Tendências em ingredientes: GLP-1, proteínas e saúde cognitiva [Ebook]

A rápida disseminação de medicamentos utilizados no controle de peso e metabolismo, como os agonistas de GLP-1 — popularizados por marcas como Ozempic — começa a provocar mudanças relevantes nos hábitos alimentares e já influencia discussões dentro da indústria de alimentos e bebidas. A redução do apetite e a alteração dos padrões de consumo têm impulsionado o desenvolvimento de produtos com porções menores, maior densidade nutricional e melhor qualidade dos nutrientes.

Para Adriana Stecca, sócia da KPMG, os impactos já são perceptíveis no perfil de consumo. “A orientação nutricional para usuários de GLP-1 normalmente prioriza alimentos ricos em proteínas e com baixo teor de gordura, o que tem fortalecido a demanda por produtos com esse perfil. Já itens como bebidas alcoólicas, refrigerantes e açúcares passam a ser consumidos de forma muito mais moderada”, afirma.

Segundo a executiva, esse movimento se soma a uma tendência mais ampla de busca por alimentos com maior valor nutricional, e há uma ênfase crescente em produtos com funcionalidade agregada como opções ricas em proteínas, vitaminas, minerais e aminoácidos, além de formulações livres de conservantes, corantes artificiais e outros aditivos considerados menos desejáveis pelo consumidor atual.

Além da funcionalidade nutricional, Stecca observa também um movimento de resgate de hábitos alimentares ligados à memória afetiva. “O setor está trabalhando para trazer marcas e produtos que foram sucesso antigamente e estão retornando para resgatar a memória afetiva do consumidor”, afirma.

Na avaliação de Bethânia Vargas, head de Produto e Inovação da Pronutrition, medicamentos voltados ao controle de peso também já influenciam diretamente a inovação na indústria. “Isso garante que o consumidor obtenha os nutrientes necessários mesmo com ingestão reduzida de alimentos”, afirma.

Segundo ela, o setor passa por um momento de amadurecimento na discussão sobre proteínas e alimentos processados. “Eu entendo as críticas, mas acho perigoso tratar ‘processado’ como um rótulo automaticamente negativo. Existem alimentos processados muito bem formulados — que aumentam acesso, segurança, estabilidade e até qualidade nutricional”, afirma.

A especialista também destaca que a discussão sobre proteínas evolui para uma visão mais equilibrada. “Saímos da lógica do ‘quanto tem de proteína’ para uma conversa mais madura sobre qualidade da proteína, digestibilidade, porção e equilíbrio com fibras e micronutrientes, especialmente em produtos que precisam ser práticos e consistentes no dia a dia”, diz.

Outra frente que começa a ganhar espaço no setor é o desenvolvimento de alimentos voltados para saúde cognitiva. Ingredientes associados ao desempenho mental — conhecidos como nootrópicos — passam a despertar interesse crescente no mercado.

Segundo Augusto Ichisato, engenheiro de alimentos, executivo da FoodBrasil e colunista do Food Connection, essa tendência amplia o escopo da nutrição funcional. “Uma tendência que já vem muito forte, de vários anos, que é a melhora da performance esportiva e da estética. Agora, essa é uma nova tendência, a melhora da performance intelectual através de alimentos, e eu acho que tende a ter muito apelo para a população no geral”, afirma.

Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre a necessidade de transformar o sistema alimentar global em direção a modelos mais sustentáveis. A Ellen MacArthur Foundation defende que o redesenho de produtos e ingredientes é fundamental para reduzir impactos ambientais e preservar a biodiversidade.

“Ao repensar os ingredientes que usam e como seus produtos são feitos, as marcas de alimentos e supermercados têm o poder de tornar a comida positiva para a natureza. Elas podem fornecer escolhas que são melhores para os clientes, melhores para os agricultores e melhores para o clima”, afirma a organização.

Para Gustavo Righeto Alves, gerente de Inovação e Comunidades para América Latina da fundação, esse movimento já começa a ganhar força dentro das empresas. “Cada vez mais as empresas estão se abrindo para repensar seus portfólios de produtos pensando em como ser positivo para a natureza dentro disso tudo. As empresas querem, as empresas tentam. E isso é muito importante”, afirma.

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