A cadeia produtiva dos produtos florestais não é generosa com o trabalhador extrativista. Adelino Silva, que mora no Vale do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, conhece bem como a contabilidade tabela acima não valoriza o trabalho extrativo.
Em um vídeo divulgado inicialmente pelo site de notícias Juruá em Tempo, o trabalhador faz um desabafo e acaba expondo não apenas a dinâmica contábil que não valoriza o trabalho do extrativista, mas os problemas estruturantes da cadeia produtiva do açaí.
“Quando alguém me pede desconto em um litro de açaí porque acha caro um litro de açaí a onze reais… fazer entrega a onze reais para chegar na mesa do cara. Nessas horas, eu fico imaginando: será que um cabra desses tem noção do que o cabra passa? O cara, para colocar o açaí na mesa dele…”, reflete o extrativista Adelino Silva, enquanto caminha por uma picada de mata, encharcada, com um cacho de açaí nas costas.
“O cabra pede onze reais, com entrega grátis pelo litro de açaí, e o cabra ainda acha caro! O cara pensa: ‘Ah… não! Mas tu vai só lá na mata buscar. Tu não plantou’. Vem aqui na mata pra tu vê como é bom! Tu vai encontrar os cachos tudo no chão do pé de açaí. Tudo dentro do saco. Tudim tirado. Aí tu não vai poder passar por isso aqui, não, pra poder chegar na BR, para poder colocar no transporte, para poder ir pra casa”, ironizou o extrativista.
E finaliza. “O cara acha que é fácil. Acha caro o litro de açaí a onze reais. Mas não sabe a realidade que o cabra passa. Se o cara soubesse e tivesse um pouquinho de amor pelo próximo, ele paga o valor que o cabra pede”.
É uma fala muito expressiva sobre vários aspectos. O preço é o fator mais imediato. Em Rio Branco, o açaí é vendido em lojas especializadas por R$ 20; R$ 30; R$ 50. Depende da quantidade do fruto. Depende também da variedade de açúcares e gorduras em forma de guloseimas que, de uns tempos pra cá, o acreano aprendeu a consumir junto com o açaí.
O fato é que, à medida que o fruto vai atravessando diversos elos da cadeia produtiva, o preço vai aumentando. E vai se distanciando daqueles modestos R$ 11 vendidos pelo extrativista. É evidente que o comerciante tem custos que o extrativista não tem; paga impostos que o extrativista não paga. É um aspecto a ser relativizado.
Mas a fala do extrativista Adelino Silva diz mais: fala a respeito do processo de extração. O trabalho completamente artesanal, sem nenhuma tecnologia empregada, expõe o trabalhador a riscos geração após geração. Tecnologia é diferente de “técnica”. O trabalho de Avelino tem muita técnica, mas pouca ou nenhuma tecnologia. Um facão e a peconha. É tudo.
Outro problema que a fala dele aponta: uma logística que respeite a geografia do lugar. Ele carrega o saco ou cacho de açaí até o transporte, para chegar à BR e depois seguir até o ponto de beneficiamento. Não se trata de defender construção de estrada asfaltada. Mas que se estabelecesse uma logística que diminuísse o tempo entre a coleta e o início do beneficiamento.
Se é verdade que o extrativista não tem muitos dos custos que o comerciante tem, é também verdade que o extrativista tem perigos e desgastes (sobretudo físicos) que não estão contabilizados nos R$ 11 que ele cobra para fornecer o fruto no comércio do Cruzeiro do Sul.
Nesse momento é que se faz necessária a execução de política pública. O estabelecimento de uma política de logística de escoamento nas regiões extrativas; a redução do tempo entre a extração e o beneficiamento em uma agroindústria certificada; a existência de uma política de preço mínimo; com trabalhador extrativista negociando e brigando pelo preço em um ambiente de cooperativismo. Se existisse esse cenário, Avelino teria que cobrar muito além dos R$ 11. A cobrança seria coletiva, com outros parceiros cooperados.