O Centro de São Luís desperta cedo. As portas dos comércios se abrem, os vendedores organizam mercadorias e os primeiros clientes começam a ocupar as calçadas. Nas ruas da região histórica da cidade, dois restaurantes recebem quem chega para trabalhar, almoçar ou simplesmente fazer uma pausa na correria do dia.
Para quem vê apenas o presente, são negócios como tantos outros. Mas por trás dos balcões estão histórias que começaram longe dali.
Há poucos anos, a empresária Stefanne Lindoso, hoje com 24 anos, percorria ruas e feiras vendendo drinks, bebidas e salgados. Cada evento era uma oportunidade de garantir renda e continuar sonhando. Não havia endereço fixo, estabilidade ou garantias. Havia trabalho, insistência e a disposição de enfrentar jornadas que começavam cedo e terminavam tarde.

Enquanto isso, a cantora Tassia Campos, 40 anos, vivia da música. Acostumada aos palcos e ao contato com o público, viu a própria profissão ser interrompida pela pandemia da Covid-19. Com dois filhos para criar e sem perspectiva de quando os eventos retornariam, precisou buscar uma alternativa para sustentar a família.

Em comum, as duas carregam uma característica que costuma aparecer nas grandes histórias de empreendedorismo: a capacidade de transformar necessidade em oportunidade.
Do limão, uma caipirinha
Stefanne é proprietária, junto com seu companheiro Kayo Bandeira, do empreendimento Mais uma Caipirinha. Mas para chegar ao status que eles ocupam hoje, um longo caminho foi percorrido.
Em 2022, aos 20 anos, ela foi demitida do trabalho. E o sonho que ela acalentava desde sempre começava a ter forma: o de ser empreendedora. O que parecia apenas uma forma de ganhar dinheiro tornou-se um projeto de vida.
“Eu sempre trabalhei para as pessoas. Trabalhei 3 anos em cozinha e tudo que eu faço hoje na Mais Uma Caipirinha, a forma que eu trato meus funcionários, a forma que eu lido com os clientes foi tudo que eu vi as pessoas que eu trabalhei errando e acertando, né? Porque a gente não só erra como a gente acerta. Esse sonho eu sempre tive. E é muito bom quando a gente consegue tirar do papel, mas ele veio de uma demissão”, disse Stefanne.
Para começar a dar forma ao trabalho, pediu ajuda para a mãe, para uma amiga, comprou os produtos no cartão de crédito e meteu a cara. Com duas mesas de plástico, peito cheio de coragem e coração pleno de fé, ela foi. O destino: Centro Histórico.
“A gente começou como ambulante mesmo, vendendo na rua, vendendo nas festas de Carnaval, São João, todo tipo de evento que tinha na rua. Esse foi o nosso começo. Foram três anos e quatro meses de ambulante. Um longo processo até chegar aqui”, disse Stefanne.
Há seis meses aquela ambulante passou a receber os clientes no próprio estabelecimento. O “Mais uma Caipirinha” se estabelecia na rua Godofredo Viana, no Centro. Agora, mais um passo: Stefanne e Kaio estão às voltas com obras. Logo, o bar vai para a Rua Isaac Martins, mais uma etapa desse sonho empresarial. É a materialização de uma trajetória construída passo a passo, entre caixas de bebidas, longas jornadas de trabalho e a crença de que era possível crescer. A virada de ambulante para empresária individual finalmente aconteceu.
“Sendo ambulante sempre estamos na informalidade. Quando eu estava na rua, já era MEI (Microempreendedor Individual) para poder participar dos festivais, dos eventos. A formalidade é muito boa, porque o MEI garante várias coisas, fora o faturamento que você pode ter maior quando você usa só CPF, por exemplo. Agora, a gente mudou para empresário individual, então a gente tem que estar sempre regularizada, dentro das leis. A gente sempre trabalhou de forma regular, embora como ambulante, sem ter um lugar fixo”.
Existe alguma lembrança dos tempos de ambulante que a Stefanne nunca esqueceu? “Quando a gente ia vender na chuva… carregando material, tendo que proteger os produtos, esperando cliente… Depois de 1 ano eu entendi que precisava dar uma pausa nesse período. Mas sempre é desafiador para quem trabalha na rua”, finaliza.
“Era só um bolinho”
A história de Tassia Campos seguiu um caminho diferente, mas igualmente desafiador.
Quando a pandemia silenciou os palcos, ela encontrou na cozinha uma forma de resistir. Começou fazendo bolos por encomenda para amigos e conhecidos e buscava garantir uma renda em meio às incertezas daquele período. Mal sabia ela que o talento, herdado da família, iria dar um outro rumo à sua vida.

O ponto de virada veio de maneira simples. De dentro de casa, a demanda foi aumentando, e da venda de um bolo foi investindo até apresentar seus produtos (doces e comidas) em uma barraca no Arraial de Santo Antônio. Sem nada de grana, topou. Pediu dinheiro emprestado, comprou no crédito e foi! A rotina era sair de de sua casa, no Turú, para o arraial, no Centro, por 10 noites, contando com ajuda dos familiares porque não tinha dinheiro para pagar outras pessoas. Chegava de madrugada e logo cedo já estava de pé para começar tudo de novo. Era 2022. “Foi um investimento. Eu paguei para trabalhar, mas daí veio a visibilidade, o aprendizado”, comentou.
A iniciativa funcionou. No ano seguinte o mesmo amigo que forneceu a barraca ofereceu um ponto na rua Godofredo Viana. Ela pagou o aluguel por um ano para não perder, e ainda trabalhava de casa. Aos poucos foi se estruturando até colocar alguns equipamentos: uma mesa, um fogão e uma geladeira. Junho chegou e mais uma vez ela ocupou uma barraca no arraial de Santo Antônio, mas próximo do arraial, tudo ficou mais fácil.
“Não deu lucro, mas consegui pagar todas as contas e as duas funcionárias. Porém, sobrou muito material que tinha comprado para a barraca. E pensei nesse ponto, decidi avisar para as pessoas e fui para o ponto na Godofredo Viana. Era precário, mas pedi umas mesas emprestadas, fiz um bolo e nesse dia vendi tudo”, disse.
Se a música havia parado temporariamente, a cozinha abriu novos caminhos. Os clientes começaram a aparecer. As encomendas cresceram. O que nasceu como uma estratégia de sobrevivência se transformou em negócio. Hoje, o ponto é o restaurante Ao Redor, que ela toca com o marido, Hertz Nogueira, e onde recebem a clientela.
O dia começa às 5h e só termina, no trabalho, às 17h. O bolo, por onde tudo começou, é o carro-chefe do restaurante. Se um dia ela vendeu 1 bolo, hoje a média é de 5 por dia. Tudo artesanal e caseiro, feito por ela, embora conte com uma equipe de cozinha.
Por trás dos números
As histórias de Stefanne e Tassia ajudam a explicar um fenômeno que ganhou força nos últimos anos no Brasil. Em meio a crises econômicas, desemprego e mudanças provocadas pela pandemia, milhões de brasileiros encontraram no empreendedorismo uma forma de reconstruir a própria renda e recuperar autonomia.
“Hoje já não somos mais MEI, somos Simples Nacional, porque graças a Deus aumentamos o faturamento, então somos regularizados, e temos assessoria para administrar essa parte burocrática. Não dá para fazer na doida se você quer se profissionalizar”, contou Tassia.
Mas os números não contam tudo. Eles não mostram as madrugadas de planejamento, os dias sem vendas, o medo de não conseguir pagar as contas nem a coragem necessária para começar sem garantias de sucesso.
Essas partes da história aparecem nos rostos de mulheres como Stefanne e Tassia. Hoje, elas administram negócios próprios. Recebem clientes onde antes havia apenas incerteza. Geram renda, movimentam a economia local e inspiram outras pessoas a acreditar que é possível recomeçar.
Hoje, quando abre as portas do Mais Uma Caipirinha, Stefanne já não precisa enfrentar a chuva carregando caixas pelas ruas do Centro.
E quando serve uma fatia de bolo no Ao Redor, Tassia talvez nem imagine que cada receita traz um pouco daquela cantora que precisou silenciar durante a pandemia para continuar sustentando os filhos.
Os restaurantes são diferentes.
As histórias também.
Mas ambos nasceram do mesmo ingrediente: a coragem de continuar quando desistir parecia mais fácil.
A prova de que, muitas vezes, o empreendedorismo nasce exatamente no lugar onde a vida parecia não oferecer alternativas.
Mais de 41% do total de pequenos negócios em 2026 são de mulheres
O cenário do empreendedorismo no estado, baseado nos dados de abril deste ano, aponta que o total de negócios ativos e formais no Maranhão conta com 357 mil empresas. Destes, 340.209 são Pequenos Negócios (MEI + Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). Isso representa 95,2% do total de negócios do estado. Os dados são do Data Sebrae e da Receita Federal.
Até abril, as mulheres já representam mais de 41% do total de pequenos negócios formais e ativos no Maranhão.
Entre 2024 e 2026, o empreendedorismo feminino no Maranhão registrou um crescimento acumulado de quase 23%. Isso tudo em meio a dificuldades como acesso a financiamento e crédito, o que dificulta o passo inicial de um negócio; a conciliação de jornadas; preconceito e estereótipos de gênero; solidão e falta de apoio.
Além disso, outro obstáculo é a desigualdade financeira. Segundo o Sebrae, mulheres ainda ganham, em média, 21% menos que homens, impactando o reinvestimento no próprio negócio.
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