Você já viu políticos juntando todo mundo em torno de uma causa comum? Eu nunca vi. Nem na pandemia, quando um vírus ameaçava igualmente ricos e pobres, pretos e brancos, nordestinos e sulistas, ainda assim a política não uniu. Tinha quem tomasse cloroquina e quem achava que tomar cloroquina era coisa de idiota.
Igual agora: tem que gente que acha absurdo tomar detergente e gente que gosta de detergente. Normal.
Pois é. É para isso que serve a política. Ela separa, opondo pessoas com base em convicções.
E é por isso que se deve odiar o PT: na separação, ele está sempre do lado errado. Ele defende pobre.
Por que não preferir os ricos? Eles são refinados, possuem belas casas e imensas fazendas. Viajam para o exterior todo ano e trocam de carro com mais frequência do que a maioria compra roupa nova. Sabem usar talheres diferentes para peixes diferentes.
E o PT? Ah, o petismo quer acabar com isso.
Eles dizem que não. Dizem que só querem dividir um pouco da riqueza para que os pobres possam viver melhor e a coisa seja mais justa. Eu acho que isso é conversa. Tudo me leva a crer que eles não gostam de rico.
Os ricos, tadinhos, acumularam fortuna graças ao trabalho duro, ao talento pessoal, jamais explorando alguém ou se beneficiando do governo – acusações levianas que essa gente da esquerda costuma fazer.
O correto é apoiar os negócios privados e acabar com essa coisa de governo. As empresas são a verdadeira razão de ser da vida e o motor do mundo. Elas geram riquezas. Aqui na nossa terra, pagam salários horríveis, é verdade, e fazem de tudo para não pagar impostos. Mas como fariam para aumentar os lucros que possibilitam que seus donos ampliem suas fazendas, viajem e comprem belos carros, se não fosse assim?
O PT, não. Ele gosta é de governo. Vive por aí dizendo que saúde pública, educação gratuita, aposentadoria, vacinação, ruas limpas e praças bem cuidadas justificam a existência dos governos.
Veja, os petistas são os verdadeiros culpados pelos pobres receberem Bolsa Família. Tá vendo por que o PT deve ser odiado? O certo era aquele tempo em que pobre passava fome – assim aprendia desde cedo o seu lugar na sociedade. Quer dizer, era quando sabia que não tinha lugar.
Excluídos? Jamais. Isso é mimimi. Não pode ser excluído quem nunca fez parte.
E o pior: esse pessoal do PT acha que governo tem que se meter na economia. Que tem que fazer “investimento produtivo”. É um povo que acha que governo deve se preocupar com geração de emprego e crescimento econômico. Que, para isso, tem que investir em fábricas, tecnologia, formação profissional e universidades; apoiar produtor rural e distribuir terras para quem não as tem.
O lado certo na política é o dos que são contra tudo isso. Ou seja, o lado certo é o da direita. O lado dos que querem o fim do Bolsa Família, do BPC e da correção anual do salário mínimo. Já pensou toda essa gente novamente enfrentando a fome e tendo que aceitar trabalhar por qualquer dinheirinho que lhes topem pagar? Aí o Brasil volta para o rumo certo.
A gente iria ver, novamente, crianças nos sinais vendendo balas. Vivendo do próprio esforço. É porque esse pessoal da esquerda é contra criança trabalhar. O trabalho dignifica a pessoa. Veja os filhos dos ricos e da alta classe média: todos trabalham. Ah, não trabalham? Como assim ficam estudando o dia todo para ocupar os melhores cargos públicos? É, não. Alguns até ajudam a administrar as empresas herdadas dos pais.
Eu cada vez odeio mais o PT porque acho que gays, lésbicas e toda essa gente diferente deveria ser colocada de volta no armário. Por mim, seriam aprovadas leis duras que punissem com prisão quem fosse dessas coisas. E o petismo é a favor dessa gente. Falam em humanismo, direitos civis, liberdade de ser quem se é, respeito às identidades e toda essa bobagem.
A gente tem que defender é a família. E só é família de verdade quando é constituída por um homem, uma mulher e seus filhos. Daquelas em que a mulher se preservou até o casamento e somente seu marido a conhece na intimidade do quarto. Família cristã, em que a fêmea aguardou o varão escolhido por Deus. Fora disso, é degeneração.
E o direito à jogatina nas bets? A direita defende a liberdade de jogar. As pessoas ficarão endividadas? Ah, isso é problema de cada um. A esquerda vem com essa bobagem de dizer que isso desequilibra o orçamento das famílias. Balela.
Eu, por exemplo, defendo o orçamento secreto e a liberdade de os parlamentares usarem as suas emendas do jeito que bem entendam. O dinheiro não é deles? Então. Se fosse dinheiro público, aí seria outra história. O PT quer regras para o jogo e as emendas. Ô povo chato!
O meu lado na política agora é o da direita. Porque também acho que é preciso proteger os interesses dos mais ricos, das grandes empresas e dos fazendeiros. Assim como a direita, sou contra esse negócio de saúde pública e educação gratuita. Cada um deve ter a capacidade de pagar pelo hospital que lhe atende e pela escola em que o filho estuda. E sem dedução no imposto de renda.
Como a direita, agora vejo a sociedade como uma guerra permanente em que uns lutam contra os outros e os mais fortes e hábeis vencem. Tem que ser assim, na base da meritocracia. Afinal, para que serve gente fraca e pouco produtiva, não é mesmo?
Esse pessoal da esquerda defende essa tal sociedade humanista e cheia de direitos em que pretos, indígenas, pessoas com deficiência, gays e prostitutas convivem lado a lado com os ricos, fortes e vencedores.
Parece até a pregação de um certo Messias que viveu na Judeia no tempo do Império Romano. Coisa ultrapassada.
Se o mundo for povoado apenas pelos vencedores, um dia seremos todos altos, fortes, viris e superiores. Talvez até nos tornemos loiros de olhos azuis, como queria um líder alemão que viveu no século passado.
Por tudo isso, agora eu também odeio o PT.
P.S: para os casos que se façam necessários, um esclarecimento: este texto contém ironia (rsrsrs).