de exaltar o homem “inofensivo” como modelo ideal. À primeira vista, isso pode parecer virtude. Mas bondade não é incapacidade. Mansidão não é passividade. Uma pessoa verdadeiramente boa não é aquela que não tem força, mas aquela que possui força e sabe governá-la. Quem não consegue reagir quando deveria talvez não seja pacífico; talvez apenas esteja despreparado para cumprir o próprio dever.
A própria Escritura afasta esse tipo de ingenuidade. Em Eclesiastes 3,8, lemos que há “tempo de guerra e tempo de paz”. Não se trata de elogiar o conflito, mas de reconhecer que a vida exige discernimento. Nem toda situação se resolve com recuo. Há momentos em que a firmeza não é excesso, mas responsabilidade.
A questão central, portanto, não é eliminar a força, mas ordená-la. Quando é guiada por orgulho, impulso, vingança ou vaidade, a força se torna destrutiva. Mas, quando está submetida à justiça, ela se torna instrumento de proteção. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a legítima defesa pode ser não apenas um direito, mas também um dever, especialmente para quem tem responsabilidade sobre outros. Isso coloca o homem diante de uma exigência concreta: ele não pode ser agressor, mas também não pode ser ausente quando o bem que lhe foi confiado precisa ser defendido.
Esse ponto ajuda a compreender melhor a covardia. Covardia não é apenas sentir medo – medo todos sentem. Ela aparece quando o medo domina a consciência e leva a pessoa a fugir da verdade, abandonar o dever ou se omitir diante do mal. Por isso, a Escritura trata esse tema com seriedade. Não para humilhar o fraco, mas para lembrar que a maturidade exige coragem.
Essa reflexão toca diretamente a formação dos jovens. Uma geração excessivamente protegida pode crescer sem aprender a lidar com frustração, sacrifício, risco e responsabilidade. Quando toda dificuldade é removida, o jovem não amadurece; apenas se acostuma a depender de amparo constante. E, sem enfrentamento real da vida, não se desenvolvem firmeza, critério nem resistência interior.
Educar bem não é poupar de tudo. É ensinar a suportar o desconforto, cumprir deveres, responder pelos próprios atos e permanecer firme quando a vida exigir seriedade. Um jovem com essa formação não será violento, mas também não será moralmente frouxo. Saberá controlar a si mesmo, proteger quem precisa e enfrentar a realidade sem fugir dela.
A família depende profundamente disso. Toda casa precisa de presença, confiabilidade e proteção. Quando falta firmeza moral, a estrutura se enfraquece. E quando muitas famílias perdem essa referência, a sociedade inteira sente as consequências.
A conhecida frase de Jordan Peterson toca justamente nesse ponto: “Se você acha que homens fortes são perigosos, espere até ver do que homens fracos são capazes.” O homem forte, quando bem orientado, tende a proteger, sustentar e permanecer firme. O homem fraco, por sua vez, não deixa de causar dano; muitas vezes, causa por omissão, negligência ou deslealdade.
O modelo cristão não é o do homem violento, mas também não é o do homem passivo. O exemplo de Cristo aponta para outra medida: mansidão com firmeza, misericórdia com justiça, amor com verdade. Ele não agride por impulso, mas também não foge da responsabilidade nem se cala diante do erro.
No fim, o desafio não é formar homens agressivos, e sim homens responsáveis. Homens capazes de dizer a verdade, cumprir a palavra, proteger quem lhes foi confiado e agir com firmeza quando o bem exigir. Porque, quando o bem não é defendido, o mal encontra espaço. E quase sempre cresce onde encontra omissão.
Álvaro Luiz Silva Coêlho
Católico, filho, esposo e pai.
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