
Uma mudança significativa na tendência de consumo está alarmando o setor de alimentação. Além da já conhecida busca por alimentos mais saudáveis, a crescente popularização de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 começa a influenciar diretamente a arquitetura de produtos e portfólios das empresas. É o “Efeito Ozempic” na indústria de alimentos e bebidas.
Esse movimento se intensifica com a queda da patente da semaglutida no Brasil, princípio ativo dos medicamentos conhecidos para o controle do diabetes e da obesidade, como Ozempic e Wegovy. “Abre-se caminho para a entrada de versões concorrentes e para um processo que tende a ampliar gradualmente o acesso a esse tipo de terapia. Trata-se de um movimento com potencial para influenciar o comportamento alimentar dos consumidores e impactar diretamente os mercados de alimentos, bebidas e suplementos”, afirma Bethânia Vargas, Head de Projetos e Regulatórios na Pronutrition.
O medicamento, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para tratamento da diabetes, tem uso off label (fora da bula) para emagrecimento rápido, pois causa significativa redução do apetite, o que demanda alimentos com alto valor nutricional em pequenas porções.
A adaptação de portfólios na indústria exige inovação, implementação de tecnologia, ajuste do tamanho das embalagens e atenção à regulamentação. Um movimento complexo, mas que pode garantir às marcas a vantagem de sair na frente para atender a esse novo consumidor.
O cenário que impulsiona a mudança
O Brasil enfrenta um cenário epidêmico de diabetes e obesidade que contextualiza essa transformação. Segundo o Atlas Global 2025 da Federação Internacional de Diabetes, a doença afeta 10,5% da população brasileira, aproximadamente 16,6 milhões de pessoas, colocando o país como o sexto com maior número de casos no mundo. Paralelamente, o Atlas Mundial de Obesidade 2025 revela que 68% dos adultos no país apresentam sobrepeso, sendo 31% com obesidade.
Diante desse quadro alarmante, os medicamentos baseados em semaglutida e tirzepatida movimentaram cerca de R$ 10 bilhões em 2025, representando 4% do varejo farmacêutico no Brasil. A queda da patente da semaglutida em março de 2026 promete ampliar ainda mais o acesso a essas terapias, intensificando o impacto sobre a indústria de alimentos, apesar do controle rígido que a Anvisa vem impondo sobre a produção e comercialização, como o Plano de Farmacovigilância Ativa de Medicamentos da Classe dos Agonistas do GLP 1.
A nova demanda por densidade nutricional
Os medicamentos GLP-1 provocam redução significativa do apetite, alteração do paladar e dificuldades digestivas. Estudos mencionados pelo endocrinologista Roberto Zagury mostram 22% de incidência de novas deficiências nutricionais após um ano de uso de agonistas do receptor GLP-1. “O uso dos análogos (ao Ozempic) se associa a uma perda de massa magra semelhante a uma década de envelhecimento”, alerta o especialista.
Com isso, é preciso aumentar a densidade nutricional de tudo que é consumido. “Há sinais macroeconômicos coerentes com essa direção. Reportagens recentes apontam queda relevante na demanda por açúcar associada ao avanço desses medicamentos, e análises de consumo descrevem mudanças de gasto em múltiplas categorias quando lares passam a usar GLP-1”, destaca Kely Gouveia, head de Inovação e Negócio na Equilibirum.
O desafio tecnológico e operacional
Arthur Lorenzetti, VP de Nutrição Especializada da Danone Brasil, destaca a complexidade para atender ao novo público. “A ciência do alimento do futuro ganha destaque, pois o desafio da indústria é garantir que, além de oferecer o aporte de nutrientes adequado, o produto seja delicioso, prático e em um volume que o consumidor consiga consumir.”
A reformulação de portfólios para incluir produtos ricos em proteínas, fibras e micronutrientes, com redução de açúcares e gorduras saturadas, já é uma realidade em mercados mais maduros, como os Estados Unidos, e começa a ganhar força no Brasil.
Oportunidade de liderança
A crescente popularização dos medicamentos agonistas do receptor GLP-1 representa não apenas desafios, mas principalmente oportunidades para a indústria alimentícia desenvolver produtos inovadores que atendam às necessidades específicas deste crescente segmento de mercado.
A capacidade de inovar e se adaptar rapidamente será determinante para conquistar a liderança na preferência do novo perfil de consumidor e garantir relevância em um mercado em constante evolução.
É neste contexto que Congresso Fispal Tec, principal atração da Fispal Tecnologia, se prepara para reunir os principais líderes e especialistas do setor, proporcionando um palco de debates e soluções para os desafios contemporâneos da indústria alimentícia. Com o macrotema “A Inteligência que Move a Indústria Alimentar”, o encontro acontece de 16 a 18 de junho, no São Paulo Expo.
No dia 16 de junho, o painel “GLP-1, Saudabilidade e a Reinvenção do Portfólio: A Indústria está Preparada para o Novo Consumidor?”, traz Manoella Tarouco, Head de Marketing da YoPRO & Activia na Danone, e Victor Wanderley, CEO da Tial & do bem, para debater o tema. Confira a programação completa e garanta seu ingresso!
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