Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
O que era para ser o cartão-postal da Zona Sul de Macapá transformou-se em um cenário de abandono e preocupação para pedestres, ciclistas e motoristas. Entre os anos de 2023 e 2024, a Prefeitura de Macapá iniciou o plantio de dezenas de palmeiras imperiais ao longo do canteiro central da Rua Claudomiro de Moraes. O plano de arborização e paisagismo foi visto com grande otimismo pela população na época, impulsionado pelo fato de as árvores terem sido doadas ao município.
O projeto chegou a ser comparado a grandes alamedas de cidades famosas. No período natalino, as palmeiras ganharam iluminação especial, tornando-se atração turística na via. Entre os moradores, a brincadeira era inevitável: o trecho havia se transformado na “Beverly Hills Tucuju”.
Hoje, porém, a realidade é bem menos glamourosa. Quem passa pelo local depara-se com um diagnóstico implacável: as palmeiras imperiais estão mortas.

Palmeiras imperiais plantadas pela Prefeitura viraram estruturas apodrecidas no canteiro central da Claudomiro de Moraes. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
A reportagem realizou um levantamento detalhado no perímetro que vai desde a rotatória da Avenida 13 de Setembro até as proximidades do terminal de ônibus do bairro Congós, contabilizando mais de 15 palmeiras severamente comprometidas ou mortas.
O que restou no canteiro central da Claudomiro de Moraes são apenas os chamados estipes — os “esqueletos” das árvores. Uma análise visual aponta sinais claros de degradação biológica:
O topo das palmeiras está completamente decepado, seco e arredondado pelo desgaste do tempo. Sem a coroa viva, a planta perde a capacidade de realizar fotossíntese.
Na base das estruturas, o tecido fibroso está descascando, apresentando buracos profundos, podridão exposta e até o crescimento de mato e ervas daninhas diretamente na madeira morta.

Quando as árvores for plantadas na via
As árvores perderam completamente a cor natural e a textura de uma palmeira saudável, assemelhando-se a postes de madeira antigos e desgastados instalados no meio da avenida.
Além do prejuízo estético e paisagístico, a permanência dessas estruturas mortas na via pública acende um alerta vermelho para a segurança urbana. O trecho afetado compreende uma área de grande fluxo de pessoas e veículos, rodeado por ciclovias, fiação elétrica e comércios movimentados, como farmácias e academias.
Como o tecido interno da palmeira apodrece progressivamente com as chuvas e a ação de pragas, o tronco perde a sustentação estrutural. O risco de queda é iminente e pode acontecer de forma repentina, especialmente durante ventanias ou temporais isolados, comuns na região do Amapá. A remoção segura dessas estruturas por parte dos órgãos competentes é urgente para evitar acidentes graves.

Via que chegou a ser apelidada de “Beverly Hills Tucuju” agora acumula palmeiras mortas

Professora da UEAP afirma que as árvores não têm chance de recuperação e recomenda retirada imediata para evitar acidentes
Para entender o que aconteceu e quais as medidas necessárias, a reportagem procurou Alana Soares, professora e pesquisadora do curso de Engenharia Agronômica da Universidade do Estado do Amapá (UEAP). De acordo com a especialista, o cenário atual na Rua Claudomiro de Moraes é irreversível e reflete a necessidade urgente de cuidado contínuo com as árvores da cidade.
“Essas palmeiras estão sem chance de recuperação. O ideal é fazer a retirada do material vegetal, pois o mesmo corre risco de queda em via pública. Vários fatores podem ter sido a causa, como a idade do vegetal, a sanidade do mesmo e a presença de organismos como as brocas (insetos xilófagos). Não há possibilidade de rebrota nesses vegetais, ou seja, internamente eles já estão comprometidos. A indicação técnica é fazer a supressão vegetal e o replantio com espécies nativas”, explicou a pesquisadora.
Alana Soares também chamou a atenção para o fato de que a arborização urbana exige cuidados constantes após o plantio, algo crucial para resguardar a população.
“É de extrema importância sinalizar sobre a necessidade de uma manutenção constante e do monitoramento das espécies plantadas em vias públicas. Só assim é possível evitar e prevenir acidentes graves antes que a planta chegue a esse estado de degradação”, alertou.

Falta de manutenção comprometeu arborização da Claudomiro de Moraes e deixou troncos deteriorados próximos a ciclovias, comércios e rede elétrica
A agrônoma destacou ainda que os municípios brasileiros possuem, atualmente, caminhos para captar recursos financeiros e estruturar a gestão de suas áreas verdes, bastando planejamento técnico por parte das gestões municipais.
“O Ministério do Meio Ambiente está com um Edital aberto justamente para dar apoio aos municípios com Projetos de Arborização Urbana. É fundamental que as prefeituras e as Secretarias de Meio Ambiente tentem, através de seus Planos de Arborização Urbana, acessar esse recurso, que varia de R$ 1 milhão até R$ 2 milhões. É uma oportunidade para financiar o manejo correto e evitar que cenários de abandono voltem a acontecer”, concluiu a professora da UEAP.
Buscando esclarecimentos sobre a situação fitossanitária, a falta de manutenção na Zona Sul e se há interesse da gestão municipal em concorrer aos recursos federais citados pela especialista, a equipe de reportagem entrou em contato com o recém-empossado Secretário Municipal de Meio Ambiente de Macapá (Semam), Matheus Goes.
Inicialmente, o gestor respondeu aos primeiros contatos da equipe. No entanto, após ser formalmente questionado sobre o plano de manejo da via e os riscos de acidentes apontados, o secretário não enviou mais nenhum feedback até o fechamento desta reportagem.
O espaço segue aberto para o posicionamento oficial da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e da Prefeitura de Macapá.