Do quintal para as feiras: reaproveitamento de frutas nativas aumenta em até 30% a renda de famílias do Assentamento São Miguel
A produção de doces, compotas, geleias e licores feitos a partir de frutas nativas tem aumentado em até 30% a renda de famílias do Assentamento São Miguel, na zona rural de São Bernardo. A mudança começou após moradores participarem de um curso de aproveitamento de frutas oferecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que transformou produtos antes destinados apenas ao consumo doméstico em uma nova fonte de renda para a comunidade.
Situado a cerca de sete quilômetros da sede do município, o Assentamento São Miguel abriga mais de 30 famílias que têm na agricultura familiar sua principal atividade econômica. Apesar da produção agrícola garantir a subsistência dos moradores, a dificuldade de acesso a mercados consumidores e a limitação de oportunidades de geração de renda sempre estiveram entre os principais desafios enfrentados pela comunidade.
Durante muito tempo, boa parte das frutas cultivadas nos quintais era destinada apenas ao consumo das próprias famílias, o que restringia o potencial econômico da produção local. Com a capacitação promovida pelo Senar, os moradores passaram a enxergar novas possibilidades de aproveitamento e comercialização desses produtos.
O curso que transformou a produção local
A iniciativa surgiu em novembro de 2025, após moradores participarem de um curso de Associativismo e Cooperativismo realizado por meio de uma parceria entre o Senar e a Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Residentes no Assentamento São Miguel (ATTRASM).
Segundo o vice-presidente da associação, Gildomar Farias, a capacitação despertou nos moradores a percepção de que os recursos existentes na própria comunidade poderiam se transformar em oportunidades de negócio.
“Durante o curso, as mulheres entenderam que no próprio chão do assentamento poderiam produzir e gerar renda. Daí veio a provocação para que a associação conseguisse um curso de reaproveitamento de frutas. Hoje nossas mulheres estão produzindo doces e outros derivados de frutas, vendendo e aumentando a renda das suas famílias”, conta.
A partir dessa iniciativa, a associação conseguiu trazer para o assentamento o curso de reaproveitamento de frutas nativas. Durante dois dias de atividades teóricas e práticas, 30 moradores (a maioria mulheres) aprenderam técnicas de processamento e beneficiamento de frutas cultivadas na própria comunidade.
Frutas como manga, juçara, buriti, maracujá, caju, mamão, abacaxi e limão passaram a ser transformadas em doces, geleias, brigadeiros, conservas, compotas, licores, polpas e sorvetes.
Para a professora e agricultora familiar, Gleida Santos, a capacitação revelou um potencial até então pouco explorado.
“Antes do curso, muitas frutas acabavam se perdendo porque a gente usava apenas para o consumo da família ou, no máximo, para fazer um suco. A gente não imaginava quantas possibilidades existiam. Hoje, enxergamos as frutas que temos aqui no assentamento não só como alimento, mas também como uma oportunidade de gerar renda para as famílias’,
contou.
Da produção para a feira
Pouco tempo após a capacitação, os produtos começaram a conquistar espaço em feiras realizadas no município de São Bernardo e em outros eventos pelo Maranhão.
Os moradores passaram a comercializar os produtos na Feira da Matriz, promovida pela Sala do Empreendedor em parceria com a Prefeitura de São Bernardo, além de participarem de feiras da agricultura familiar e da economia solidária em São Luís.
Para os integrantes do grupo, a experiência foi importante tanto para ampliar as vendas quanto para trocar experiências com produtores de outras regiões.
“Participar das feiras na sede trouxe boas vendas e permitiu que outras pessoas conhecessem nossos produtos e se tornassem clientes. Levar nossos produtos para São Luís também foi importante porque conhecemos produtores de outras regiões e eles conheceram o nosso trabalho”, relata a dona de casa Luiza Neta.
Renda maior e fortalecimento da comunidade
Seis meses após o início das atividades, os resultados já são percebidos pelas famílias participantes.
Além da comercialização direta e das encomendas, a participação constante em feiras tem contribuído para ampliar o alcance dos produtos e fortalecer a renda dos moradores.
Segundo o grupo, o empreendimento coletivo já possibilitou um aumento de até 30% na renda das famílias envolvidas.
“Além das vendas no dia a dia, também recebemos encomendas e fazemos entregas tanto na sede de São Bernardo quanto em outros municípios, além de participarmos da Feira da Matriz todo mês. Hoje, esse trabalho já representa uma parte importante da nossa renda e tem feito diferença no orçamento de muitas famílias da comunidade”,
explica Luiza Neta.
Os impactos, no entanto, vão além do aspecto financeiro. A agricultora familiar Francisca das Chagas destaca que a iniciativa fortaleceu os laços entre os moradores.
“A união do grupo melhorou o contato e a relação com os vizinhos, criando uma sensação de que juntos a gente é mais forte. Hoje, a gente já sabe que, se fizermos juntos, vamos fazer mais e melhor”, contou.
O vice-presidente da associação ressalta que o projeto também contribuiu para o aproveitamento sustentável dos recursos naturais e para a valorização dos conhecimentos tradicionais da comunidade.
“Conseguimos aproveitar melhor as frutas nativas que existem em nossa região, evitando desperdícios e valorizando recursos que muitas vezes passavam despercebidos. Ao mesmo tempo, estamos preservando conhecimentos que já faziam parte da nossa cultura e mostrando que é possível unir tradição, sustentabilidade e desenvolvimento para melhorar a vida das famílias do assentamento”, relatou Gildomar Farias.
Entre panelas no fogo e o aroma das frutas nativas, os moradores do Assentamento São Miguel descobriram no empreendedorismo uma forma de transformar recursos da própria comunidade em oportunidade de renda. O que antes era consumido apenas pelas famílias ou acabava se perdendo, hoje ganha valor na forma de doces, compotas, geleias e licores, movimentando a economia local e criando novas perspectivas para os moradores da região.
Empreendedorismo rural e novas oportunidades
A experiência do Assentamento São Miguel reflete uma realidade presente em diversas comunidades rurais maranhenses, onde a capacitação e o empreendedorismo têm ampliado as oportunidades de geração de renda e fortalecido a agricultura familiar.
Além do retorno financeiro, iniciativas desse tipo contribuem para a permanência das famílias no campo, estimulam o trabalho coletivo e fortalecem a autoestima dos produtores rurais.
Para especialistas, a qualificação é um dos principais caminhos para tornar os pequenos negócios rurais mais competitivos e sustentáveis.
Segundo a analista do Sebrae Maranhão, Rosa Amélia, o acesso ao conhecimento tem sido decisivo para transformar a realidade de muitos produtores.
“As capacitações do Sebrae e do Senar são essenciais para o produtor ter conhecimento técnico e de gestão das suas atividades econômicas na zona rural. Cada vez mais o empreendedorismo abre portas para o empreendedor transformar sua realidade. Empreender impulsiona os negócios rurais no Maranhão, gerando renda e oportunidades”, pontuou.
Empreendedorismo nos assentamentos do Maranhão
Dados do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC) apontam que o Maranhão possui mais de mil projetos de assentamento da reforma agrária, com capacidade para atender mais de 147 mil famílias. Destas, cerca de 132 mil já estão assentadas.
Estudos realizados por instituições como a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o próprio IMESC mostram que aproximadamente 80% dessas famílias utilizam a produção agrícola para subsistência, enquanto 52,1% também comercializam parte do que produzem.
Embora a produção agrícola e a pecuária ainda sejam as principais atividades econômicas desenvolvidas nos assentamentos, cresce o número de agricultores familiares que buscam formalização e capacitação para ampliar os negócios. Atualmente, o Maranhão possui mais de 164 mil Microempreendedores Individuais (MEIs) formalizados.
Nesse contexto, parcerias entre instituições como o Sebrae, o Incra, o Iterma e o Senar têm contribuído para levar capacitação, assistência técnica e oportunidades de empreendedorismo para comunidades rurais em diversas regiões do estado.
Usamos cookies para melhorar sua experiência, analisar tráfego e personalizar conteúdo. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.