Manaus – A Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio do Comitê Gestor de Políticas Indigenistas (CGPIND), apresentou, na tarde desta quarta-feira (27), a Política Institucional Indigenista da universidade. A iniciativa marca um novo capítulo na trajetória de inclusão e fortalecimento da presença indígena no ensino superior da instituição. O evento reuniu lideranças indígenas, representantes de movimentos sociais, estudantes, egressos, professores e convidados ligados à pauta indígena no Amazonas.

(Foto: Divulgação)
Aprovada em janeiro deste ano, por meio da resolução n.º 013/2026 – Consuniv, a política institui diretrizes de atendimento, acesso e permanência para estudantes indígenas da graduação e pós-graduação da UEA. A criação do CGPIND e da política institucional surgiu da necessidade de atender às especificidades dos acadêmicos indígenas e fortalecer mecanismos de inclusão dentro da universidade. Desde 2005, a UEA adota o sistema de cotas étnicas, com vagas reservadas para estudantes indígenas.
Vinculado à Coordenação de Assuntos Comunitários da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (CAC/Proex), o comitê foi construído em diálogo com organizações indígenas do estado, como a Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), a Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), o Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam) e o Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (Foreeia).
Entre as principais ações apresentadas está a implementação dos Núcleos de Atendimento aos Estudantes Indígenas (NAI), previstos para 2026 em cinco unidades da universidade: Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA), Escola Normal Superior (ENS), Centro de Estudos Superiores de Tefé (Cest), Centro de Estudos Superiores de Parintins (Cesp) e Centro de Estudos Superiores de Tabatinga (Cestb). Para 2027, a meta é ampliar a iniciativa para outras quatro escolas da capital e dois centros do interior.
A política também prevê incentivo ao desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados ao fortalecimento dos direitos dos povos tradicionais, das interculturalidades indígenas e da valorização das culturas, línguas, conhecimentos, ancestralidades e tradições dos povos indígenas.
Durante o encontro, o reitor da UEA, Prof. Dr. André Zogahib, destacou o trabalho realizado pelo comitê para consolidar a política dentro da universidade. “É com muito trabalho, com muita força, com muita perseverança, que a gente, ao longo desses 25 anos na universidade, tem conseguido mostrar a importância da permanência dos povos tradicionais nas nossas casas. Eu não tenho dúvida que essa ação, que esse comitê e tudo que está sendo trabalhado vai ser feito de uma forma mais organizada, mais eficiente, mais eficaz e, sobretudo, mais efetiva, porque está institucionalizada na nossa universidade. Então, meus parabéns a todos vocês”, afirmou o reitor.
O coordenador da Apiam, Joede Sateré Mawé, ressaltou o orgulho em acompanhar o avanço da instituição em prol das populações indígenas. “Que isso seja um incentivo a mais para nós como pessoa, como indígena, seja de qualquer povo, mas que isso é apenas uma conquista de muita luta de pessoas, de jovens que vieram e que nos antecederam. Então, desde já, nosso agradecimento a cada um de vocês que abraçaram essa causa. Que daqui pra frente, a gente possa nos fortalecer muito mais, conquistar mais espaço.”
Já a coordenadora do Meiam, Izabel Munduruku, destacou a importância da união entre estudantes, professores e lideranças indígenas para a consolidação das políticas afirmativas dentro das universidades. “Que as políticas, as ações afirmativas se consolidem com políticas institucionalizadas nas universidades, e que os nossos mais velhos, nossos anciãos estejam conosco caminhando, e que eles também estejam vivos para presenciar esses momentos. É um caminho, nós ainda não estamos onde nós queremos, é só o começo”, reforçou Izabel.
A mesa de abertura também contou com a presença da vice-reitora da UEA, Prof.ª Dra. Katia Couceiro; do pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, Prof. Dr. Valber Martins; e da pró-reitora de Interiorização, Prof.ª Dra. Monica Dias. A programação teve ainda a participação da acadêmica Elizete Tikuna, que cantou o Hino Nacional em língua tikuna.
Composição do comitê
O Comitê Gestor de Políticas Indigenistas é composto por cinco docentes da universidade e um representante discente do Movimento Indígena do Amazonas – coletivo das organizações indígenas do estado.
A coordenação-geral e de políticas linguísticas está sob responsabilidade da Prof.ª Dra. Jeiviane Justiniano da Silva; a Prof.ª Dra. Adria Simone Duarte de Souza atua na coordenação de Programas Especiais; o Prof. Dr. Altair Seabra de Farias responde pela coordenação de atenção à saúde indígena; a Prof.ª Dra. Celia Aparecida Bettiol coordena as políticas de acesso, permanência e acompanhamento de egressos; e o Prof. Dr. Pedro Henrique Coelho Rapozo é responsável pela coordenação de pós-graduação.
A representatividade estudantil é exercida por Erimar Cabral Miquiles, estudante indígena do curso de Direito da UEA e representante do Movimento Indígena do Amazonas. Em sua fala, Erimar Miquiles ressaltou que a política nasce do desejo de tornar a trajetória acadêmica indígena mais acolhedora. “Também saibam que todas essas lutas é para que cada um dos estudantes tenham uma passagem pela universidade mais tranquila, porque eu sei, também sou estudante e passo por essa dificuldade. Então, tudo o que puder amenizar a nossa passagem, a gente vai estar aqui pra fazer.”
Durante a apresentação, os integrantes do comitê, junto à professora e escritora Danielle Gonzaga, do povo Munduruku, compartilharam a trajetória de construção da política institucional, os avanços já alcançados e os próximos passos previstos pela universidade. O momento também foi marcado por homenagens a lideranças indígenas que participaram da luta por essas conquistas e que já faleceram.
Confira como foi a transmissão.
Acesse aqui a resolução da Política Institucional Indigenista.