No Acre, o café deixou de ser apenas uma tradição rural para se transformar em oportunidade de crescimento, geração de renda e reconhecimento nacional. Em meio ao avanço da cafeicultura acreana, produtores do estado vêm acumulando premiações, investindo em qualidade e mostrando que o café produzido na Amazônia ganha cada vez mais espaço no mercado brasileiro.
Produtor há cerca de dez anos no município de Brasiléia, Lucas Silva dos Santos conta que começou na atividade ao lado da família, ainda sem experiência técnica. As primeiras lavouras não deram o retorno esperado, mas a busca por capacitação mudou o rumo da produção.
“Eu trabalhava para um vizinho e, junto com minha esposa, começamos os primeiros plantios em uma pequena área, em sociedade com a família. No início não foi fácil, porque a gente não tinha conhecimento sobre a cultura do café. Fizemos muita coisa da forma que imaginávamos ser correta, mas as primeiras lavouras não deram o retorno esperado. A gente não entendia sobre adubação, manejo e condução da lavoura, então a produção acabou sendo baixa. Mesmo assim, não desistimos. Decidimos buscar capacitação, participamos de cursos e começamos a aprender mais sobre a cafeicultura”, disse Lucas.

Lucas Silva dos Santos/Foto: Cedida
Segundo ele, o café representou uma verdadeira transformação na vida da família. O produtor deixou de trabalhar como funcionário para viver exclusivamente da própria lavoura.
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“A gente implantou a primeira lavoura já com um pouco mais de conhecimento técnico, começando a fazer a adubação correta e aplicando o que aprendemos nos cursos. A partir daí, as coisas começaram a dar certo. Com o passar do tempo, fomos nos especializando cada vez mais e ampliando a produção ano após ano. Cerca de dois anos depois da primeira lavoura, consegui deixar de ser funcionário, porque o café já sustentava minha família. Foi nesse momento que tudo mudou. Decidimos trabalhar exclusivamente com a cafeicultura, investir mais na produção e buscar ainda mais conhecimento. Passamos a seguir as técnicas corretas de manejo e adubação, e os resultados começaram a aparecer. O café mostrou para nós todo o potencial e a qualidade que essa cultura pode oferecer”, completou.
Apesar do crescimento do setor, produtores ainda enfrentam dificuldades no Acre. Entre os principais desafios apontados estão a falta de conhecimento técnico, estrutura e unidades de beneficiamento.
“Um dos maiores desafios enfrentados hoje pelos produtores de café no Acre é a falta de conhecimento técnico e de informação sobre a cultura. Muitos produtores ainda precisam de mais capacitação sobre manejo, tratos culturais e técnicas corretas de produção, que podem aumentar significativamente a produtividade e o lucro”, completou.

Lucas Silva dos Santos/Foto: Cedida
De acordo com o produtor, muitos agricultores acabam vendendo o café a preços baixos por não terem acesso a maquinário adequado para processar a produção. Na região do Alto Acre, onde existem mais de 100 produtores, apenas três unidades de beneficiamento atendem a demanda, uma delas pertencente à própria família.
Mesmo diante das dificuldades, o produtor acredita que o Acre tem potencial para se tornar referência nacional na produção de café de qualidade. O clima favorável, a agricultura familiar e o cuidado com a lavoura são apontados como diferenciais do café acreano.

Lucas Silva dos Santos/Foto: Cedida
“A agricultura familiar sempre entrega um produto de qualidade. Além disso, estamos em uma região privilegiada, no coração da Amazônia, com um clima muito favorável para a produção de café. O café do Acre tem um potencial enorme, algo que já vem sendo comprovado em feiras e eventos dos quais participamos”, disse.
O reconhecimento já começou a aparecer. A família participa de concursos de cafés especiais e acumula resultados importantes em premiações estaduais e nacionais. A esposa do produtor, Antônia dos Santos, foi campeã regional do concurso Florada Premiada em 2024, em Minas Gerais.
Além disso, o casal conquistou uma certificação internacional inédita no Acre voltada à análise sensorial de cafés especiais. Antônia se tornou a primeira mulher acreana a obter a certificação Q-Grader, reconhecida internacionalmente na avaliação da qualidade dos cafés.

Antônia dos Santos/Foto: Cedida
A produtora conta que a conquista representou a realização de um sonho e também um marco importante para as mulheres do estado. Segundo ela, a certificação vai além de uma conquista pessoal e pode servir de incentivo para outras mulheres acreanas.
“Foi um desafio fazer o curso, conseguir a aprovação e conquistar essa certificação. Eu acredito que isso é muito importante não só para mim, mas também para todas as mulheres acreanas. Espero que sirva de exemplo para que outras mulheres corram atrás dos seus sonhos e nunca desistam, porque nós somos capazes. Nós, que somos mulheres, mães e esposas, sabemos das dificuldades que enfrentamos para sair de casa, fazer um curso como esse e dedicar tempo aos estudos. Para as mulheres, tudo acaba sendo mais difícil e corrido, porque precisamos cuidar da casa, dos filhos e de tantas outras responsabilidades”, diz.

Antônia dos Santos/Foto: Cedida
A produtora também destaca a importância de o Acre passar a contar com profissionais especializados dentro do próprio estado, sem depender de análises feitas fora.
“Eu acredito que ter profissionais capacitados aqui no nosso estado facilita muito e abre muitas portas para os produtores. Assim, fica mais fácil fazer a análise do café, identificar os pontos fortes, os pontos que precisam melhorar e aprimorar o desenvolvimento dos cafés especiais. Isso contribui para que o Acre continue avançando cada vez mais nesse ramo”, finalizou.
A cafeicultura acreana segue crescendo e consolidando espaço no mercado de cafés especiais. Impulsionado principalmente pela agricultura familiar, o setor vem transformando vidas no campo e mostrando que o Acre possui potencial para se tornar referência na produção de café.