Curta-documentário registra impactos do deslocamento do povo Sanöma para Boa Vista



O deslocamento de famílias indígenas da Terra Indígena Yanomami para áreas urbanas de Roraima é o tema central do curta-metragem documental Memória da Dor, produzido pelo jornalista, pesquisador e realizador audiovisual indígena Paulo Thadeu Kai’kan. A obra foi apresentada como produto final da Especialização em Estudos Amazônicos, promovida pela Universidade de Brasília (UnB).

Baseado na pesquisa acadêmica intitulada Memória da Dor: Uma perspectiva do deslocamento do povo Sanöma, da Terra Indígena Yanomami, para a periferia de Boa Vista, Roraima, Brasil, o documentário aborda os efeitos do deslocamento sobre a memória, a identidade e os vínculos ancestrais das famílias indígenas.

A narrativa foi construída a partir de relatos e recordações dos próprios indígenas retratados. Sem diálogos entre os personagens presentes em cena, o filme utiliza a oralidade como principal elemento para reconstruir experiências vividas e estabelecer conexões entre passado e presente.

Segundo o autor, a proposta foi transformar as memórias da família Sanöma em um registro permanente das transformações enfrentadas após a mudança para a capital roraimense.

“É um documento de resistência de uma família indígena do povo Sanöma. Um trabalho de escuta que cria corpo e imagem-recordação, onde fragmentos são resgatados e organizados para dar sentido ao passado”, definiu Paulo Thadeu Kai’kan.

Exibição no Buritizal

Recentemente, o curta foi exibido no acampamento Buritizal, localizado na periferia de Boa Vista, onde atualmente vive a família retratada na produção. A apresentação reuniu moradores da comunidade e proporcionou um momento de compartilhamento das histórias registradas durante a pesquisa.

De acordo com o pesquisador, a iniciativa busca ampliar a discussão sobre os impactos sociais, culturais e territoriais dos deslocamentos indígenas na Amazônia e poderá ganhar novos desdobramentos.

A intenção é transformar o trabalho em um projeto mais amplo de documentação, envolvendo outros povos indígenas que também enfrentam processos de deslocamento.

“A ideia é conseguir recursos para ampliar esse olhar para outros povos em processo de deslocamento. São corpos-memórias que constantemente estão em movimento”, afirmou.

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Pesquisa e produção

Indígena do povo Macuxi, Paulo Thadeu Kai’kan desenvolveu a pesquisa sob orientação da professora doutora Celia Kinuko Matsunaga Higawa, da Universidade de Brasília. O trabalho também foi avaliado por pesquisadores do Brasil e de Portugal ligados às áreas de design, comunicação visual e artes.

O documentário teve roteiro e direção geral de Paulo Thadeu Franco das Neves, com imagens e edição realizadas em parceria com José Anyolver, Ryan Renato e Mariño. A trilha sonora reúne sons de maracá executados pelo próprio diretor e a música É pelo Hip Hop, de Mariño.

Participam da obra integrantes da família de Yakisoma Paloma Sanöma e Tissawa Sanöma, com narração de Kassi Sanöma. Segundo o pesquisador, o material também será encaminhado a organizações que atuam na defesa dos direitos dos povos indígenas.



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