A permanência do senador Jaques Wagner (PT-BA) na liderança do governo no Senado Federal deflagrou uma crise interna no Palácio do Planalto e evidenciou divisões no Partido dos Trabalhadores. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venha adotando uma postura de preservação de seu aliado histórico, membros do primeiro escalão do Executivo e dirigentes partidários defendem, sob reserva, a saída do parlamentar do posto estratégico para evitar o desgaste da gestão federal perante a opinião pública.
O congressista baiano tornou-se alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação aponta indícios de vantagens indevidas, que incluiriam um imóvel avaliado em R$ 2,4 milhões, passagens aéreas em jatos particulares e repasses financeiros que somam R$ 3,5 milhões a empresas vinculadas ao seu círculo familiar.
Em contrapartida, o senador teria atuado legislativamente em favor dos interesses do Banco Master. Durante as buscas em seus endereços, a PF apreendeu quantias em moeda estrangeira (US$ 66 mil e 39 mil euros), cuja origem Wagner atribuiu a diárias oficiais de viagens internacionais pagas pelo Senado.
Nos bastidores governistas, a avaliação é de que a permanência do parlamentar na liderança pode municiar a oposição e paralisar votações de interesse do Planalto no segundo semestre.
A insatisfação interna ganhou contornos públicos com a declaração do deputado Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara, que defendeu abertamente o afastamento temporário de Wagner.
Além disso, interlocutores classificaram como “sofríveis” as justificativas apresentadas pelo senador em entrevista à TV Bandeirantes da Bahia sobre as transações imobiliárias investigadas.
O presidente Lula deve se reunir com Jaques Wagner nos próximos dias para selar o futuro da liderança na Casa.
Cientistas políticos avaliam que o episódio impõe um risco estratégico ao governo, pois permite que partidos de oposição reativem discursos associando a atual gestão a antigos escândalos de corrupção, além de ameaçar a estabilidade política do PT na Bahia, uma das principais bases eleitorais da legenda no país.