Cabo Verde – A seleção de Cabo Verde vai disputar pela primeira vez uma Copa do Mundo depois de apostar em um modelo incomum de recrutamento de jogadores espalhados pelo planeta. Com pouco mais de 500 mil habitantes, o país africano montou um elenco inteiramente formado por atletas nascidos ou criados fora do arquipélago e chegou até a usar o LinkedIn para convencer jogadores a defender a equipe nacional.

(Foto:)
A estratégia da Federação Cabo-Verdiana de Futebol partiu da constatação de que há mais cabo-verdianos vivendo no exterior do que dentro do próprio país. A partir disso, dirigentes passaram a rastrear filhos e netos de imigrantes que se desenvolveram em academias europeias e poderiam elevar o nível técnico da seleção.
O resultado foi a formação de um grupo sem nenhum representante da liga local. Os convocados atuam em clubes de Portugal, Holanda, França, Espanha, Rússia, Romênia, Irlanda, Turquia, Estados Unidos, Finlândia, Israel, Emirados Árabes Unidos, Bulgária, Hungria e Chipre.
Um dos casos mais curiosos da campanha cabo-verdiana é o do defensor Roberto Lopes, atualmente no Shamrock Rovers, da Irlanda. Filho de pai cabo-verdiano e mãe irlandesa, ele nasceu em Dublin e chegou a atuar nas categorias de base da seleção irlandesa antes de receber um convite inesperado em 2019.
Segundo o jogador, o primeiro contato da federação aconteceu por meio do LinkedIn, rede social normalmente usada para assuntos profissionais. Lopes contou que inicialmente acreditou se tratar de uma mensagem falsa ou de spam.
“Eu não falava português e usava o LinkedIn apenas para assuntos da universidade. Quando vi aquela mensagem, pensei que fosse falsa”, afirmou o defensor em entrevista ao Footballers Unfiltered.
Dias depois, ele recebeu um novo contato, desta vez em inglês, e decidiu responder. A partir dali começou sua trajetória na seleção africana. Para conseguir se comunicar, passou a utilizar tradutores automáticos e acabou abraçando a oportunidade de representar o país de origem do pai.
Lopes afirmou que a experiência mudou completamente sua vida pessoal e profissional. O defensor disse que conhecer a cultura africana, visitar lugares diferentes e aprender o idioma ampliaram sua visão de mundo. Hoje, ele soma 38 partidas internacionais por Cabo Verde.
O jogador também revelou que precisou conciliar o futebol e o trabalho em um banco durante parte da carreira. Segundo ele, a liga irlandesa ainda não oferecia condições financeiras suficientes para garantir estabilidade. Lopes chegou a atuar como assessor hipotecário antes de decidir seguir no futebol profissional em tempo integral.
A federação acredita que o elenco conseguiu unir características físicas associadas ao futebol africano com a disciplina tática desenvolvida nas academias europeias. O trabalho de observação de atletas da diáspora incluiu plataformas digitais e um grande mapeamento internacional.
Agora, Cabo Verde terá um enorme desafio pela frente no Mundial de 2026. A equipe está no Grupo H ao lado de Espanha, Uruguai e Arábia Saudita.
A estreia de Cabo Verde na Copa do Mundo está marcada para 15 de junho, diante da Espanha, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta. Para os jogadores e dirigentes, a participação representa a consolidação de um projeto construído com tecnologia, observação internacional e conexão com as raízes cabo-verdianas espalhadas pelo mundo.