Vice, para que te quero?


Segundo as regras eleitorais em vigência, o prazo para registro de candidaturas começa após as convenções partidárias, que devem ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto de 2026, então, o registro das chapas inicia-se logo após e deve ser concluído até 15 de agosto de 2026. Temos, portanto, 45 dias para a escolha e dois meses para registro das chapas que concorrerão às eleições. O tempo passa rápido.

Os candidatos ao governo já estão em plena pré-campanha. Alan Rick, Mailza Assis, Tião Bocalom e Thor Dantas cumprem na medida do permitido pela legislação esse período estranho em que tudo pode, menos pedir votos explicitamente. O que eles não têm ainda é o companheiro de chapa – o candidato a vice-governador. Faço aqui um alerta.

A vice-governadoria não é um detalhe protocolar nem mera peça de negociação, é uma decisão estratégica capaz de viabilizar ou comprometer toda a empreitada eleitoral e, depois, todo um mandato.

O nosso propósito é alertar que a escolha do vice precisa ser tratada com o mesmo rigor analítico que se dedica às grandes definições de campanha. Não porque o vice ganhe eleições, não ganha, mas porque uma escolha equivocada pode perdê-las. E, mais do que isso, pode transformar uma vitória nas urnas em uma derrota na governabilidade.

No sistema político brasileiro, marcado pela fragmentação partidária e pela lógica das coligações, o vice cumpre funções que vão muito além da sucessão constitucional. Em primeiro lugar, ele costuma ser a moeda de uma aliança, ou seja, ao ceder a vaga a um partido distinto, o titular adquire tempo de televisão, acesso ao fundo eleitoral e o engajamento de bancadas com capilaridade no território, o que pode representar a diferença entre uma campanha competitiva e uma campanha invisível.

Em segundo lugar, o vice opera como instrumento de equilíbrio. Aí entram equilíbrio geográfico (tipicamente a oposição entre capital e interior), ou entre regiões econômicas distintas; equilíbrio de perfil, quando compensa lacunas do titular em termos de gênero, faixa etária, origem profissional ou apelo a segmentos específicos, como o setor produtivo rural ou o eleitorado urbano. 

De qualquer modo, a evidência política é consistente: o eleitor vota no titular. O verdadeiro valor do vice está na arquitetura da disputa, na estrutura que ele mobiliza e nas resistências que ele dissolve e não em uma suposta capacidade de arrastar eleitores por mérito próprio.

O ponto central deste alerta é saber que o vice tem maior poder de destruir do que de construir. O teto de ganho que ele oferece é baixo, mas o piso de perda, ao contrário, pode ser catastrófico. Essa assimetria, muitos candidatos só percebem quando já é tarde.

Um vice com alta rejeição contamina a chapa inteira, um vice com passivo moral, ficha comprometida, escândalos, pendências jurídicas entrega ao adversário, de graça, o melhor material de campanha negativa. Por isso, a máxima que deveria orientar todo o processo é simples e severa: não se ganha uma eleição pelo vice, mas pode-se perdê-la por ele. Neste sentido, a escolha do vice é, antes de tudo, um exercício de gestão de risco, minimizar o piso de perda importa mais do que perseguir um ganho marginal incerto.

Há ainda uma dimensão que o calor da campanha tende a obscurecer: o vice é o sucessor legal do governador. Não são incomuns os casos em que vices se converteram em adversários, romperam com o titular e protagonizaram crises de governabilidade. A vitória eleitoral, nesses casos, transformou-se em instabilidade administrativa. No Acre, tivemos recentemente um caso pedagógico.

O candidato prudente, portanto, avalia o vice não apenas como peça de campanha, mas como parceiro de gestão e fator de estabilidade institucional. Lealdade, alinhamento de calendário político e capacidade de articulação junto à Assembleia Legislativa e às relações federativas são critérios centrais.

A escolha do vice condensa, em uma única decisão, quase todos os dilemas de uma candidatura: aliança e identidade, voto e governabilidade, cálculo de curto e de longo prazo. É uma condição habilitadora necessária, mas não suficiente. Ela não vence a eleição, mas pode inviabilizá-la; não governa, mas pode estabilizar ou desestabilizar um mandato inteiro.

O alerta que se impõe aos candidatos é, portanto, de método. Submeta o nome cogitado a uma verificação criteriosa de ficha e de rejeição. Teste sua coerência com o cenário eleitoral provável. Avalie o risco de ruptura tanto quanto o potencial de soma. E, sobretudo, resista à tentação de tratar como acessória uma decisão que é estrutural. Quem escolhe o vice sem prudência, por mera conveniência de bastidor, aposta o conjunto da candidatura em uma carta que mal examinou.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

 



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