O governo brasileiro optou por não endossar duas declarações aprovadas pelo G7 devido a divergências estruturais e políticas em relação às propostas apresentadas pelo grupo de países ricos. As objeções brasileiras concentram-se nos planos para o fomento do desenvolvimento em nações de baixa renda e nas diretrizes para o enfrentamento do surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda.
A primeira declaração rejeitada, intitulada “parcerias internacionais mutuamente benéficas”, defende reformas na arquitetura financeira global para incentivar a mobilização de recursos internos e atrair capital privado, com o objetivo de fortalecer a autonomia econômica dos países mais pobres. O plano principal do G7 prevê a utilização de recursos públicos limitados para alavancar investimentos privados.
No entanto, o Palácio do Planalto avaliou que a proposta reduz a superação do desenvolvimento desigual a uma dimensão puramente financeira, desconsiderando fatores políticos complexos. Em contraposição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu uma abordagem mais ampla para a questão.
Em pronunciamento, o mandatário brasileiro apontou que o debate deve incluir o combate ao crime organizado, o enfrentamento das mudanças climáticas, políticas ambiciosas de distribuição de renda e o combate direto à desigualdade.
Além disso, o Brasil criticou a ausência de autocrítica das potências globais sobre o impacto do protecionismo econômico e dos conflitos internacionais na estabilidade dos países em desenvolvimento.
O segundo impasse ocorreu em torno do documento sobre o combate ao Ebola. O texto do G7 clama por uma resposta internacional coordenada para conter a disseminação da nova variante do vírus por meio de controle de infecções, vigilância fronteiriça e envio de ajuda humanitária. Contudo, o texto omitiu qualquer menção à Organização Mundial da Saúde (OMS), agência da ONU responsável pela coordenação de respostas a crises sanitárias globais.
A exclusão atendeu a pressões do governo dos Estados Unidos, que mantém uma postura crítica em relação à entidade. Interlocutores do governo brasileiro ressaltaram que, embora o país apoie integralmente as ações de saúde na África, a aprovação do texto tornou-se inviável sem o reconhecimento do papel institucional da OMS.
Como o Brasil participa do encontro na condição de convidado e não integra formalmente o G7, a delegação brasileira não possui prerrogativa para propor emendas diretas aos textos, restando-lhe a opção de endossar ou rejeitar os manifestos.
Novas declarações devem ser votadas nesta quarta-feira, e o governo brasileiro já sinaliza oposição a outros tópicos, como o documento que aborda a gestão de minerais críticos. Por outro lado, o país formalizou o apoio à declaração conjunta voltada ao combate global ao câncer.