
Na Terra Indígena Trombetas-Mapuera, no sul de Roraima, professores indígenas do povo Waiwai estão transformando conhecimentos tradicionais em ferramentas de ensino para as novas gerações. A iniciativa ocorre na comunidade Jatapuzinho, localizada no Território Etnoeducacional Waiamu, que recebe, entre os dias 28 e 30 de maio, a oficina de Produção de Vídeo Didático promovida pelo Programa Ação Saberes Indígenas na Escola, desenvolvido pelo Instituto Federal de Roraima (IFRR).
Ao todo, 40 professores participam da formação, que busca integrar memória, língua e cultura aos processos educativos nas escolas indígenas. A equipe do programa partiu de Boa Vista em uma longa jornada de aproximadamente 400 quilômetros por estrada até o Rio Jatapu, no município de Caroebe. O trajeto foi concluído com mais duas horas de barco até a comunidade.
Mais do que uma capacitação técnica, a oficina representa um movimento de fortalecimento da educação escolar indígena diferenciada, intercultural e bilíngue. A proposta incentiva que os próprios educadores produzam materiais pedagógicos a partir da realidade e dos conhecimentos do povo Waiwai.
Os vídeos didáticos serão construídos coletivamente, com base em pesquisas realizadas junto a anciãos, lideranças e membros da comunidade. Entre os temas abordados estão aves, histórias tradicionais, animais silvestres, pinturas corporais e grafismos — conteúdos que já vêm sendo trabalhados nas formações do programa.
De acordo com a coordenadora da Ação Saberes Indígenas na Escola, professora Marilene Fernandes, a iniciativa contribui diretamente para a valorização da identidade cultural e para a preservação dos saberes tradicionais.
“Quando os próprios professores indígenas produzem seus materiais pedagógicos a partir dos conhecimentos do seu povo, a escola passa a dialogar verdadeiramente com a vida da comunidade. Esse trabalho fortalece a identidade cultural, valoriza os anciãos e garante que os saberes tradicionais continuem vivos e presentes na formação das novas gerações”, destacou.
O material audiovisual produzido deverá servir de apoio às atividades em sala de aula, promovendo um ensino mais conectado à realidade cultural dos estudantes. Além disso, os registros também funcionam como instrumento de preservação e transmissão dos conhecimentos tradicionais.
A oficina reforça ainda a importância da escuta e da construção coletiva do conhecimento. Durante o processo, os professores atuam não apenas como participantes, mas como pesquisadores, roteiristas e narradores de suas próprias histórias, assumindo protagonismo na produção de conteúdos alinhados à sua cultura e língua.
A iniciativa reafirma o direito dos povos originários a uma educação construída a partir de suas próprias referências, fortalecendo a autonomia e o protagonismo indígena dentro do ambiente escolar.