Vídeos e relatos de supostos tubarões próximos às praias de São Luís voltaram a chamar a atenção nas últimas semanas e reacenderam dúvidas sobre os riscos no litoral maranhense. As imagens compartilhadas nas redes sociais mostram animais nadando em áreas costeiras, principalmente nas regiões do Calhau, Olho d’Água e Tauá-Mirim, gerando preocupação entre banhistas e frequentadores.
Apesar da repercussão, especialistas alertam que nem todos os registros podem ser confirmados como tubarões. Segundo o professor e pesquisador Jorge Nunes, de 49 anos, a qualidade das imagens divulgadas dificulta uma identificação precisa. “As imagens que são divulgadas não apresentam qualidade para ter a certeza que se trata de tubarões”, explicou.
Ele destaca, porém, que a presença desses animais no Maranhão é algo natural.
“O estado do Maranhão possui uma fauna rica em espécies de tubarões, com espécies costeiras, oceânicas, pequenas e de grande porte. Essa diversidade reproduz a heterogeneidade de habitat que temos e os diversos recursos que sustentam a quantidade de espécies existentes”, afirmou.
Jorge ressalta que o aparecimento de grandes animais marinhos nas proximidades das praias não deve ser encarado como algo incomum. “O flagrante de espécies próximo às praias mostra que há a presença de algumas espécies que usam estes locais como passagem, local de alimentação e outras atividades ecológicas”, disse.
De acordo com ele, a turbidez característica das águas do litoral maranhense impede que muitos animais sejam visualizados frequentemente. “A turbidez da água do mar dificulta a visualização de muitas espécies, portanto temos a impressão que não há animais na área”, pontuou.
Histórico de ataques é baixo
Mesmo diante da repercussão causada pelos vídeos, especialistas afirmam que o risco de ataques em São Luís continua sendo considerado reduzido. “São Luís é um local com potencial de riscos, mas a frequência de acidentes é muito baixa, menos de 10 acidentes em um século”, afirmou Jorge Nunes.
Os poucos registros históricos de acidentes no litoral maranhense envolvem, em sua maioria, pescadores ou pessoas em áreas mais afastadas da faixa de banho. Entre os casos mais conhecidos está o ataque registrado na década de 1990 na Praia do Olho d’Água, quando um banhista sofreu ferimentos após o contato com um animal marinho.
Ainda assim, o pesquisador lembra que animais selvagens exigem atenção. “Animais selvagens podem causar risco aos seres humanos porque têm comportamentos imprevisíveis”, alertou.
Mudanças climáticas e urbanização
Nos últimos dias, internautas passaram a relacionar os supostos avistamentos às mudanças climáticas e às alterações ambientais. Jorge Nunes, porém, avalia que não é possível estabelecer essa relação apenas com base em vídeos isolados.
“As mudanças climáticas consistem no somatório de muitos fatores, aumento de temperatura da água, acidez, mudanças de correntes, distribuição de organismos patogênicos e mudanças ambientais por urbanismo”, explicou.
Segundo ele, a simples circulação de imagens nas redes sociais pode criar uma falsa sensação de aumento no número de aparições.
“Atualmente, em função de vídeos feitos por drones, smartphones e câmeras compactas, os flagrantes da natureza são mais constantes e muitas vezes dão a falsa impressão que os registros são mais abundantes e mais frequentes”, afirmou.
O pesquisador acredita que muitos desses animais sempre estiveram presentes na costa maranhense, mas passavam despercebidos. “Enquanto o mais provável é que esses animais estejam sempre por perto sem nos darmos conta que isso é normal, pois não os vemos”, acrescentou.
Ele também alerta que o avanço urbano sobre áreas costeiras interfere diretamente na vida marinha. “Qualquer alteração urbana antrópica compromete a vida marinha. Há mais de 400 anos estamos alterando o ambiente e, nos últimos 40 anos, a urbanização se intensificou como nunca antes”, observou.
Biodiversidade e equilíbrio ambiental
O especialista explica que o litoral maranhense possui condições naturais que favorecem a presença de grandes predadores marinhos. “O litoral maranhense possui muitos recursos naturais para sustentar a biodiversidade existente. A elevada produtividade funciona como base da cadeia alimentar na região e isso permite a presença de predadores topo de cadeia”, destacou.
Ele também explica que diferentes espécies utilizam os mesmos ambientes em horários distintos. “O relógio biológico dos animais funciona de forma diferente entre as espécies. Algumas espécies são ativas no período noturno, enquanto outras são diurnas. Assim, há uma alternância entre as espécies de turnos diferentes na mesma área”, disse.
Cuidados para banhistas
Embora o número de ocorrências seja baixo, especialistas recomendam atenção em casos de avistamentos suspeitos. “O que precisa ser evitado é a entrada no mar com ferimentos, sangramentos, movimentação brusca e entrada na água pela noite”, alertou.
Ao comentar sobre a repercussão dos vídeos, o pesquisador defende ainda uma reflexão sobre a relação das pessoas com a natureza.
“A presença de animais mostra que as praias não são estéreis, há muitas espécies distribuídas que muitas vezes não são vistas”, afirmou. “Estamos perdendo a conexão com a natureza porque sempre quando podemos contemplá-la estamos distraídos filmando e fotografando, deixando de curtir o momento e a própria natureza”.