Duas bombeiras se tornam as primeiras mulheres pilotos de avião da Segurança Pública do Amapá – SelesNafes.com


Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)

O horizonte do Amapá ganha novos contornos e um significado inspirador. Pela primeira vez na história da Segurança Pública do estado, duas mulheres assumem os controles de aeronaves de asa fixa, quebrando barreiras de gênero em um espaço historicamente masculino. A Capitão Roberta Paiva e a Tenente Kelly Ribeiro, ambas vindas das fileiras do Corpo de Bombeiros Militar, enfrentam os rigorosos estágios finais de adaptação técnica e estão prestes a atuar diretamente em missões de busca, salvamento e transporte humanitário pelo Grupo Tático Aéreo (GTA).

A jornada até os cockpits do GTA não foi linear, exigindo abdicação, foco absoluto e centenas de horas dedicadas à teoria e à prática da aviação. Agora, integradas ao grupamento, elas vivenciam a fase de Ground School — onde desvendam detalhadamente a engenharia e a performance de das aeronaves da segurança do estado, como o Cessna 210 (Gavião 02) e o Cessna 208 Caravan (Gavião 03). Em breve, assumirão a função de copilotos (2P), materializando uma vitória que ultrapassa a realização pessoal, mas um marco coletivo para a sociedade amapaense.

Militares passam pela fase de Ground Control para alinhar comandos e técnicas de operação das aeronaves do Amapá. Fotos: Luiz Santana/Sejusp

Para a Tenente Anne Kelly Silva Ribeiro Dias, que ingressou no Corpo de Bombeiros em 2006, o “chamado dos céus” começou muito antes de vestir a farda. Na Macapá de sua infância, sem a infraestrutura de lazer ou a orla estruturada de hoje, um dos grandes atrativos de final de semana para as famílias de recursos limitados era visitar o aeroporto local.

“Não é clichê algum dizer que somos do tamanho dos nossos sonhos. Eu era uma criança que vinha com a família tomar sorvete no aeroporto aos finais de semana. Mesmo com condições financeiras limitadas, meus pais reuniam os filhos e nos traziam na hora em que os voos chegavam. Eu ficava maravilhada e encantada vendo o avião pousar e decolar, mas jamais imaginaria que um dia conseguiria viver isso. Parecia um sonho muito distante. Hoje, a determinação, a luta, o estudo e a dedicação me trouxeram para o que é mais do que a realização de um sonho: é uma missão assumida com a sociedade”, disse a Tenente.

Tenente BM Kelly. “Parecia um sonho muito distante”

O encantamento da infância transformou-se em disciplina militar. Diante das apostilas técnicas, Kelly compreendeu que o simbolismo de sua presença no GTA é um farol para as próximas gerações. Ela destaca que ver mulheres ocupando espaços antes inimagináveis transforma o imaginário de meninas e adolescentes que, agora, sabem que também podem sonhar alto.

Já a Capitão Roberta Nunes Paiva iniciou sua trajetória militar em 2008 como soldado. Subindo os degraus da carreira com determinação, alcançou o Oficialato e, em 2022, conquistou a licença de piloto. Inspirada pelo irmão, que também é aviador, Roberta transformou o desejo de proteger vidas em combustível para enfrentar uma rotina implacável de formação.

A preparação para se tornar piloto de segurança pública exige aprovação na exigente banca teórica da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e o cumprimento de uma carga horária prática superior a 100 horas de voo. Para Roberta, esse caminho exigiu deslocamentos até Goiânia (GO) para realizar as horas práticas de Piloto Privado e Piloto Comercial, além de uma resiliência extraordinária nos bastidores.

“Essa caminhada precisou de muita dedicação e do apoio fundamental da minha família, especialmente durante a formação, quando precisei conciliar a carreira militar, os estudos intensos mergulhada em livros e apostilas, as horas de voo e a maternidade. Busquei dar este novo passo para, literalmente, alçar voos mais altos na missão de preservar vidas e servir de exemplo. Essa conquista não é apenas minha, é fruto do apoio da minha família, da confiança dos meus comandantes, instrutores e de muitas mulheres que abriram caminhos antes, como a Solange, primeira operadora aero-tática do Amapá, e a Kelly, nossa pioneira no grupamento”, comentou.

Capitão Roberta. “É uma conquista coletiva”

O próximo destino: operações reais

Atualmente, as duas pilotos avançam juntas no treinamento técnico e de segurança. Após a conclusão bem-sucedida do estágio de adaptação e das horas de voo locais nas novas aeronaves, elas estarão completamente prontas para comandar missões reais nas regiões mais isoladas do Amapá. A presença de Roberta e Kelly redefine o papel das mulheres nas forças de segurança, provando que o talento, o profissionalismo e o heroísmo não têm gênero.

Primeiras mulheres pilotos do GTA estão nas fases finais para operarem como copilotos no GTA





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