O coração da capital acreana se transforma no palco da maior manifestação cultural do estado a partir desta sexta-feira, 12. A Praça da Revolução sedia a abertura do 18º Circuito Junino de Rio Branco, reunindo o público e grandes agremiações em uma disputa que promete emocionar e movimentar o cenário local.
Promovido pela Liga de Quadrilhas Juninas do Acre (Liquajac), em parceria com a Prefeitura de Rio Branco, o festival deste ano consolida uma forte tendência nos tablados: a união entre a dança tradicional e a dramaturgia de impacto social. Responsáveis por abrir a programação da competição, as quadrilhas Amor Junino, Explode Coração e Matutos na Roça apostam em espetáculos que vão além das evoluções coreográficas, utilizando a cultura popular como instrumento de reflexão.
Amor Junino propõe viagem à infância pré-digital
A primeira apresentação da noite fica por conta da Quadrilha Amor Junino. Fundada em 2014 e reconhecida por suas ações de valorização da cultura popular, a agremiação marca seu retorno aos arraiais após um período de afastamento com o tema “Do Clique ao Pique”.
Em uma era dominada pela tecnologia, a quadrilha propõe uma reflexão sobre a transformação das relações humanas e o sumiço das brincadeiras de rua. O público será conduzido por um universo inspirado nos quintais e praças, resgatando dinâmicas como pega-pega, esconde-esconde e brincadeiras de roda.
Na parte visual, o grupo aposta em figurinos vibrantes inspirados no universo infantil. O tradicional casamento junino ganha uma roupagem lúdica, cruzando referências de Alice no País das Maravilhas e do Sítio do Picapau Amarelo, lembrando que as experiências mais importantes da vida ainda são construídas por meio do convívio e da amizade.
Explode Coração resgata histórias esquecidas pelos livros
Segunda junina a entrar no tablado da Praça da Revolução, a Explode Coração traz uma provocação histórica com o espetáculo “Era uma vez, um conto que a história não conta”.
A proposta da agremiação parte do princípio de que nem todas as trajetórias ganharam espaço nos registros oficiais, mas muitas delas continuam vivas na memória coletiva. Inspirada no folclore e nas tradições orais, a apresentação busca dar protagonismo a personagens invisibilidades ao longo do tempo.
Ao questionar quem escreve a história e quais vozes acabam silenciadas, a Explode Coração propõe uma reflexão sobre pertencimento e identidade cultural. Para dar vida a esse universo, a quadrilha investiu em uma produção visual marcante, com cenários e elementos cênicos que misturam o encantamento do São João à crítica social.
Matutos na Roça faz alerta contra a violência doméstica
Fechando a primeira noite de apresentações, a tradicional Matutos na Roça, do bairro Aeroporto Velho, chega ao Circuito Junino com um dos temas mais densos e necessários da temporada: o espetáculo “Hoje Eu Recebi Flores”. A agremiação utiliza o espaço da festa popular para abordar a violência doméstica, o feminicídio e a importância da denúncia.
O enredo acompanha a trajetória de Narraiane Duarte, personagem que presencia as agressões sofridas pela mãe na infância e, na vida adulta, vê o ciclo de abusos se repetir em seu próprio relacionamento. O título faz referência às flores que chegam como pedidos de desculpas após episódios de agressão, mascarando a violência.
A dramaturgia inclui referências à Lei Maria da Penha e aos mecanismos de proteção. Em um dos momentos mais marcantes da encenação, a protagonista simula a estratégia real de “pedir uma pizza” pelo telefone para acionar ajuda sem despertar a suspeita do agressor. Com cerca de 90 componentes, a Matutos na Roça promete o equilíbrio entre a gravidade do tema e as evoluções juninas tradicionais que a consagraram no estado.
Diversidade no tablado
A abertura na Praça da Revolução coloca frente a frente três propostas completamente distintas, evidenciando o amadurecimento criativo do movimento junino no Acre. Enquanto a Amor Junino revisita o passado lúdico da infância, a Explode Coração resgata a memória oral e a Matutos na Roça assume o papel de utilidade pública contra a violência de gênero, provando que o São João acreano continua conectado com as dores e as cores de seu tempo.