Manaus – A gestão do prefeito de Manaus Renato Junior renovou contrato de R$ 23,7 milhões para ‘corujinhas’ – os radares eletrônicos implantados com a promessa de reduzir acidentes. A renovação ocorre enquanto se registra aumento de 18% nas mortes no trânsito nos quatro primeiros meses de 2026, segundo dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU). O cenário coloca em xeque a eficácia da política pública, com radares em locais questionáveis e reacende indagações sobre a falta de transparência em relação aos valores arrecadados, o que dá margem para uma possível “indústria da multa”.

(Foto: Rickardo Marques – GDC)
Era por volta de 8h de sexta-feira (29) quando o vigilante Eduardo Silva, 40, percorria a avenida Rodrigo Otávio, na zona centro-sul, em direção ao seu local de trabalho. Tomado pela pressa e a correria do dia-a-dia, ele tentou, num milésimo de segundo, ultrapassar uma carreta, um movimento que lhe custou a vida, provocou uma perda irreparável para sua família e praticamente parou o trânsito em várias avenidas daquela região. Eduardo entra para a crescente estatística de vidas perdidas no trânsito violento da capital amazonense.
A realidade por trás dos indicadores
De acordo com o IMMU, o número de sinistros registrados entre janeiro e abril deste ano saltou para 86 casos, 18% a mais que as 75 mortes ocorridas no mesmo período do ano passado.
O aumento de acidentes fatais coloca em dúvida a política pública adotada pelo ex-prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), que investiu milhões dos cofres públicos na instalação de dezenas de câmeras de monitoramento eletrônico, as chamadas “corujinhas”. Em maio de 2025, ao anunciar o funcionamento de mais 20 equipamentos, as manchetes que estampavam as páginas oficiais do município falavam em “compromisso com uma política de trânsito que salva vidas”.
A Prefeitura, agora sob comando de Renato Júnior parece estar satisfeita com a tecnologia. Não é à toa que o contrato de R$ 23,7 milhões com o consórcio responsável pela instalação e operação desses equipamentos voltou a ser renovado em maio deste ano, conforme publicação feita no Diário Oficial do Município (DOM).
Diminuir acidentes ou engordar os cofres públicos às custas dos motoristas?
Se a intenção do município era tão somente garantir um trânsito mais seguro para todos, acabou alcançando um alvo muito mais vantajoso do ponto de vista financeiro: uma arrecadação milionária que a Prefeitura – ao que tudo indica – não quer que o cidadão saiba.
O que se tem de informação é um dado defasado, divulgado pelo IMMU em 2025, mas que pode indicar uma noção da quantia significativa que a Prefeitura pode estar arrecadando. O dado em questão diz que entre julho e agosto daquele ano – época em que Manaus possuía apenas 27 corujinhas em funcionamento – o total de multas aplicadas superava a marca de 156 mil infrações. Um cálculo divulgado na imprensa à época com base nos valores médios de multas aplicadas identificou que, só nesse período, Manaus pode ter arrecadado cerca de R$ 20 milhões.
De lá pra cá o número de corujinhas saltou para 61 e o IMMU nunca mais deu transparência sobre as infrações registradas, não se sabe se de forma proposital para evitar que o cidadão saiba o quanto a gestão de Renato vem “lucrando” com esse negócio.
Demora na Câmara Municipal
Já houve até um projeto apresentado na Câmara Municipal (PL 346/2026) de autoria do vereador Rodrigo Guedes (Republicanos) tentando obrigar a Prefeitura a abrir a “caixa preta” das multas e revelar quanto dinheiro conseguiu arrecadar em cima das infrações aplicadas. A proposta ainda tramita a passos lentos no parlamento.
Um outro projeto semelhante, apresentado em maio do ano passado, ou seja, há mais de um ano, pelo vereador Paulo Tyrone, até hoje aguarda ser incluído na ordem do dia para enfim entrar em votação.
Enquanto a transparência não chega. Perguntas continuam sem respostas: Quanto a Prefeitura lucrou com esse sistema? Onde esse dinheiro foi parar? O que está sendo feito para, de fato, reduzir as mortes no trânsito na cidade? Com a palavra, o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana.