

Providencial que esta eleição suplementar esteja ocorrendo em um período de inverno roraimense exatamente em um ano de chuvas rigorosas. Porque isso acaba por servir de reflexão por parte dos eleitores diante dos problemas estruturais históricos aos quais as populações interioranas são submetidas. E começam a surgir cenas de pontes de madeiras precárias, estradas sem manutenção, obras públicas de qualidade muito ruim, falta de planejamento efetivo para amenizar os impactos das chuvas e outros sérios problemas.
O que está ocorrendo, neste momento, é como se fossem cenas de uma novela da vida real repetida, em que os paliativos são feitos a cada tragédia de inverno ou verão, sob a rubrica de calamidade pública, mas que depois tudo é esquecido quando o período passa, em um improviso governamental em que os políticos fazem questão de esquecer, porque inexiste um projeto de governo efetivo que independa de quem esteja no poder.
Por sua vez, as pessoas entram em uma amnésia seletiva que é agravada durante a campanha eleitoral, quando 25 litros de gasolina para adesivar carros e 12 litros para motos reforça o esquecimento crônico das mazelas por parte dos eleitores. Quem sofre as consequências mais severas do inverno clama por mudanças, enquanto a maior parte da população não impactada diretamente pelos problemas corre atrás das migalhas eleitorais que caem do banquete dos candidatos.
As comunidades indígenas estão vendo, neste momento, que elas são as mais impactadas pelo inverno rigoroso porque os seguidos governos não se mostram interessados em investir nas infraestruturas básicas, a exemplo de pontes e estradas. E por isso dezenas de comunidades indígenas ficam ilhadas porque a estrada rompeu ou a ponte de madeira foi arrastada, enquanto os políticos costumam levar somente forró e cachaça como se fosse um investimento na vida das pessoas.
Não só isso. A Comunidade Indígena Jacamazinho, no Município de Bonfim, sentiu a força da ausência governamental, quando as chuvas derrubaram o prédio improvisado da única escola que os próprios indígenas construíram, com estrutura de madeira e coberta com palha de buriti. O episódio diz muito sobre os políticos, pois nos últimos anos foram R$44 milhões em emendas que deixaram de ser executados para melhorar a estrutura de 100 escolas indígenas, o que beneficiaria cerca de 18 mil estudantes indígenas e professores que atuam na educação básica e no ensino médio.
Ainda tem mais um mês de chuvas rigorosas, quando outras regiões do Estado serão impactadas pelo inverno extremo. Será quase o mesmo período da eleição suplementar, a qual irá emendar com o período das eleições que ocorrerão em outubro. E o que mais preocupa é que todas as mazelas que estão impactando a vida das pessoas neste inverno correm o risco de serem esquecidas quando a amnésia eleitoral acometer a população acostumada a esquecer os problemas quando as migalhas começaram a cair do banquete eleitoral.
*Colunista