Amazônia vira centro logístico do narcotráfico global, diz pesquisador


Manaus – A Região Amazônica passou por uma mudança estrutural nas últimas duas décadas e deixou para trás o papel de rota de passagem para se transformar em centro logístico do narcotráfico global. A conclusão é do geógrafo Aiala Colares, oesquisador do Observatório de Estudos em Defesa da Amazónia (Obed) e autor do livro “Geometrias de Poder do Narcotráfico na Amazónia”. Em entrevista exclusiva ao GRUPO DIÁRIO DO AMAZONAS (GDA), o investigador apontou que a Amazônia, antes marcada pela atuação de pequenos grupos locais de comércio de drogas, é agora ocupada por organizações armadas estruturadas que disputam rotas, territórios e mercados internacionais.

(Foto: Divulgação)

Segundo o estudo, resultado de 20 anos de pesquisa, a transformação ocorreu pela intensificação das conexões internacionais das fronteiras regionais que liga a produção oriunda dos Andes aos mercados da Europa e África. Os marcos identificados incluem a expansão de fações nacionais Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), a consolidação de corredores fluviais, a criação de pistas clandestinas e a fragilidade histórica da presença estatal.

“A Amazónia deixou de ser apenas um corredor de passagem porque passou a desempenhar funções logísticas estratégicas: armazenamento, redistribuição, lavagem de dinheiro e articulação entre mercados ilegais”, explicou Colares ao GDA.

A obra adota o conceito de “geometrias de poder”, de Doreen Massey, para demonstrar que o controle territorial não significa a ocupação ‘in loco’ da floresta. O domínio ocorre por meio de “territórios-rede”, focados em pontos de circulação, como portos fluviais e estradas. O autor afirma que os grupos criminosos não procuram ocupar todo do território, mas sim pontos de acesso aos mercados, recorrendo à violência, corrupção de agentes públicos e cooptação econômica de populações ribeirinhas.

Para o autor, ainda há uma ligação direta entre o narcotráfico e os crimes ambientais, fenômenos descritos por ele como “narcogarimpo” e “narcodesmatamento”. As redes de garimpo ilegal, extração de madeira, tomada a força de terras e contrabando de minérios compartilham a mesma infraestrutura com o tráfico de drogas. A partilha de infraestruturas reduz os custos dos criminosos, sendo que o ouro extraído ilegalmente tem função de lavagem de dinheiro do tráfico.
“No livro eu caracterizo esses fenômenos como ‘crimes conexos’, isto é, atividades ilícitas que se retroalimentam financeiramente e operacionalmente. A logística do garimpo e do desmatamento reduz custos operacionais do tráfico e amplia a capacidade de circulação em áreas remotas da floresta”, explicou.

As rotas do tráfico causam o que o autor chama de “reterritorialização forçada” de territórios indígenas e quilombolas. A medida afeta diretamente povos tradicionais, causando destruição ambiental, aliciamento de jovens, e imposição de normas criminosas nas comunidades.
“O território deixa de ser espaço de reprodução social autônoma e passa a ser subordinado aos interesses das redes ilícitas. Essa dinâmica fragmenta o tecido comunitário, enfraquece mecanismos coletivos de proteção e amplia situações de medo, vulnerabilidade e perda de autonomia territorial”, frisou.

Na prática, o Brasil tem uma dupla função: via de exportação e segundo maior mercado consumidor mundial de drogas. Fatos que agravam a situação, elevando o valor econômico das rotas e aumentando os homicídios na Bacia Amazônica.
“A política proibicionista e o encarceramento em massa fortaleceram organizações criminosas no sistema prisional, ampliando sua capacidade de coordenação territorial e financeira. Assim, a Amazônia torna-se simultaneamente espaço de circulação global e arena local de guerras faccionais”, destacou Colares.

Por fim, a pesquisa sugere que sejam adotadas práticas para políticas de segurança entre os países da região. As medidas podem ser por meio de cooperação para partilha de informações (inteligência), reforço dos serviços públicos estatais em áreas vulneráveis e a substituição gradual do modelo repressivo por estratégias centradas no desenvolvimento sustentável.





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