
Ronildo Rodrigues dos Santos
Cientista Social
Há momentos em que uma imagem vale mais do que mil discursos. E há outros em que uma imagem sintetiza conflitos que atravessam continentes, economias e projetos de poder. O recente vídeo divulgado pela Embaixada do Irã na Tunísia, produzido com inteligência artificial, pertence a essa segunda categoria. Nele, o Cristo Redentor e a Estátua da Liberdade deixam de ser monumentos para se tornarem personagens de uma batalha simbólica. O que parece, à primeira vista, apenas uma peça de propaganda digital, revela algo muito mais profundo: a crescente disputa por narrativas, influência e soberania em um mundo marcado por transformações tecnológicas aceleradas.
Não é por acaso que o Brasil aparece no centro dessa representação. Em um cenário internacional cada vez mais tensionado, símbolos nacionais tornaram-se instrumentos de comunicação política. O Cristo Redentor, tradicionalmente associado à acolhida, à paz e à identidade brasileira, surge como defensor diante da agressão representada pela Estátua da Liberdade. A mensagem é clara, ainda que construída por meio da ficção digital: o Brasil é retratado como uma nação que resiste às pressões externas e afirma sua autonomia.
Ora, os monumentos nunca foram apenas pedra e concreto. Eles carregam memórias, valores e expectativas coletivas. Quando passam a lutar em um vídeo gerado por inteligência artificial, não estamos apenas diante de uma inovação tecnológica. Estamos assistindo à transformação da própria política internacional em um grande palco simbólico, onde algoritmos moldam percepções e imagens circulam mais rápido do que qualquer comunicado diplomático.
Curiosamente, essa disputa de representações encontra eco em outro debate que vem mobilizando atenções dentro e fora do Brasil: o crescimento do PIX e seu impacto sobre os modelos tradicionais do sistema financeiro global. À primeira vista, os dois temas parecem desconectados. Um fala de monumentos digitais em uma propaganda geopolítica; o outro, de transferências instantâneas realizadas pelo celular. Mas ambos orbitam a mesma questão central: quem controla os fluxos de poder no século XXI?
O sucesso do PIX não se explica apenas pela eficiência tecnológica. Sua popularidade decorre do fato de ter ampliado o acesso aos serviços financeiros, reduzido custos de transação e simplificado a vida cotidiana de milhões de brasileiros. Em poucos anos, aquilo que parecia uma inovação administrativa transformou-se em um elemento estruturante da economia nacional.
É justamente aí que reside o ponto mais interessante do debate. As preocupações manifestadas por determinados setores econômicos internacionais em relação ao PIX não parecem estar relacionadas exclusivamente à sua segurança ou funcionalidade. O que está em jogo é a capacidade de um sistema público e nacional desafiar modelos de negócio historicamente sustentados pela cobrança de taxas e pela intermediação financeira. Em outras palavras, quando uma ferramenta reduz dependências e redistribui possibilidades de acesso, ela inevitavelmente altera relações de poder.
A metáfora dos monumentos em confronto ajuda a compreender esse contexto. O embate não ocorre apenas entre países, mas também entre diferentes concepções de desenvolvimento, autonomia e organização econômica. De um lado, estruturas consolidadas que dominaram durante décadas os fluxos financeiros globais. De outro, experiências que buscam ampliar margens de independência e construir alternativas tecnológicas adaptadas às necessidades locais.
Seria exagero afirmar que estamos diante de uma revolução definitiva. A história ensina que mudanças estruturais raramente acontecem de forma linear. Contudo, os sinais estão por toda parte. As disputas contemporâneas já não dependem exclusivamente de tanques, exércitos ou fronteiras físicas. Elas atravessam plataformas digitais, sistemas de pagamento, redes sociais e mecanismos de produção simbólica.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. Ao mesmo tempo em que se torna personagem de narrativas internacionais produzidas por inteligência artificial, também se transforma em referência global por meio de inovações como o PIX. Não se trata apenas de reconhecimento tecnológico, mas da afirmação de que países do Sul Global podem produzir soluções capazes de influenciar debates mundiais.
Talvez essa seja a principal lição desses acontecimentos aparentemente desconexos. O futuro das relações internacionais será definido não apenas pela força econômica ou militar, mas também pela capacidade de construir símbolos, produzir tecnologia e disputar sentidos. Afinal, em uma época em que monumentos lutam nas telas e transações atravessam continentes em segundos, a soberania já não habita apenas os territórios. Ela circula, silenciosamente, pelos cabos, pelos códigos e pelas narrativas que ajudam a explicar quem somos e quem desejamos ser.