Enquanto o Acre aparece como o estado com a maior incidência de leishmaniose cutânea do país, moradores das áreas mais afetadas ainda sabem muito pouco sobre a doença. É o que revela um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Fundação Hospitalar do Acre (Fundhacre), realizado em Sena Madureira, um dos municípios acreanos considerados endêmicos para a enfermidade.
A pesquisa mostra um cenário preocupante: 96% dos pacientes entrevistados apresentaram conhecimento insuficiente sobre a leishmaniose cutânea, conhecida popularmente como “ferida braba”. Entre eles, apenas 6% conseguiram identificar corretamente o inseto transmissor da doença e somente 8% citaram alguma medida de prevenção.
O levantamento ouviu 50 pacientes com suspeita clínica da doença e 51 agentes de saúde entre 2022 e 2023. Os pesquisadores concluíram que a falta de informação é um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce e para o controle da enfermidade na Amazônia Ocidental.
Segundo o estudo, a situação é ainda mais grave quando se analisa o conhecimento sobre sintomas e tratamento. Nenhum dos pacientes entrevistados alcançou nível considerado satisfatório nesse aspecto. Apenas 40% associaram a doença ao aparecimento de feridas na pele e somente 36% sabiam que o tratamento é oferecido gratuitamente nas unidades de saúde.
Os pesquisadores destacam que o Acre registrou, em 2023, a maior prevalência de leishmaniose cutânea do Brasil. Mais de 50% dos casos notificados no país ocorreram na Região Norte, sendo que o estado apresentou taxa de detecção de 691 casos por 100 mil habitantes.
Em 2025, os municípios acreanos de Xapuri, Marechal Thaumaturgo, Assis Brasil, Sena Madureira e Brasileia foram classificados pelo Ministério da Saúde como áreas de risco intenso para transmissão da doença.
Apesar disso, a doença continua cercada por desinformação. O estudo identificou que muitos moradores recorrem a tratamentos caseiros com ervas e substâncias naturais, como mastruz, copaíba, látex de pião e látex de bananeira. Cerca de 36% dos entrevistados afirmaram utilizar esses métodos.
A pesquisa também revelou fragilidades entre os próprios profissionais responsáveis por orientar a população. Entre agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias, 96% apresentaram conhecimento insuficiente sobre sinais, sintomas e tratamento da doença. Além disso, 80% disseram desconhecer o Programa Nacional de Controle das Leishmanioses e 78% nunca participaram de treinamentos específicos sobre o tema.

Os pesquisadores destacam que o Acre registrou, em 2023, a maior prevalência de leishmaniose cutânea do Brasil/Foto: Reprodução
Para os autores, os resultados mostram que o enfrentamento da leishmaniose na Amazônia depende não apenas da ampliação do acesso aos serviços de saúde, mas também do fortalecimento das ações educativas e da capacitação contínua dos profissionais que atuam nas comunidades.
O estudo conclui que a combinação entre vulnerabilidade social, isolamento geográfico e déficit de informação cria um ambiente favorável para a manutenção da doença, tornando urgente a adoção de políticas públicas adaptadas à realidade amazônica.
Quem assina o estudo
A pesquisa foi coordenada por Leandro Siqueira de Souza, do Laboratório de Doenças Parasitárias do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), e reúne pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), da Fundhacre e da própria Fiocruz. Entre os autores estão Andréia Luísa Peixinho da Silva Guimarães, Francisca Alana Costa de Souza, Marcos Bruno Zacarias Campelo, Breno Kalyl Freitas Nascimento, Luiz Fellype Alves de Souza, Andreia Fernandes Brilhante, Francisco Glauco de Araújo Santos e Reginaldo Peçanha Brazil.
O que é a leishmaniose cutânea?
A leishmaniose cutânea é uma doença tropical negligenciada causada por protozoários do gênero Leishmania. A transmissão ocorre pela picada da fêmea de pequenos insetos conhecidos popularmente como mosquito-palha, birigui ou catuqui.
A enfermidade é considerada um importante problema de saúde pública na Amazônia, especialmente em áreas rurais e florestais, onde há maior contato entre seres humanos, vetores e animais silvestres que participam do ciclo da doença.
Quais são os sintomas?
A principal manifestação é o surgimento de feridas na pele, que podem aumentar de tamanho e demorar meses para cicatrizar. Se não tratada adequadamente, a doença pode provocar deformidades e complicações mais graves.
O estudo mostra que menos da metade dos pacientes entrevistados reconheceu as feridas como principal sintoma da doença.
Como é feito o tratamento?
O tratamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e geralmente utiliza medicamentos específicos contra o parasita, como o antimoniato de meglumina, conhecido comercialmente como Glucantime. Entre os agentes de saúde entrevistados, esse foi o medicamento mais citado.
Os pesquisadores alertam que remédios caseiros e tratamentos tradicionais não curam a doença. Apesar disso, mais de um terço dos pacientes relatou utilizar substâncias como mastruz, copaíba, látex de pião e látex de bananeira para tentar tratar as lesões.
Por que o Acre preocupa?
O Acre registrou em 2023 a maior taxa de incidência de leishmaniose cutânea do Brasil: 691 casos para cada 100 mil habitantes. Mais da metade dos casos notificados no país ocorreu na Região Norte.
Segundo os autores, fatores como desmatamento, ocupação de áreas florestais, dificuldades de acesso à saúde e falta de informação contribuem para a manutenção da doença na região amazônica.
A pesquisa está disponível no link, CLICANDO AQUI.