Investigação revela estrutura do Tren de Aragua em Roraima e ligação com facções brasileiras


A Polícia Civil de Roraima afirmou nesta terça-feira (16), que o estado se tornou a principal porta de entrada da facção criminosa venezuelana Tren de Aragua no Brasil e abriga parte da liderança responsável pelas ações violentas da organização no país. As informações foram divulgadas durante coletiva de imprensa sobre a Operação Rota do Norte, deflagrada pela Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (DRACO).

A operação ocorre simultaneamente em Roraima, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, com o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão contra integrantes e colaboradores da facção. Segundo a Polícia Civil, a investigação foi desenvolvida ao longo de aproximadamente um ano e meio e teve como foco principal o núcleo financeiro da organização criminosa.

Delegada-Feral Simone Arruda (Foto: Nilzete Franco/Folhabv)

Durante a coletiva, a delegada-geral da Polícia Civil, Simone Arruda, destacou que o combate ao crime organizado exige ações permanentes, inteligência policial e capacitação especializada.

“O crime organizado transnacional não é uma ação simples de combater. Exige coordenação, persistência e investigações qualificadas”, afirmou.

Delegado Wesley Oliveira é o coordenador da Operação (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

De acordo com o delegado e coordenador da operação, Wesley Costa de Oliveira, os investigados movimentavam grandes quantias de dinheiro provenientes da venda de armamentos pesados destinados principalmente a facções criminosas do Amazonas e do Rio de Janeiro.

As apurações apontam que integrantes do Tren de Aragua atuam no fornecimento de fuzis, metralhadoras e outros armamentos de grosso calibre para integrantes do Comando Vermelho. Segundo o delegado, parte dessas armas tinha origem nos Estados Unidos, na Colômbia e na Venezuela e utilizava Roraima como corredor logístico para chegar a outros estados brasileiros.

Delegado da DRACO, Hugo Cardias (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

O delegado da DRACO, Hugo Cardias, informou que a operação já resultou na apreensão de grandes quantias em dinheiro, incluindo dólares americanos, criptomoedas, veículos de luxo e outros bens incompatíveis com a renda declarada dos investigados.

“Em apenas um dos alvos foram encontrados cerca de 32 mil dólares. Também há apreensões de veículos avaliados em aproximadamente R$ 1 milhão nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo”, relatou.

Lideranças violentas estão em Roraima

Segundo a Polícia Civil, embora parte da estrutura financeira esteja distribuída em outros estados, as lideranças ligadas ao braço armado e às ações violentas da organização permanecem em Roraima.

Conforme explicou Wesley Oliveira, os investigados no estado ocupam posições intermediárias na estrutura financeira da facção, mas os principais responsáveis pelas atividades violentas já identificadas pela polícia estão concentrados em território roraimense, inclusive alguns deles já presos.

Expansão começou na fronteira

A delegada-geral Simone Arruda afirmou que os primeiros indícios da presença da facção em Roraima começaram a ser observados entre 2018 e 2019, período em que a Polícia Civil passou a monitorar a atuação de criminosos venezuelanos que ingressavam no estado por meio da fronteira.

Posteriormente, investigações relacionadas a homicídios e esquartejamentos registrados no bairro 13 de Setembro ajudaram a comprovar a presença e a atuação de integrantes do Tren de Aragua e de outros grupos criminosos venezuelanos em Boa Vista.

Polícia monitora possível reflexo após morte de Niño Guerrero

Guerrero estava foragido desde 2023, quando escapou da prisão de Tocorón pouco antes de uma grande operação policial no complexo penitenciário. Foto: reprodução/Governo da Venezuela

Questionados pela FolhaBV sobre a possibilidade de um aumento na entrada de integrantes do Tren de Aragua em Roraima após a recente ofensiva contra a facção na Venezuela, os delegados afirmaram que a situação está sendo monitorada pelas forças de segurança.

A preocupação surgiu após a morte de Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero, apontado como líder máximo do Tren de Aragua. A morte foi anunciada na última sexta-feira (13) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após uma operação realizada em conjunto com autoridades venezuelanas na região de Bolívar, próxima à fronteira com o Brasil.

Durante a coletiva, o delegado Hugo Cardias afirmou que a Polícia Civil já solicitou estudos e análises de inteligência sobre os impactos da ofensiva na Venezuela e acompanha a movimentação da facção em outros países da América do Sul.

Segundo ele, há indicativos de que integrantes do grupo que atuavam na região de Las Claritas, área de garimpo próxima à fronteira venezuelana, possam tentar deixar o país diante da pressão das autoridades.

O coordenador da operação, delegado Wesley Oliveira, explicou que a extensa faixa de fronteira entre Brasil e Venezuela, sem barreiras físicas em diversos trechos, facilita travessias irregulares e torna Roraima uma rota potencial para integrantes da organização criminosa.

“Provavelmente alguns desses faccionados venezuelanos vão querer utilizar o Brasil como rota de fuga”, afirmou o delegado.

Apesar do alerta, os delegados ressaltaram que a Operação Rota do Norte demonstra que as forças de segurança estão atentas à movimentação da facção e atuando para enfraquecer sua estrutura financeira e logística no país. A avaliação da Polícia Civil é que a pressão internacional sobre o Tren de Aragua pode provocar uma reorganização da organização criminosa, exigindo maior vigilância na região de fronteira.



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