Zabumba: a batida ancestral que moldou a identidade do Bumba Meu Boi enfrenta o desafio da visibilidade


O som grave, pesado e compassado que ecoa das grandes caixas de couro e madeira é o primeiro pulsar da história do Bumba Meu Boi no Maranhão. O sotaque de Zabumba, moldado a partir da adaptação de rituais africanos trazidos pelos povos escravizados, carrega a identidade matriz da maior manifestação cultural do estado. Dono de uma musicalidade única e de uma estética rica em detalhes, esse sotaque histórico segue como um dos tesouros mais valiosos da cultura maranhense, despertando o afeto de quem valoriza as raízes profundas da nossa terra.

Para quem estuda a evolução dessa festa, o Zabumba dita o ritmo através de uma aceleração própria e acentuada. É uma experiência cultural diferenciada, que evoca o respeito à tradição. A professora e pesquisadora cultural Ester Marques ressalta que a essência desse estilo permanece intacta na sua raiz e destaca o valor estético que ele carrega. Segundo ela, “o sotaque de zabumba é o estilo característico africano”, funcionando como “uma adaptação boa dos antigos rituais da África que vieram para o Maranhão e deram origem ao sotaque de zabumba”. Ela aponta que essa presença marcante, junto com a dança, forma a identidade do sotaque, conferindo-lhe um ritmo “bastante diferente, específico, que não se encontra em outras manifestações culturais”.

Professora e pesquisadora cultural Ester Marques (Foto: Reprodução)

Quem também acompanha de perto essa trajetória e reforça o valor singular do ritmo é o jornalista e produtor cultural Joel Jacintho. Ele explica que “o sotaque de zabumba tem a singularidade de manter os saberes técnicos originais, como a comédia, os personagens, os cantos e as danças, além da tradicional indumentária, roupas aveludadas, chapéus com fitas e saias bordadas”. O produtor detalha que o ritmo se caracteriza pelo uso de instrumentos muito específicos: “É tocado com zabumbas rústicas (feitas a mão, de madeira retirada do mangue em data certa, com lua apropriada), arrochadas na corda. Os pandeiritos são feitos de jenipapo e cobertos com couro”, além de tambor-de-fogo, tamborinho, tambor-onça, maracás e apitos.

O desafio de manter a tradição

Essa estrutura tradicional garante que o sotaque mantenha seu encanto original, mas o cenário atual do mercado cultural apresenta novos desafios. Com a ascensão e a popularização massiva de estilos visualmente mais comerciais, como o sotaque de Orquestra, o Zabumba tem encontrado espaços mais discretos nas grandes programações.

Ester Marques observa que não se trata de um enfraquecimento da tradição em si, mas sim de uma oportunidade para que as políticas de fomento estimulem e garantam ainda mais a presença desses grupos nos eventos públicos. Na visão da pesquisadora, faz-se necessário “uma política de Estado que acentue esse sotaque e, por exemplo, estimular ou garantir a presença desses grupos de boi nos eventos, como garante, por exemplo, com o sotaque de orquestra”, permitindo que tanto o público interno quanto os turistas tenham maior acesso a essa vertente do Boi.

Joel Jacintho compartilha da percepção de que o sotaque de Zabumba merece uma visibilidade ampliada nos circuitos de grande público. Ele relata sua simpatia por grupos tradicionais como o Boi da Fé em Deus, o Unidos Venceremos e o extinto boi da Ivar Saldanha, destacando que admira as toadas do Unidos Venceremos e do Fé em Deus porque “são bem elaboradas e cantam a realidade do nosso país”.

Joel Jacintho, jornalista e produtor cultural (Foto: Reprodução)

O jornalista nota que, atualmente, tem sido desafiador encontrar o Zabumba nos palcos centrais. “Por exemplo, já estamos no terceiro domingo do Maranhão de Reencontros, e ainda não foi agendado nem um grupo de zabumba. Sempre são os Bois de Orquestra, os grupos parafolclóricos, Boi da Ilha e Cacuriás e Tambor de Crioula”, observa o produtor, sugerindo que uma presença mais constante nas agendas traria maior equilíbrio. Ele pontua ainda que “o público mais jovem não tem atração pelos poucos grupos de Zabumba que se apresentam nos terreiros da cidade”, embora espaços tradicionais coordenados por entidades culturais independentes, como o Arraial de Santo Antônio no Centro Histórico, ainda garantam essa importante vitrine.

Fortalecimento do sotaque

Buscando atuar no fortalecimento e na preservação dessa diversidade, a Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) informou à reportagem que mantém uma política voltada à salvaguarda da pluralidade de sotaques, gerenciando o credenciamento dos grupos com foco na viabilização das exibições e na diversificação dos espaços de apresentação nos arraiais oficiais, trabalhando no planejamento da grade para equilibrar a visibilidade entre os grupos tradicionais e as novas manifestações.

Atualmente, o mapeamento da Secma registra a atividade de importantes batalhões pelo estado, incluindo o Boi de Pongó em Bequimão, o Boi de Guimarães em Guimarães, o Boi de Anajá em Porto Rico do Maranhão, além de uma expressiva lista de quatorze grupos ativos em São Luís, como o Boi Anjo do Meu Sonho, Brilho da Noite, Capricho de Oliveira, Boi da Fé em Deus, Unidos Venceremos e Boi da Vila Passos.

O caminho para o fortalecimento do Zabumba passa também pela união interna dos grupos e pelo fomento ao sentimento de pertencimento nas comunidades. Ester Marques defende que a transmissão geracional ocorre de forma mais potente nos espaços onde o grupo atua, como os ensaios nos bairros e a preparação das roupas nas casas dos brincantes e cantadores. “É isso que faz com que o estudante, com a geração mais nova, tenha orgulho de criar, de participar, de pertencer”, afirma.

Tanto para os realizadores quanto para os gestores da cultura, apoiar os grupos que guardam essa memória é um compromisso essencial para garantir que a batida que deu origem ao nosso São João continue ecoando forte para as próximas gerações.

Entramos em contato com representantes de grupos tradicionais dos bois de Zabumba, como os do extinto Boi de Ivar Saldanha, além de outros nomes como Boi Brilho de São João da Liberdade e Boi de Leonardo, no entanto não obtivemos retorno.

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