Aprimeira fumaça entrou cedo na vida de muitos maranhenses.
Às vezes no quintal de casa, observando um pai acender o cigarro depois do almoço. Às vezes na adolescência, entre amigos, numa tentativa de pertencimento. Quase nunca o primeiro trago chega acompanhado do peso real que ele carrega: dependência, doença e, em muitos casos, morte precoce.
No Maranhão, o cigarro ainda atravessa gerações. Está presente em pequenas cidades, nos centros urbanos, em bancas de esquina e agora reaparece, disfarçado de tecnologia e sabor, nos cigarros eletrônicos que conquistam adolescentes e jovens adultos.
No Dia Mundial sem Tabaco, celebrado neste domingo, di 31 de maio, o alerta das autoridades de saúde ganha um rosto mais humano: o de quem passou anos tentando abandonar um vício que começa silencioso, mas cobra caro.
“Eu fumava escondido aos 13 anos. Aos 40, já não conseguia subir uma escada sem cansar”, relata o aposentado José Ribamar de Andrade, morador da região metropolitana de São Luís, que passou mais de duas décadas consumindo cigarro diariamente.
Ele conta que a rotina era marcada por crises de tosse, falta de ar e internações recorrentes por problemas respiratórios. “Você acha que controla. Depois percebe que é o contrário”, resume.
Tabagismo: a principal causa evitável de mortes
A história se repete em milhares de famílias brasileiras. Dados do Instituto Nacional de Câncer apontam o tabagismo como a principal causa evitável de mortes no mundo. O cigarro está associado diretamente a doenças cardiovasculares, AVC, enfisema pulmonar, bronquite crônica e diversos tipos de câncer — especialmente o de pulmão, responsável por uma das maiores taxas de mortalidade relacionadas ao fumo.
No Maranhão, a rede pública de saúde mantém programas de combate ao tabagismo e tratamento gratuito pelo SUS, mas o desafio permanece enorme: convencer fumantes a buscar ajuda antes que os danos se tornem irreversíveis.
Segundo a Pesquisa VIGITEL, realizada em todas as capitais brasileiras, incluindo a capital maranhense (São Luís) sobre tabagismo, mostrou que a tendência da frequência de fumante diminuiu no período de 2013 a 2021. Em 2013, 8,1% da população de 18 anos ou mais era fumante na capital maranhense, diminuindo para 5,3% no ano de 2021.
O Plano 2021-2030 apresenta como meta reduzir a prevalência de tabagismo em 40% até 2030 (Brasil, 2021a). A aplicação desse percentual de redução aos dados do Vigitel resultaria em prevalência de tabagismo de 5,9% no ano de 2030 (partindo de uma frequência de 9,8% em 2019).
O vício que ocupa o corpo inteiro
A dependência da nicotina não é apenas comportamental. Ela é química, física e emocional. Médicos explicam que o cigarro altera circuitos cerebrais ligados à sensação de prazer e recompensa, tornando o abandono extremamente difícil. “Parar de fumar não depende apenas de força de vontade”, explica a assistente social Ana Paula Moraes. “Existe uma dependência química importante. Muitos pacientes precisam de acompanhamento psicológico, medicação e suporte contínuo”.
Segundo especialistas, boa parte dos fumantes tenta abandonar o cigarro várias vezes antes de conseguir definitivamente. Alguns recaem após períodos de estresse, luto ou ansiedade.
Outros substituem o cigarro tradicional pelos dispositivos eletrônicos, acreditando em uma falsa sensação de segurança. É justamente aí que mora uma das maiores preocupações atuais.
A nova fumaça
Coloridos, aromatizados e facilmente escondidos, os cigarros eletrônicos avançam principalmente entre os mais jovens. Mesmo proibidos no Brasil, os chamados “vapes” circulam em escolas, festas e redes sociais.
O problema preocupa porque os dispositivos também contêm nicotina e outras substâncias tóxicas capazes de provocar doenças respiratórias e cardiovasculares. Além disso, especialistas temem que a popularização entre jovens aumente futuramente o número de fumantes convencionais.
O peso invisível dentro de casa
O tabagismo não adoece apenas quem fuma. Dentro de casa, a fumaça alcança filhos, companheiros e idosos que convivem diariamente com o fumante. Crianças expostas ao fumo passivo têm maior risco de desenvolver asma, bronquite, pneumonia e alergias respiratórias.
Em muitos lares, o cheiro impregnado na roupa e nos móveis esconde uma realidade mais grave: famílias inteiras impactadas por uma dependência que ultrapassa o indivíduo.
Foi o que viveu Maria das Graças Ferreira, dona de casa, após perder o marido para um câncer de pulmão. “Ele começou muito novo. Dizia que conseguiria parar quando quisesse. Quando descobriu a doença, já estava avançada”, lembra.
A frequência de adultos fumantes passivos no domicílio, segundo a pesquisa da Vigitel, manteve-se estável em quase todas as faixas de idade, com redução apenas entre indivíduos entre 25 e 34 anos, variando de 10,9%, em 2018, a 9,0% em 2024 (-0,27 pp/ano).
Um combate que ainda precisa continuar
O Brasil se tornou referência mundial no controle do tabagismo graças a campanhas educativas, restrição de propagandas, aumento de impostos sobre cigarros e proibição do fumo em ambientes fechados. Essas medidas ajudaram a reduzir o número de fumantes nas últimas décadas. Ainda assim, autoridades de saúde alertam que o combate precisa ser permanente — principalmente diante das novas formas de consumo e da influência das redes sociais sobre adolescentes.
No Maranhão, profissionais da rede pública reforçam que o tratamento para abandonar o cigarro é gratuito e pode ser iniciado nas unidades básicas de saúde. O processo inclui acompanhamento multiprofissional, grupos de apoio e medicação.
O tabagismo em números
O cigarro está relacionado a cerca de 90% dos casos de câncer de pulmão;
O tabagismo também aumenta os riscos de AVC, infarto e doenças respiratórias crônicas;
O SUS oferece tratamento gratuito para fumantes;
O uso de cigarros eletrônicos cresce entre adolescentes e jovens adultos;
Não existe nível seguro para exposição ao fumo passivo.
Os sinais que o corpo dá
Especialistas alertam para sintomas comuns em fumantes crônicos:
falta de ar;
tosse persistente;
cansaço frequente;
chiado no peito;
rouquidão contínua;
dores no peito;
infecções respiratórias repetidas.