Eleição suplementar e as revelações de uma realidade que vem desde a grande feira-livre do voto


Agentes da PF durante operação contra compra de votos na eleição de 2024 em Roraima (Foto: PF/Divulgação)

O que ninguém destacou até aqui, com a eleição suplementar que embaralhou a disputa pelo Governo de Roraima, foram a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público nas investigações sobre compra de votos e as firmes decisões do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), as quais vêm sendo confirmadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no caso da cassação do então governador Antonio Denarium, quatro vezes cassados em Roraima por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

O contexto em torno dessa disputa antes do pleito principal sinaliza também o comportamento venal de boa parte dos eleitores roraimenses, os quais foram jogados na fila do assistencialismo e da distribuição de brinquedos a partir da década de 1980, quando foram igualmente habituados a buscar vantagens por meio do voto. A consequência disso é que Roraima já teve cinco governadores cassados (Flamarion Portela – 2004, Anchieta Júnior – 2011, Chico Rodrigues – 2014, Antonio Denarium – 2023/2024) e Edilson Damião – 2026), provocando um histórico de instabilidade política no Estado.

Histórica também era a cena da grande feira-livre do voto que se armava na noite e madrugada que antecediam o dia de ir às urnas, quando famílias inteiras montavam vigília em frente de suas casas nos bairros da periferia boa-vistense ou mesmo no meio da rua, quando os eleitores ficavam perambulando noite adentro à espera de alguém para comprar voto. E tudo isso abertamente, algo normalizado a cada eleição.

O Estado só chegou a esta triste realidade porque tem político com dinheiro disposto a comprar voto e, por sua vez, eleitor querendo vender o seu voto. A situação chegou a um nível tal que não se sabe mais quem é o culpado, se o político corrupto ou se o eleitor corruptível, muito semelhante ao famoso dilema publicitário do “segredo de Tostines”: “Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?”

A eleição suplementar também pegou os políticos de surpresa, os quais enfrentam o dilema de entrar de cabeça nessa disputa com pouco tempo para articulações, com a eleição marcada para 21 de junho, ou se puxam o freio de mão para não chegarem queimados nas eleições de outubro. E isso provocou um verdadeiro jogo de interesse, em que políticos e eleitores não sabem ainda se mudam de lado ou não, porque ninguém sabe das consequências que podem vir no futuro bem próximo, na eleição principal que virá logo em seguida.

Mas o único fato certeiro é a situação do Estado, em que as pessoas começaram a ver que vinham sendo engabeladas até aqui. Podia estar bem para os grandes, o crime organizado e os que se locupletam do dinheiro público. Porque quem mora nas periferias e nas mais longínquas vicinais no interior do Estado sabe que a realidade é outra. No entanto, na hora de votar, esses mesmos sofredores não conseguem sair dessa arapuca da compra e venda de votos.

Então, só resta depositar o último fio de esperança na atuação da PF, do MP e do TRE, para que continuem agindo, se não para extirpar, ao menos amenizar a deletéria compra e venda de voto, que se tornou uma instituição paralela poderosa. Aquela descarada feira-livre da compra/venda de voto já não existe mais. Logo, as recentes cassações dão um ânimo de que essas mudanças possam continuar para que seja restabelecido o verdadeiro valor do voto visando a construção de uma sociedade menos injusta.  

*Colunista

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